Pular para o conteúdo principal

Quatro passagens de Márcio Matos no livro Ave Noturna

Márcio Matos
Foto: Divulgação


"As cores estremecidas da atmosfera percorriam um século de pequenas partículas de poeira, esfumando discretamente a paisagem. Quando há tempo, há sempre uma remota chance de humanidade, mesmo nos locais mais hostis, onde as pessoas apenas respiram na certeza de que alguém ou algo infinito lhes guarde um futuro glorioso."


"Ao ver o corpo estirado, o coveiro se refestelou. Atirou-se sobre a mulher e abriu a braguilha da calça com agonia. A expiração que vinha dos pulmões subia até a garganta em direção ao ar, alagando narinas e boca como um vômito incontrolável de gás e calor. Estrebuchava feito verme no lodo, o sangue misturado ao suor dos corpos, mas, para a sua sorte, calhou de não haver nenhum sepultamento naquela tarde."


"A incrível sucessão de escusas não tinha fim. Contagiava inocentes úteis, parasitava o raciocínio de pessoas mais lúcidas, avolumava-se na consciência do promotor. Para Prudente, o caso se transformara numa questão de honra. Ele não cederia a conchavos, não se alinharia à multidão. Estavam todos sendo conduzidos numa travessia marítima quase messiânica. Parecia-lhe fatal que terminassem afogados. (...) Sentado na mesa mais afastada do boteco, ele se perdeu em pensamentos implacáveis, típicos de pessoas que se julgam perfeitas e raras. O encontro com aquela criatura impetuosamente escorregadia apenas serviu para exacerbar a sua pedantice, revelando-se-lhe como choque da civilidade contra a mais pura manifestação da malandragem."


"As verduras podres se acumulavam na vala entre o meio-fio e os paralelepípedos, um canto de perfeita exclusão. Quase sem perceber, os transeuntes chutavam as folhas de alface e as laranjas estragadas para a lateral da rua. Gary sentia-se um pouco como aqueles restos. Sabia dos próprios defeitos, da incapacidade de reconhecer excessos e não tinha mais expectativas de acolhimento."



Presentes no livro "Ave Noturna" (Via Litterarum, 2015), de Márcio Matos, páginas 09, 11, 25 e 50-51, respectivamente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Seleta: Lisa Hannigan

Lisa Hannigan (foto daqui ) Conheci a cantora e compositora irlandesa Lisa Hannigan graças ao emocionante filme “ Maudie ” (2016), da diretora irlandesa Aisling Walsh (baseado na história da artista canadense Maud Lewis ). A música dos créditos finais é “ Little Bird ”, e a suavidade, timbre, afinação e interpretação tátil da bela voz de Lisa Hannigan me fisgou na hora! Contemplei três dos seus álbuns, “ At Swim ” (2016), “ Passenger ” (2011) e “ Sea Sew ” (2008), e fiz uma seleta com 20 canções que mais gostei. Confira o belo trabalho da irlandesa Lisa Hannigan ! Ouça no YouTube  aqui Ouça no Spotify aqui 1) Tender [At Swim, 2016] 2) Funeral Suit  [At Swim, 2016] 3) Home [Passenger, 2011] 4) Little Bird [Passenger, 2011] 5) Paper House [Passenger, 2011] 6) An Ocean and a Rock [Sea Sew, 2008] 7) Prayer for the Dying [At Swim, 2016] 8) Nowhere to Go [Passenger, 2011] 9) Anahorish [At Swim, 2016] 10) We, the Drowned [At Swim, 2016] 11) Splishy Splashy [Sea Sew, 2008] 12) T

Leituras 2020

Os 10 livros lidos em 2020 Li 10 livros em 2020 , com destaque para a poesia, e selecionei trechos das obras de Alex Simões , Lúcio Autran , Wesley Correia , Mariana Botelho , Nina Rizzi , Érica Azevedo , Ana Valéria Fink e Cyro de Mattos , e trechos dos romances de Franklin Carvalho e Victor Mascarenhas . Além dos livros, elaborei uma seleção de poemas de Zecalu [publicados nas redes sociais em 2019], outra seleta de trechos de crônicas de Santiago Fontoura [publicadas no Facebook], e uma seleção de poemas de Martha Galrão . Por fim, reli a autobiografia de Rita Lee e divulguei trechos também. Boa leitura! “Contrassonetos catados & via vândala” (Mondrongo, 2015) Alex Simões Leia trechos  aqui “soda cáustica soda” (Patuá, 2019) Lúcio Autran Leia trechos  aqui “laboratório de incertezas” (Malê, 2020) Wesley Correia Leia trechos  aqui “o silêncio tange o sino” (Ateliê Editorial, 2010) Mariana Botelho Leia trechos  aqui   “A ordem interior do mundo” (7Letras, 2020) Franklin Carv

Seleta: Flávio José

Flávio José (foto: divulgação ) O artista de forró que mais gosto é o cantor, sanfoneiro e compositor Flávio José . Para mim, ele é a Voz do Nordeste . Um timbre único, raro, fantástico. Ouvir o canto desse Assum Preto-Rei é sentir o cheiro da caatinga, arrastar os pés no chão de barro ao pé da serra, embalar o coração juntinho com a parceira que amo, deslizar os passos como se no paraíso estivesse, saborear a mistura de amendoim com bolo de milho, purificar o sorriso como Dominguinhos ensinou, banhar-se com as rezas das senhoras sábias, prestar atenção aos causos, lendas e histórias do povo que construiu e orgulha o Brasil . Celebrar a pátria nordestina é escutar o mestre Flávio José ! Natural da sertaneja Monteiro , na Paraíba , em 2021 vai completar 70 anos (no primeiro dia de setembro), com mais de 30 discos lançados e vários sucessos emplacados na memória afetiva do povo brasileiro (fez a alegria e o estouro da carreira de muitos compositores, que tiveram a sorte de serem grav