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A mendiga e eu
Emmanuel Mirdad
Vestia uma regata esfarrapada,
um short furado, sandálias de dedo e meias.
Dois dentes na boca, cáries e brocas negras,
e a baba seca de quem só bebe cachaça,
da manhã à noite, cigarros e cola.
Uma mulher, cicatrizes.
Pediu-me dinheiro e me paquerou, sedutora;
os seus olhos subitamente postos a prumo
copiaram a minha biologia e me creditaram apto.
Mesmo com os dois muros, Berlim e Palestina,
além dos cães e grades e balas de Guantánamo
a nos distanciar em galáxias longínquas,
ela rompeu a neurose profunda que a define
e me quis, apenas como um homem viril e lasso,
que poderia lhe fecundar e gerar mais um miserável
— pois quem mendiga sou eu.
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