A rainha caramelo
Emmanuel Mirdad
Ela é feita de tantas misturas,
heranças, afetos e caminhos.
Nos genes, o patrimônio
da excelência mestiça,
a criação sublime do acaso,
o tesouro da exuberância das raças
que formam o Brasil,
o tom caramelo na pele,
que adoça os meus olhos e lábios
e me recorda que o sol nasce duas vezes:
no céu, quando ela abre o sorriso
do tamanho de cada felicidade humana;
e dentro do meu coração,
quando os seus olhos me iluminam
com desejo e alegria.
A grande ironia da vida
arruma mais um jeitinho de surpreender:
no Día de los Muertos,
em que bilhões de terráqueos relembram
os seus amores que se encantaram,
eis que a sincronia põe,
nesse balão frágil que é o mundo,
uma mulher gigante de sentimentos & aptidões,
tão bela por dentro quanto por fora,
a rainha caramelo que provoca:
no dia dos que se findam,
a existência se impõe como célebre,
pois é o aniversário da majestade;
ao fim, a vida transpõe a morte
— para além do desconhecido,
o que é vivo se renova,
no máximo da sua potência, beleza e maestria,
com a surpreendente dádiva: o oroboro!
[o fim é o início, o início é o fim]
Sou um sortudo da gota serena,
o privilegiado vencedor da mega da virada,
por ter sido escolhido pela muthiana orera
dos cachinhos dourados,
falsa magra de elegância pura,
nobreza e curvas,
rainha caramelo cuja voz
ilumina a lua e traduz o sol,
que me deu a graça de conhecer
a charmosa cidadezinha beira-rio,
Cairu de muitas graças,
a parte mais valiosa da família afro-baiana
e indígena que lhe forma
[falta conhecer o berço cearense-sertanejo
da sua outra metade],
pessoas tão queridas e amáveis
que me fizeram acreditar que a vida é boa,
a esperança é alívio,
e tudo o que importa
segue na calma do ritmo
das águas de Oxum.
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“Muthiana orera” é “mulher bonita” na língua Emakhuwa, do povo Macua, originário do norte de Moçambique. Aprendi a expressão em um livro da genial Paulina Chiziane. (N. do A.)
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