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Orelha de Hélio Pólvora para o livro “Pés quentes nas noites frias”, de Mayrant Gallo



Pés quentes nas noites frias

          Neste volume de contos saudamos o advento — ou a confirmação, quem sabe? — de um escritor de verdade, desses que revelam o seu grau de consciência e madureza literária numa única frase. Observador impiedoso, contundente, da realidade urbana dos nossos dias, o autor lembra João Antônio, a quem, aliás, cita em epígrafe: os contos brotam sem artifícios de criação, como se ele apenas os captasse em estado rudimentar e depois os polisse pelo manejo da língua e linguagem. O autor casa bem o instantâneo da reportagem jornalística com a investigação em nível literário de estados existenciais agudos. Os contos desenvolvem-se à beira do precipício, com os personagens sempre em situações limite.
          O autor vai mais além das aparências. Quando trata de pessoas que assaltam, matam, roubam, praticam incesto e outros atos criminosos ou amorais, ele transcende a transcrição, parte em busca do porquê, que deixa implícito, a critério do leitor. No conto A vida num domingo, alguém rouba um apartamento por necessidade de realização, para sentir que está vivo, que faz parte ainda da engrenagem social. Não há outro motivo. O personagem deliberadamente cruel parece mais participante do que os moradores entediados que, indo à praia, na repetição mecânica de um lazer sem grandeza, afundam no sentimento de inutilidade e tédio.
          Quem escreve um trecho desta ordem merece uma possível carteirinha de escritor: “A morte reina absoluta, livre de rivais; o tempo é paciente e pouco se importa se é hoje ou amanhã; e a velhice, velha e exigente costureira, não tem pressa nenhuma de acabar sua rede de rugas”. A presença do escritor, a mão do escritor que sabe o que dizer e como dizer, que põe nos textos o seu ponto de vista, está autenticada e atestada.
          Além da grosseria e banalização da vida, o autor expõe também a banalização do amor, como faz no conto O amor como deve ser — e parece nos sugerir que, com o desvirtuamento e mutilação do amor, a vida perde mesmo qualquer sentido.
          O autor está sempre atento e não limita suas reflexões aos sentimentos humanos; abraça igualmente a pedra, quando escreve, a propósito de um monumento: “O arquiteto que a projetou não imaginou que um dia até mesmo o concreto sem consciência se revolta contra a imobilidade e a desilusão, e naturalmente se fende”. E com esta frase ele nos faz uma advertência séria.
          Os temas fortes prosseguem ao longo do volume e parecem convergir para conto Vacina, um dos melhores, ou o melhor. A doença da violência — violência da pobreza e da miséria, mas também violência moral, a violência de quem está manietado pela desesperança — transforma-se em estuário largo no conto As nuvens se tocam, no qual um assassino gratuito, desses que matam sem saber por quê, é ao mesmo tempo suicida e mártir. E temos certeza quanto à temática da autor quando ele observa, pela boca de um personagem: “Morrer de fome me parecia mais digno. Morrer de tiro. Morrer de tanto acumular dia a dia vazios sobre vazios”.
          Isso mesmo, vazios sobre vazios. Estas palavras explicam bem a arte do contista. Recomenda-se a edição desta coletânea de contos com entusiasmo. Nasce um escritor na Bahia. Nasce ou se afirma. Quem será?

Hélio Pólvora
Salvador, 17 de novembro de 1998


Mayrant Gallo. Nasceu em Salvador, em 1962. É apreciador de Quintana, Kafka, Cortázar, Camus e Carver, entre outros sons. Este é o segundo livro que publica. Talvez venham outros.

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