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Ex-sua (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Ex-sua
Emmanuel Mirdad

Madrugada.
Alguns riscos de luz a apontar o outro dia.
Ele acorda com sede, coisas da rinite,
e não se levanta da cama, a contemplar.

A coberta sinuosa, meio caída,
não cobre as costas e a bunda,
e ela lhe parece um sonho
de valsa recém-aberto,
pronto a ser devorado.

A sua mulher.
Sua.

A tríade amiga–puta–namorada
assume a breguice que prepondera:
ela é o seu lar.
Seu.

O corpo, delicioso,
fora escolhido como se ele,
um homem que deseja ser padrão,
comprasse o apartamento para formar família,
com previsão de, no mínimo,
trinta anos de moradia.

Ali, ele iria se
refugiar e divertir,
aconchegar e confidenciar
pequenos defeitos,
e reconhecer os limites,
a explorar as mais loucas e criativas
perversões sexuais,
laboratório e confessionário,
leito, caverna, camarote,
teleférico, transatlântico,
Enterprise.

Neste corpo,
ele também se possui,
também se reconhece vivo,
pulsante, viril e seguro;
nunca mais um espetáculo programado,
nunca mais a balança a julgar
se há mais benefício do que custo.

A sua mulher.
Sua.

Ela, revelada pela coberta arteira,
num final de madrugada qualquer,
é o que de mais vivo, como carne e pouso,
a vida materializa como tangível
e possível.

Improvável.

Mais uma madrugada,
outros riscos de luz
a castigar um novo dia,
ele acorda com olheiras,
coisas do bode,
e não se levanta da cama,
chorando fios de alta tensão.

A coberta, não mais sinuosa,
está caída ao chão,
embolada como há meses.
Ele se revela,
como uma lagartixa apática,
à espera da pancada
ou do bote.

A sua ex-mulher não o atende,
pela milionésima vez, em segundos,
a assumir o novo número,
o que todos conhecem,
menos ele.

A sua ex-mulher.
Ex-sua.

Ele,
sem o seu lar,
sente uma fome maior do que
a fome da ânsia.

As reticências se calam num ponto final.
O amor se reequilibra em uma outra corda
— ela o trocou por uma opção com mais vantagens,
fato consumado pela praticidade de ir atrás
apenas do seu, foda-se o nosso —,
e ele está despejado.

Por mais que haja um boom
com uma variedade de pousos
disponíveis na liquidação “o que não falta
é gente no mundo”, ele prefere a rua,
do que morar de aluguel
ou em suaves prestações.

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