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Dez passagens da novela Verão do incêndio, de Mayrant Gallo



“(...) Naquela tarde, ele lhe falou que ia embora. Disse assim, de pronto, leve, com o olhar a fitar a extensão de mar. Ela, ao seu lado, ficou em silêncio. Sabia, de antemão e por intuição, que nada permanece imutável até o fim. Que tudo é deterioração — e desastre. Que o que está não vai assim permanecer. Que o ser é enquanto, e que tudo muda com o tempo. ‘Tudo bem’, foi o que conseguiu dizer ou, de fato, preferiu dizer. Mesmo que o coração não quisesse, os lábios mentem. O menino, calado, ainda contemplava o mar, alheio à certeza que aquelas palavras sedimentavam. Ao cimento que os dias, dali por diante, imporiam àquela amizade.”


“(...) As primeiras decepções chegam cedo e, se deixam marcas, não são visíveis e precisam ser arrancadas do fundo das mentes e dos olhos. Mas não aquela. O menino, ao dirigir-se à casa do amigo, ia destroçado. Jamais lhe ocorrera algo semelhante. Não sabia, portanto, lidar com a rejeição, se é que era isso mesmo. Mas era, de certo modo. Um ano inteiro muda as pessoas como o vento, num dia, esculpe novas formas na areia. Houve o incômodo familiar do namorico de Melanie com o irmão do menino, e houve, por sua vez, em Roy, a chegada de outros interesses, que o menino, grosso modo, não preenchia. Os outros, à sua volta, e em especial os irmãos louros, estavam crescendo numa velocidade muito maior que a dele. Iam pulando, enquanto o menino seguia a passo curto e inconstante. Ao avistar o amigo, o menino não soube o que dizer e mal o cumprimentou. Mesmo assim, Roy o abraçou e conduziu à casa. Melanie e Milk lhe sorriram, bem como os pais: doutor Michael e madame Helen. Nada mudara, então, mas tudo mudara, enfim. Porque assim é o mundo.”


“A menina Patrícia voltou à ilha no início do verão. O menino a avistou de longe, ao lado dos irmãos louros. Malanie estava com Milk e jogavam frescobol, enquanto Roy empinava uma pipa vermelha contra o céu puro, e Patrícia, ao seu lado, sentada na areia, de biquíni, lia um gibi. Doutor Michael e madame Helen nadavam, ao longe. O menino não teve coragem de se aproximar e experimentou, previamente, naquele momento, a sensação implacável de ser um estranho frente ao resto do mundo. Ele não saberia apontar com exatidão a causa daquele estado, maior e mais absorvente a cada instante, como uma onda vindo e que nem a praia conseguiria deter. Ele estava ali, à distância, olhava seus amigos, desejava estar com eles, mas não conseguia se aproximar. Podia-se dizer que fincara os pés no chão para sempre, como um ídolo. Mas era só tédio. Ou preguiça. Talvez desencanto ou desesperança. Era ele um menino ainda, mas já se pressentia um velho. Alguém efetivamente gasto para as relações humanas. Sentou-se então na areia e esqueceu os irmãos louros. Contentou-se em olhar o mar, o horizonte à esquerda, que, por trás da ilha em frente, tingia-se de um azul vaporoso e pálido. Para ali seu irmão quase morrera, no naufrágio. E um bebê se fora. Mais duas pessoas deixaram de existir, e todos só continuariam vivos, dali por diante, na mente das pessoas. ‘Todos cultuamos o nosso quarto verde’ talvez ele dissesse, no futuro, se viesse a conhecer o filme de Truffaut. Continuava absorto em seus pensamentos, quando, de súbito, sentiu um peso leve no ombro e, ao se voltar, viu que era Patrícia. E ela sorriu para ele, como àquela altura lhe sorria a vida.”


“(...) aquilo que as outras pessoas querem, se possuem elas mais autoridade e prestígio, é o que vai prevalecer. Jamais a justiça, que é também, e tão somente, mais uma peça do motor. E que pode, conforme a circunstância, aparecer ou desaparecer.”


“Depois do verão do incêndio que ameaçou todas as casas da ilha — os homens de pé na noite, a abrir uma clareira, uma faixa de terra sem mato, que evitasse o incêndio ao vento evoluir, e crianças e mulheres, da praia, a observar toda a movimentação, tensas —, Eliane pegou o menino e seu amigo louro, Roy, no interior do bambuzal e mostrou a eles como o Sr. Gilson a obrigara a fazer... E os meninos, de calças arriadas, cada um por seu turno, sentiram pela primeira vez aquela estranha mistura de desconforto e prazer, de desencanto e posse — e tirania.”


“(...) o menino mal podia auxiliá-la. Não entendia a vida. Não alcançava seus sentidos. Via a amiga a se espreitar por entre os bambus, com um garoto grudado nas costas; via-a com a saia erguida, a calcinha no meio das coxas, um garoto em riste a fustigar-lhe as nádegas, meio sem jeito, ar de intranquilidade... Até que numa tarde em que, sentados no píer, esperavam os primeiros barcos, ela enfiou a mão em seus shorts e o pegou. O menino a olhou intrigado, mas consciente dos benefícios daquele gesto. E foi isso que lhe ficou por toda a vida. A incerteza, o medo, o prazer, o calor em meio à tarde descendo, os primeiros barcos chegando, os favores de uma mão, dispersa e esquiva como os peixes na água. Agora era sério, porque o menino era mais velho. No verão do incêndio, ele tivera algum prazer, sufocado, porém, pela surpresa e talvez inocência, a ignorância do que fosse certo ou errado — para as suas idades, sobretudo. Agora havia menos beleza que ultraje, menos brincadeira que assédio. E em nenhum momento ela mencionava o Sr. Gilson, seu mentor sexual. Agora era a própria Eliane. Não era eco. Era ela, sua mão e seu gesto, sua vontade e desejo. Fosse ele ou fosse outro, não importava. Eliane seria a mesma. Faria correr de novo aquela mão, meiga e apática, para o meio do colapso do mundo. Nada de mais, sem dúvida, algo que os casais fazem e que é, a princípio, princípio de preliminares. Mas ali, naquele instante, espécie de eternidade e, seguramente, o fim da infância, não era espontâneo. Era, antes de tudo, uma precoce servidão. E foi em meio a estes pensamentos, igualmente precoces, que o menino segurou a mão da amiga e, apertando-a forte, retirou-a para a luz da tarde, ao tempo que apontava, a surgir de trás das pedras, no fundo azul da baía, a lancha verde.”


Mayrant Gallo
(foto: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)


“E o irmão mais velho do menino, e que agora vivia no continente, na cidade, veio passar com eles as férias de fim de ano. Longas férias, intermináveis, de pipas, damas, dominó e outros jogos. E foi ele quem disse ao menino que a menina loura, se fosse um pouco mais velha, ele ia lhe dar um tombo. E o menino, em sua inocência, só enxergou briga. E se perguntou se então ficaria do lado dos irmãos louros, seus amigos, ou de seu irmão, que só raramente via.”


“(...) Ao lado do menino, descontadas as vezes em que ela o fizera a um só tempo inebriado e constrangido, permitia-se apenas viver, ser, estar. Nada exigia dele, que, por sua vez, ao seu lado, perna contra perna, o mar todo em frente e o céu sobre suas cabeças, transpunha com elegância aqueles primeiros obstáculos que são, desde o início, o fim contínuo das relações entre homens e mulheres. Aprendiam, cada um de sua parte, a apreciar o silêncio, como se fosse, antes de tudo, uma música de cena e, acima dos significados ocultos, a única certeza a orientá-los tanto para os laços amorosos quanto para as crises da vida. (...) Eram, por assim dizer, a presença de um no outro. Houve momentos, inclusive, que certas pessoas chegaram a pensar que eram irmãos, de sangue, tanto as feições dele se misturavam às dela, e vice-versa. A explicação mais plausível era a de que estavam crescendo, chegando àquela fase em que todos os jovens, de algum modo, se parecem: nas arestas físicas, que de súbito, incham, e nos gestos particulares, que são como breves distrações de pequenos seres ainda canhestros, sem a desenvoltura prevista e necessária. Nada era mais presente neles do que aquilo que eles não eram, e isso ficou claro, quando, numa tarde de maré cheia, só eles sentados no píer que as ondas lavavam, como dois anacoretas a desafiar a lógica, pois pareciam sentados sobre a água, ela comentou que não entendia o que ele via naquela garota Patrícia, ‘branca como leite e de voz grave e rouca, como um rapaz efeminado a se fazer de macho’.”


“(...) Não estivera dormindo, mas foi como se estivesse. Acordou-o a intuição de que houvera um naufrágio, ‘Mas como? Com esse tempo limpo e calmo?’ Acontecia, às vezes, na grande extensão de possibilidades que é o mar, de chover e ventar num ponto e nada acontecer em outro. O pai do menino partiu com seu barco, seguido de vários outros, e logo acharam os primeiros vestígios dos náufragos. Entre as vítimas, a filhinha de dona Teresa e Seu Élvio, que vinham direto da maternidade para o mais esperado Natal em família da ilha e que, obviamente, aconteceu. E a surpresa se intensificou quando o pai do menino avistou o filho mais velho agarrado a um remo, ele que, de pilhéria, agora sabia, dissera que não viria para o Natal, e acabou vindo, de carona, e agora estava ali, e o desejo do pai foi o de surrá-lo, mas apenas o ergueu do mar para o chão do barco e lhe afagou a cabeça. Desde aquela tarde, On the beach ficou esquecido na estante, em favor de eventos mais reais e cujos odores chegavam, de fato, aos olhos.”


“E era o Éden, pois sim. A infância. Enterrava-se o outro na areia por brincadeira, a diversão de um dia ou de uma tarde. E alguém vinha e fotografava a cena exótica, e a foto só na semana seguinte era revelada. A surpresa. A eternidade de um instante. Os dois amigos que tinham sido os coveiros, e o terceiro, mais velho, que fora o morto. E agora os três ali riem da farra. E a foto, décadas depois, ainda está lá, nos álbuns — em três álbuns —, e a cena, em suas mentes continua a acontecer: é a eternidade e não mais que um instante, um instante, um instante.”


Presentes na novela “Verão do incêndio” (Villa Olívia, 2023), de Mayrant Gallo, páginas 43, 25, 33-34, 41, 14-15, 18-19, 11-12, 37 a 39, 27-28 e 08-09, respectivamente.

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