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Oel ngati kameie (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Oel ngati kameie
Emmanuel Mirdad

A ser franco e honesto,
eu penso muito
em você.

Tenho impulsos,
diversos convites
que brotam ansiosos
a serem feitos a você.

Parece que a vida,
de repente,
livrou-me das amarras
do automático fazer,
e brota um bilhão
de possibilidades.

Ser feliz;
agora existe e pulsa em mim
uma enorme necessidade de viver o prazer,
as boas coisas, risadas, gozos,
abraços e carinhos entupidos de
uma química voraz que preenche
os buracos dos traumas,
com um bem-estar viril e preparado a consumar
o que os corpos estão predestinados a explodir:
sede, fome, paixão,
anterior ao pensamento,
inerente ao desejo primal.

Eu quero você,
próxima e constante,
a sorrir e compartilhar,
interagir, aprender, compreender,
colecionar piadas e segredos internos,
ironizar e debochar dos pequenos erros
como dois moleques.

E você me quer,
perto e constante,
para aventurar a rotina
nas alternativas do bem viver
que os comuns não enxergam.

Eu desejo o seu corpo
simétrico e tão apto
a ser o lar do meu;
a analisar as outras mulheres,
decido que você pode me bastar.

Pode, sim,
por possuir,
antes de qualquer verbo,
raciocínio e intenção,
a atração que nada,
nem ninguém pode explicar,
e, como um ímã feroz,
arrasta-me, suga-me, 
devora tudo o que manifesto.

É um bem raro
— raríssima oportunidade —;
e, ao me encontrar nesse acaso quase maktub
— mesmo para um cético contraditório como eu —,
após tanto tempo em busca aleatória e inútil,
sincera e escancaradamente exposto, afirmo:
eu vejo você!

Esta afeição vem antes do mundo:
do pensamento, da razão,
da lógica dos formatos,
e não é compreensível.
Está além do jogo de interesses,
e é imune à forja do ideal;
apenas passa a existir, antes do signo.

Raríssima:
o parto da coincidência,
amor escancarado,
sem cortes e ponderações
— que só preveem o que não é,
e distorcem tudo em prol de uma preservação
que não preserva o que, de fato, interessa:
o encontro.

Esta afeição é o embrião
já fecundado,
pedra bruta
do maior de todos:
o amor coincidido,
despretensioso e irracional.

Enquanto todos estão umbigados
nos seus objetivos seguros, mero padrão,
e o “amor” não passa de
uma outra forma de dizer bom dia,
ou avaliar como está a frágil segurança
de não estar sem alguém para lhe aturar,
eu vejo você.

Vivi diversos outros:
amores menores e confusos,
amores construídos
— maior falha das relações humanas —,
amores mesquinhos e superficiais,
amores parasitas e desamores.
Agora, afirmo que sei
muito bem o que eu quero:
você.

É claro que podemos quebrar a cara,
com a violência óbvia da realidade,
rotina e exigências egoístas que sempre surgem,
num repente do acordar de manhã e sentenciar:
não era isso o que eu queria.

É claro que é possível,
mas também é provável que,
ao despencarmos do 18º andar,
com a venda cálida que protege os amantes,
a sorte prospere a sua raridade ocasional
e permita que a linda história de amor
nos encontre, mais louca que nos romances,
e alimente a vida, que está embrutecida e veloz,
com a pausa sagrada de quem apenas vê,
e não enxerga.

Parceira, amiga, inteligente, escrota,
sarcástica, confidente, aprendiz, mestra;
uma mulher linda, interessante, gostosa,
com os olhos de galáxia
e o sorriso de vastidão,
em que mergulho e me acho,
em que gargalho e a encontro
— é isso: eu me encontro em você,
você se encontra em mim.

O sublime é muito mais real e próximo
do que nos sonhos.

“I see you”.


_____

“Oel ngati kameie” é uma saudação na língua Na’vi, que quer dizer “Eu vejo você”. A língua do povo Na’vi foi criada pelo linguista estadunidense Paul Frommer para o filme “Avatar” (2009), de James Cameron. (N. do A.)

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