Download no Google Drive aqui
A anedota do tolo
Emmanuel Mirdad
Não toca em árvores;
consome plástico todo dia.
Nunca quis um ventilador;
trabalha só com ar-condicionado.
Não lê histórias de ficção ou poesia;
gasta papel higiênico em excesso.
Não abre a porta de casa e inspira;
mantém-se conectado à internet.
Estar sozinho e virtualmente poderoso
é melhor do que tocar nas pessoas.
Debocha de quem anda de bicicleta;
cogita o atropelo, tem medo e se sacia,
a imaginar o barulho dos ossos se partindo.
Não atende à ligação da mãe;
a poeira se acumula na estante
onde fica o aparelho de TV, ligado.
Não abraça a irmã quando ela faz visita,
nem atende o irmão quando ele buzina,
mesmo se o sobrinho lhe quiser mostrar
a nova cadeira de rodas que ganhara.
Investe o dinheiro em ouro e na bolsa,
e compra as mesmas blusas e cuecas
na mesma loja de departamento.
Evita olhar para a colega de trabalho, negra,
recusa o cumprimento do outro colega, gay;
quer que os indígenas sejam desalojados
e adquire um raro pássaro
na mão de um traficante
— sorri, quando o bicho aparece morto,
devorado por um suposto gato,
que não é de vizinho algum.
Não compreende o respeito pela perda;
fura o sinal vermelho, recusa a preferência
da faixa de pedestre e acelera
quando não tem radar.
Não gosta de surpresas e interpreta
o beijo no canto da boca
sempre como proposital,
a inserir as mãos na carteira
e indicar o caminho da sua casa,
nunca o motel.
Condiciona pagar em dólar,
se receber carícias
na sua protuberante barriga,
enquanto a língua encharca os ouvidos,
e o indicador estimula a próstata.
Não veste bermuda, detesta gravata;
nunca pisa no chão descalço,
e vai deixar de frequentar a igreja,
porque o pastor desabafou que tem HIV.
Não confia no seu único filho
(que faz teatro, não usa drogas
e quer votar no candidato falastrão da direita)
nem o elogia e o conforta, apenas críticas,
a exigir-lhe, com rispidez, que ganhe dinheiro
num péssimo trabalho que arrumara por escambo.
Culpa a sua ex-esposa por tudo que detesta,
assim como sempre culpa as mulheres,
quando elas são as vítimas,
na rotina dos julgamentos
do seu raciocínio.
Nunca levou os avós
para assistirem ao pôr do sol,
mas se utiliza das suas memórias
para engrandecer a sua biografia
na festa da firma,
entre os goles e afagos trocados
com o chefe milionário,
pedófilo e incompetente
— chama-o,
na intimidade dos pensamentos,
de “tirano”, “egoísta” e “covarde”
e nutre uma inveja que beira a idolatria
(como queria velejar as suas rixas antigas
nos mares transparentes das ilhas gregas).
Não deveria, mas se esqueceu de pagar
as fotos fabricadas que mandou fazer,
para garantir a imagem e o salário.
Já é muito tarde, não vai devolver,
ao caixa da padaria,
o troco que veio errado.
O canto da obscura barata soa, à noite,
e o sangue de frouxo evita o impacto;
a cascuda some na fresta da porta.
Será que não há alguém, aí dentro,
querendo sair e gritar?
Talvez, no final de fevereiro,
vinte e nove, ano bissexto.
Comentários