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A festa do coração
Emmanuel Mirdad
Milhares de pessoas pelas ruas de Cachoeira,
a oitava edição da festa literária
movimenta o Recôncavo Baiano.
Turistas, estudantes, trabalhadores,
uma multidão de desejos;
a fila imensa, com os olhos cheios d’água,
para encontrar a autora homenageada,
imortal da literatura negra — e a tevê só quer saber
do maior nome português da atualidade.
O evento, fundamental
para a economia da cidade
e para a cultura do país,
atinge o máximo de público,
o pico de popularidade,
a ponto de estrear no Jornal Nacional
uma matéria com minutos preciosos
e as marcas expostas dos patrocinadores
(e da produtora, também).
A imprensa, presente; os autores, contentes
— imagine o tamanho da responsabilidade
e o cântico da satisfação do homem
que é o coordenador geral
e sócio criador dessa farra?
Por quatro dias, ele está no topo.
Estaria, visto de fora.
Contudo, o homem do tamanho de um baobá
está com os pés firmados no massapê;
ele toma uma decisão
e se mantém além da vaidade:
fora da bolha, a decodificar o código da Matrix,
ele acorda, sozinho, no quarto 105,
e sente o íntimo vibrar: acabou o automático,
a sobrevivência, o padrão de cada dia.
O mundo volta a ser surpresa,
grávido de cores.
A vida se apresenta como paraíso,
não mais persistência,
e sim permanência,
graça, arrebatamento.
Todo esse cenário de sucesso se torna supérfluo,
argumentação para captação de patrocínio,
e ele afirma, para a mulher do sorriso de esgrima,
que a festa do seu coração, produzida por ela,
era mais importante do que a conquista do mundo.
Ela se recusa a fazer parte da vitória
do coordenador geral da Flica;
talvez seja uma defesa, talvez seja a sensatez,
e ele respeita a sua decisão, embora lamente,
pois tudo o que o forma é aquele instante,
em que todo o seu corpo anseia
pela conexão dos fluidos,
e o coração está predisposto
a amar novamente.
Depois dessa festa,
haverá a nossa festa,
ela garante.
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