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Salvador abaixo de zero, de Herculano Neto

Herculano Neto interferido por Mirdad

“Nasci com defeito de fábrica, defeito na alma. Minha mãe não notou, meu pai não notou, ninguém notou. Só perceberam quando inventei de me remendar, de me colar, de me parafusar. Mas aí já era tarde: não era mais possível a devolução”

“Após a quimioterapia, não havia quem conseguisse comunicar à Cecília que seu braço seria amputado. Indiferente àquele dilema, Cecília brincava no quarto com suas bonecas: todas carecas e com os braços cortados”

“Acho que a injeção letal não será problema. O pior é a espera”

“Quando vi aqueles seios, emudeci assustado, logo eu, tão acostumado a malta infinda de donas de casa desnudas me deparei com o mais belo e perfeito par que já encontrei. Antes, acreditava que peitos bonitos só frequentassem clínicas particulares. Dispensei-a sem realizar seu exame. Alguns meses depois, Dona Filipa retornou. E novamente não realizei seu exame. Se aqueles seios tinham algum vestígio de câncer eu preferia não saber”.

“Eu costumava ter uma veia cômica, mas, agora, não apenas me falta humor: me falta plateia”

“Quando abri a porta, descobri que ele carregava o irmão, que não possuía nem braços nem pernas. O homem disse que era aniversário do irmão e pretendiam comemorar. As outras meninas, assustadas, baixaram a cabeça com receio de serem contempladas; eu não – talvez por isso ele tenha me escolhido. Dentro do quarto, tentei puxar conversa, descontrair um pouco, mas ele não dizia nada. Tirei sua roupa cuidadosamente, segurei seu torso como se fosse uma boneca (ele era mais pesado do que aparentava) e o coloquei numa posição que eu imaginava ser a mais apropriada para o ato. Foi a primeira vez que gozei no trabalho”




Trechos extraídos do livro Salvador abaixo de zero (P55, 2012), de Herculano Neto.

Comentários

Valeu, Mirdad!
Uma Salvador melancolicamente chuvosa nos espera hoje.

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