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Antes tocava Gonzaga
Emmanuel Mirdad
A alisar a testa suada, cheia de marcas,
ela limpa os olhos, comprometidos pela vertigem.
O calor intenso quase quebra a coragem,
mas os passos continuam firmes.
Há muitas lágrimas, forçadas pelo calafrio soturno
do adeus sem planejamento nem alternativa;
lágrimas que não escorrem nos rostos dos pequenos
— as crianças, sem água para beberem,
não querem perder as gotas pelos olhos.
Os ossos estão magros.
Na época da escassez braba
no sertão, de tempo em tempo,
vinham as cestas e um dinheirinho,
mas os políticos locais roubaram demais,
e a notícia passou a ser outra nas capitais;
os caridosos de plantão esqueceram
que a seca não é moda,
e a morte é sempre certa.
A paciência acabara
com os roncos do estômago;
para não plantar maconha,
ela parte com o marido e a família
rumo ao litoral — e os jatos dos deputados
“singram” o céu de azul implacável.
A esperança, zombeteira descabida,
alimentada pela fé dos mais sofridos,
torna o corpo mais resistente,
fantasiosamente invencível;
e a morte, a senhora das brasas vivas,
que carboniza sorrindo,
acompanha o avançar da mãe, pai e filhos
pelo horizonte, nenhuma brisa,
a estrada sem lama nem pássaros,
apenas tormento e espinhos,
poeira e chão de pedra e barro.
À noite, a mulher pensa que,
se o marido e os filhos
morrerem no caminho,
não terá força para enterrá-los,
terá que deixá-los ao relento;
chora, por não suportar a imagem
da sua família devorada por urubus.
A fome e o medo
agravam o pesadelo:
ela se vê como um verme
afogado no reflexo da poça de sangue;
na entrada da capital litorânea,
não consegue mais andar,
e ninguém a levanta do asfalto;
os carros passam,
as bicicletas, os pedestres,
todos passam,
e o desespero acontece,
solitário.
“Quem governa lucra com a miséria,
e o descaso tortura o mais pobre.”
Há a vontade de compor,
mas não há nenhum sertanejo
para ouvi-la, poeta,
que, com a sua sanfona,
antes tocava Gonzaga;
agora, mais nada.
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