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O baobá como trevo
Emmanuel Mirdad
A porta azul de um casarão em Cachoeira
hoje dá acesso a um restaurante
que serve aos turistas da festa literária:
gente que degusta a permanência
desse espaço na história,
a saga de uma cidade-monumento;
há vida, e vibra como ontem,
o casarão acessado por outros nomes
e o mesmo sonho de
experimentar o que impele o pulso
e justifica o oxigênio:
quereres, afeto, esperança;
há sempre o desejo
e as circunstâncias dos obstáculos a impedir
alguém que quer ser livre,
alguém que quer ser amado,
e a dor, que constrói paredes e contém o salto,
continua a cercear, limitar, iludir
o sofrimento que persiste por gerações,
atravessa os séculos e alcança o degrau
na entrada da porta azul;
a mulher do sorriso de esgrima está de pé,
em frente ao homem do tamanho de um baobá,
a revelar o desconforto no polegar da canhota
que escreve o seu nome tão prenhe de si,
uma nova mulher em aclamação e a dor,
que irradia do dedo ao braço
e nenhum médico explica,
continua o percurso da tragédia de todos:
há felicidade, mas há o tapete que
as circunstâncias dos obstáculos puxa;
tem que ser agora?
Não poderia ser depois, antes ou nunca?
Ele toca no polegar, acaricia a sua mão esquerda,
colhe o braço e a cintura; ela permite
que a fragilidade seja exposta — ela que,
para ele, sempre foi muralha — e revela
a porta azul do oceano da complexidade humana:
nela, há vida e vibra; ele se reconhece também frágil,
o baobá como trevo, e oferece a permanência
monumentada no cuidado, carinho e afeto
do casarão histórico do amor incondicional.
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