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Poemas, de Daniel Lima — Parte 02

Daniel Lima
Foto: Cepe/Divulgação | Arte: Mirdad


"O profeta vê o futuro mas não sabe dizê-lo.
O poeta vem e diz.
E o profeta se cala"


"É na queda que se revela
a escondida fraqueza
do homem essencial

É no fundo do abismo que se descobre
a força ausente

É na desnudez da morte que se sente
o impasse da vida
a fugacidade do tempo
e o mistério das horas transcorridas

No voo o pássaro é domínio do espaço
orgulho de asas que o libertam
sem perceberem que hão de cair um dia
porque são asas"


"Envia tua morte aos pedaços, pelo correio,
aos amigos: eles se divertirão.
Toda morte é tediosa ou cômica,
menos a tua, pra ti.

Não te espantes se a receberes de volta:
não que te queiram vivo propriamente,
mas distante"


"Sozinho em minha ilha,
vejo de longe o mundo
como algo distante e diferente.

Mas esse que vejo assim distante
é a própria ilha em que estou"


"Levo-os sempre comigo, os mortos
que em vida conheci.
Amigos, inimigos,
os que amei ou me amaram
os que vi de passagem, ou (quem sabe?) odiei.

Todos estão aqui, simples e amáveis
todos falam por mim
todos sentem comigo.

Todos os que por mim passaram
todos eles sou eu"


"Se a realidade te dói,
se ela te insulta,
rasga-a em pedaços
e salta
no centro de teu sonho
(Ele se tornará real
se o assumires)"


"Sobre os livros me curvo noite adentro
na ansiosa procura
de algo que me leve ao esquecimento
das coisas.

Mas cada esforço que faço de evadi-las
mais fundamente grava-as
no meu coração tornado coisa"


"O mundo observa a vida
e passa indiferente.
Talvez nem mesmo observe
apenas passe.

Uma criança morre
e a vida inteira estremece
e sente-se em outras vidas
uma comoção misteriosa.

Mas o mundo continua o seu giro impessoal,
como se nada houvesse acontecido.
As manhãs nascem de novo lindas
como ontem.

Flores desabrocham, indiferentes e belas,
na sepultura da criança morta.

Nem mesmo se imobilizaram seus brinquedos
que passaram às mãos de outras crianças.
A boneca ainda ri do mesmo jeito
e dorme como se nada houvesse acontecido.

E nada aconteceu.
O mundo apenas passa"




Trechos extraídos do livro "Poemas" (Cepe, 2011), de Daniel Lima.

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