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Papagaio de pirata
Emmanuel Mirdad
O manifestante pintado
interrompe o show
da banda que cobra cachê caro
e não faz filantropia;
em cima do palco,
à frente de uma multidão,
munido do microfone do vocalista
que não quer ser mais o seu amigo,
grita e apita, totalmente armado de intenções
que ele acredita serem positivas, numa zoada
de gesticulações calculadas e berros,
a reproduzir o discurso
dos seus líderes milionários;
quando termina a sua mise-en-scène,
vai aos bastidores como se fosse um ídolo.
O manifestante mete a mão no freezer,
toma quantas cervejas quiser,
fica pagando de pop star,
e se sente mais astro
do que os artistas ali entediados.
O baixista,
que faz bico de roadie
e aceita dar um tapa no baseado,
não passa a bola de volta e apita:
“É, companheiro,
mais um papagaio de pirata
nesse cenário de distorções descontroladas”.
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