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Naquele exato momento, de Dino Buzzati

Dino Buzzati (foto daqui)


"É paradisíaca a escadaria de onde se assiste ao triunfo do Eterno."


"E sobre a morte, você não diz nada? Não cogitou dela? Ela continua a subir dentro de você. Ainda que em todo o seu corpo não houvesse nem uma célula gasta, da mesma forma ela avançaria. Desde o dia em que você nasceu, está subindo milímetro por milímetro (...) Você não pensa nisso, é verdade, por enquanto esqueceu completamente, mas quando parece que lhe falta somente um sopro, uma distância imperceptível, menos de um passo, para ser feliz, aí você tropeça e não avança nem consegue saber por quê, esse intervalo infinitesimal é sempre ela, a morte, e você pode fugir pelos oceanos e pelos montes, você a trará sempre dentro de si mesmo e, odiando-a mais do que qualquer outra coisa, a nutrirá de si próprio dia e noite: nunca houve mãe tão dedicada ao filho."


"Que é você, criatura? Um gracioso grãozinho de pó perdido no universo, tão só, simples e desprotegido (...) Uma camada infinitesimal de ar sempre nos divide, nunca, realmente nunca, poderemos superá-la. Assim, você ficará fora de mim, com todos seus estranhos mistérios. Sorrisos, abraços, ternos olhares, quanto esforço inútil. Mas nos encontraremos. Somos ilhas solitárias, semeadas no oceano, e um imenso espaço as separa. Beijos, juramentos, lágrimas; são como pequenas pontes, ridículos gravetos que atiramos, da margem, para ultrapassar os abismos. E todo dia se repete esta história absurda."


"As páginas da vida, quero dizer, as horas, os dias astronômicos e os meses, sem necessidade de estúpidas metáforas, se sucedem com grande rapidez (...) Caminham lentamente, como grandes senhores. Mas nunca param, os malditos, não dão nem um segundo de descanso, em vão corremos na frente, preparamos, planejamos, cálculos, projetos. Somos homens, ai de mim, e de vez em quando devemos parar. Paramos e adormecemos. Mas assim, enquanto estamos parados à beira da estrada, sonhando com estranhas coisas, as horas, os dias, meses e anos nos alcançam, um por um, com sua abominável lentidão nos ultrapassam, perdem-se no fim da estrada. Depois, pela manhã, notamos que ficamos para trás, começamos a perseguição (...) Queremos dizer simplesmente que, neste exato momento, acaba a juventude."


"(...) Nenhuma sociedade, de fato, é tão baixa e desonrosa como a que repele os velhos para as margens da estrada, humilha-os e esquece-os, dizendo-lhes com pobres palavras: – Viveram suficientemente, agora fora! (...) Nenhuma sociedade é tão ignóbil como a nossa (...) onde aos velhos se deixa mais ou menos o lixo e se acha graça (...) E então os vemos pela rua, olhando ao redor, tímidos, pedindo desculpas por ainda estarem aqui (...) As crianças têm a infinita vantagem de terem sido postas no mundo por vocês, vocês têm o crédito, enquanto os velhos carregam o erro imperdoável de terem consumido a vida por vocês, para vocês tudo, trabalho, sacrifícios, amor, na melancólica ilusão de que um dia vocês lhes restituiriam um pouco daquele bem. Pior ainda: carregam o erro de não lembrar mais a infinita conta que lhes poderiam apresentar: e aqueles olhares humildes, cansados e submissos os cortam mais do que um remorso."


"Nunca a conheci tão bela, embora nos víssemos frequentemente. É claro, você não pensava nem em mim nem neste ou naquele homem. Talvez, quem sabe, num vestido novo ou nos sapatos que a machucavam. Sobre essas misérias havia porém algo de maior que a transformava; todo o seu destino, infeliz, estava celebrando o único possível e amargo triunfo: o de dirigir-se com tamanha e cega desfaçatez para a ruína."


"(...) Com os cotovelos no peitoril, em silêncio (...) ouviremos bater a porta de casa, obra de nossos filhos, que, cansados de nós, estão impacientes por sair. Da rua, levantando a cabeça, nos cumprimentarão alegremente, mas sem nenhum entusiasmo, para libertar a alma também deste último dever, e depois se dispersarão pelos jardins para entregar-se ao amor (...) Veremos, portanto, nossos filhos felizes – quanto se possa ser nesse mundo – orgulhosos de sua idade, estranhamente satisfeitos, como acontece com os jovens, por serem a fileira de maior frescor, os últimos e ao mesmo tempo os primeiros, ainda em jejum e por isso insaciáveis, certos de que tudo, desde o princípio dos séculos, foi preparado exclusivamente para eles."


"É possível que há pouco, no refúgio, antes de partir, deitado na enxerga, ele tenha devaneado longamente sobre o esquálido amanhã (...) Talvez se tenha visto andar de um lado para outro, oferecendo seus trabalhos literários ou musicais, que provavelmente precisavam de tempos mais fáceis e calmos, propensos à arte, precisavam de gente refinada; ou talvez se tenha visto bater às portas dos jornais, dos editores, dos teatros, dos velhos amigos que têm outras coisas na cabeça, dos amigos distraídos e egoístas como eu. Talvez tenha percebido este melancólico entardecer de uma tarde que nem existiu. E ao redor, o alvoroço de um mundo ávido e estrangeiro que não sabia o que fazer dele (...) – Zapparoli, Zapparoli! – gritamos, usando as mãos como porta-voz, às geleiras que não respondem; – Zapparoli, por que não volta?"


"Deixou o guichê com o certificado na mão. Estranho. Agora que o conseguira, não lhe dava mais nenhum valor. Rodeando com passos rápidos a sua fila, percebeu, com vergonha, seus semelhantes pregados ainda na espera; eram idênticos a ele meia hora antes: rostos ansiosos, tensos no estupor da inutilidade e do egoísmo, com olhares de inveja e de ódio voltados para ele, toda aquela preocupação miserável, aquele desejo, aquele fanático amor por si mesmos."


"(...) ele vagueava na vida sem maiores necessidades profundas, como se não sofresse mais nenhum insulto do mundo ou como se seus sofrimentos fossem exclusivamente pessoais e não pudessem concernir os outros. Ao passo que, antes, não era assim. E como não se pudesse imaginar que fosse a qualidade das aflições que tivesse mudado, restava pensar que ele mudara, que estivesse vazio, que tivesse perdido a faculdade de recolher numa só as dispersas e secretas vozes dos homens."


"O mais importante está lá atrás, no fundo das casas onde estagna o cheiro dos corpos nus. De lá saem as grandes descobertas, os vícios, os filhos, as ideias que fazem avançar o mundo, a morte. Misteriosos esconderijos do homem: são também a grande maravilha da vida, o que torna as pessoas suportáveis. Como poderíamos continuar, mesmo por um dia, se deles soubéssemos tudo?"


"(...) nos espelhos olha-nos um rosto ao mesmo tempo velhíssimo e novo, que conhecemos, ai de mim, bem demais; porém, nunca nos aparecera tão pálido, sarcástico e, em seu conjunto, desolado. E do silêncio profundo, sobre o pálido eco do tango, o murmúrio da água, escorrendo dos grandes mictórios de maiólica, fala-nos, traiçoeiramente, com acento humilde e amigo, lembrando-nos bondosamente as misérias do homem e as esperanças perdidas (...) Escapa-nos o domínio do mundo e, revolvendo sempre a voz dos mictórios em nossos amargos pensamentos, sacudimos a cabeça para ver o outro, aquele rosto néscio, no espelho, que nos faz um sinal negativo."


"Muita gente, ao cumprimentar um artista, faz essa maldade: a de louvar não suas obras recentes, que são realmente suas, mas trabalhos velhíssimos, cujo verdadeiro autor não existe mais. Porque o eu de vinte anos atrás é para mim um estranho, com o qual tenho muito pouca coisa em comum. E se escreveu alguma coisa realmente boa, tenho quase raiva. O eu a quem quero bem é o de hoje, no máximo o de ontem, de anteontem. Mais longe, é um estrangeiro desconhecido cujos méritos me são indiferentes."


"Uma praça imensa, portanto, tendo ao redor uma infinidade de casas, esta é a vida; e, no centro, os homens que negociam entre si e nunca alguém consegue conhecer as outras casas; somente a sua e, mesmo esta, geralmente mal, porque permanecem muitos ângulos escuros e às vezes quartos inteiros que o dono não tem paciência ou coragem de explorar. E a verdade se encontra somente nas casas e não fora delas. De maneira que, do resto do gênero humano, nunca se sabe nada."



Presentes no livro "Naquele exato momento" (Nova Fronteira, 2004), de Dino Buzzati, tradução de Fulvia M. L. Moretto, páginas 56, 59-60, 32-33, 70-71, 212-213, 18, 24-25, 187, 255, 51, 97, 134, 271 e 150, respectivamente.

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