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O grito do mar na noite — Orelha de Márcio Matos

Márcio Matos - Foto: Facebook do escritor.


O escritor e comunicólogo Márcio Matos, autor dos livros Suave anomalia e A noite em que nós todos fomos felizes, escreveu o texto Sobre pugilatos e capitulações para a orelha do livro de contos O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), de Emmanuel Mirdad. Veja abaixo (após a imagem da orelha na capa do livro, texto na íntegra):





Sobre pugilatos e capitulações

O conto é, por excelência, o gênero do não-dito. Não alonga as histórias a ponto de mimetizar a narrativa romanesca e, semelhante à poesia, faz muito com pouco, tanto em termos estilísticos, quanto de conteúdo. Escrever contos é, portanto, um desafio de grande monta, que revela a real capacidade de um escritor ao manejar as palavras.

Ciente disso, Emmanuel Mirdad realiza com o livro de contos O grito do mar na noite um rigoroso exercício, cuja exatidão determina a capitulação do leitor. Capitulação, entenda-se bem, no sentido que Cortázar, numa analogia com o boxe, definiu como a especificidade do conto: o poder de, diferentemente do romance, vencer a luta por nocaute.

De cara, em Chá de boldo, recebemos um jab com a história do velho abandonado pela família. Ali, já somos “golpeados” por duas grandes qualidades de Mirdad: a maturidade para tratar de temas espinhosos e a mínima concessão com a linearidade narrativa, recurso que ele aprofundará em outros momentos do livro, como no cortante Assexuada.

Na opção pelo caos da não-linearidade, verificamos a reverência do autor às “regras” do gênero. Seus contos não têm acúmulos, as frases são coloquiais, diretas, o ritmo é frenético. O leitor que preencha os vazios da narrativa com seus próprios vieses cognitivos. O essencial está exposto no texto, o mais são nuvens, inferências – ou aquilo que eleva um conto à condição de relíquia íntima.

Mirdad move-se pelo ringue na certeira intenção de deixar o leitor tonto e, quando este baixa a guarda, aplica-lhe o golpe fatal, como na seguinte passagem de No palheiro: “– Venha. A gente se encontra no estacionamento do Bompreço. Seja rápido, porque só temos duas horas e eu ainda tenho que comprar coentro”.

O leitor, pobre sparring de um boxeador muito dono de si, sucumbe à devastadora naturalidade da situação, que ao mesmo tempo encerra uma tensão e a projeta.

No equilíbrio entre o que se mostra e o que fica subentendido, Mirdad vai tecendo um agudo painel das relações humanas, sobretudo afetivas, nas quais homens e mulheres expõem suas fraquezas ante a banalidade da vida e do tempo. Sobre o tempo, aliás, vale ressaltar a conexão do autor com a contemporaneidade. Mirdad cita ícones do momento e brinca com a antítese passado-presente, demonstrando que os grandes feitos inserem-se na trivialidade do dia a dia (mesmo a hedionda trivialidade dos crimes passionais). O homem comum e “real”, escritor-narrador, citado inúmeras vezes pela metalinguagem dos seus contos, é o grande artífice da história e, de resto, da própria literatura.

Ao final do tour de force do conto Quase onze dias, a contabilidade só aparentemente é prosaica. O pugilato está prestes a ser vencido por pontos, numa tática mais próxima do romance, mas Mirdad retoma a energia lisérgica e masculina da sua prosa e dá o golpe de misericórdia. Ainda abalado pelo incidente envolvendo Theo e Maria, o leitor assiste atônito à indiferença do outro vértice da trama: “(...) Fábio parou numa banquinha de frutas e aproveitou para comprar tangerinas. – Uhn, tá bom pra caralho, que beleza, man!”

Soa o gongo. Agora, as ring girls só voltarão a desfilar nas páginas seguintes.

Márcio Matos
Escritor e comunicólogo

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