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Tic // Tac
Emmanuel Mirdad
{tic}
Ele sofria;
ela, não.
Ele, constante,
insistente ao telefone;
ela, redutora:
“Não tá pensando
em fazer besteira não, né?”
Ela não queria o fardo,
nenhuma responsabilidade.
Ele já fora o seu amor;
agora, um estorvo, o incômodo.
Demorou um pouco, mas ele fez,
e deixou uma extensa carta
— não ao pai —,
mas enorme, como um livro fino;
francamente expostas,
toda a fragilidade e a desesperança.
Quando soube,
sete dias depois da missa,
ela fez questão de pegar a carta
na mão da ex-sogra,
ex-mãe.
Nem chegou
ao novo lar
da vida nova;
na rua mesmo,
picotou em pedacinhos
e descartou a fragilidade
e a desesperança do morto
num terreno baldio.
Uma linha sequer
ela não leu.
{tac}
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