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Heródoto, IV, 196, de Reinaldo Santos Neves

Reinaldo Santos Neves
Foto: Fábio Vicentini | Arte: Mirdad


"Fiz dez segundos de silêncio: suicídio sempre extrai de mim um silêncio de reverência. O silêncio que espero que um dia façam por mim, quem sabe"


"Rebaixando os olhos com simulada modéstia, acrescentou que uma noite, num hotel de Reims, onde passou com Lucien um final de semana, sucedeu que, depois de uma sessão de amor especialmente ardorosa – e clamorosa –, o casal ouviu aplauso vindo lá de baixo. Lucien chegou à sacada para ver o que era. Voltou dizendo que hóspedes e empregados do hotel, reunidos na rua, estavam batendo palmas para o desempenho de ambos na cama. E levou-a pela mão à sacada, onde Diana, entrecoberta apenas por um lençol, recebeu demorada ovação. Confesso, disse-me ela, que não é da minha natureza fazer amor em silêncio"


"Tive esperança de que ele me desse asilo como a uma refugiada: como a uma apátrida. Bastava que ele me estendesse a mão – o mesmo gesto com que me estendera o quarteto de poemas (...) No entanto, vi nos seus olhos que ele achava tudo aquilo um despropósito. E era mesmo. O que eu estava fazendo ali era o absurdo de me oferecer como noiva a um homem que mal conhecia – um poeta que escrevera quatro sonetos sobre meu cabelo e nada mais. Druso teve a santa decência de não me estender a mão. Eu me levantei e saí dali e casei com Léo"


"A atração animal entre nós foi tão forte que, mesmo sem mais nada em comum, era provável que nos teríamos envolvido da maneira intensa e profunda como nos envolvemos"


"– Quer vir pra cá, vem, – disse ela. – Estamos movendo uma ação coletiva contra os homens, e os pobres coitados precisam de um advogado de defesa.
– Podem condenar, – repliquei. – Somos todos culpados"


"É isso que nos faz diferentes: não o suicídio em si, mas o motivo para o suicídio. Nas outras famílias as pessoas se matam por loucura, por amor, porque estão doentes, porque perderam a fortuna. Nós, os Fitzleroy, nos matamos sem nenhum motivo. Ou melhor, sem nenhum motivo imediato: matamo-nos em nome da nossa vocação para o suicídio. Matamo-nos pela honra que essa vocação significa para nós mesmos na perspectiva histórica da família.
– O senhor não é religioso, é, Sr. Fitzleroy?
– Claro que sou, – respondeu ele. – Acredito em Deus e sou diácono (...)
– Mas isso é um contra-senso, – retruquei. – Como pode acreditar em Deus e ser, como diz, um suicida por vocação? (...)
– Uma pneumonia também é uma dádiva que recebemos de Deus (...) A própria Bíblia, que condena, por exemplo, o coito interrompido, não condena em lugar algum o suicídio"


"Acrescentei, Maria, que tinha saudade da crítica literária tradicional, em que, mal ou bem, se falava do texto em análise. Hoje, o crítico pretende criticar um romance mas o que faz? Em primeiro lugar, abre espaço para teorizar sobre as teorizações de outros críticos; em segundo lugar, dispara suas próprias elucubrações 'inspiradas' na obra que finge que está analisando. No primeiro caso faz filosofia da arte; no segundo, faz literatura postiça. Em ambos os casos, perdem a obra literária e o possível leitor interessado na obra literária"


"Uma das noções mais difundidas a respeito do iceberg é a de que a parte dele que aparece sobre a superfície das águas é proporcionalmente bem menor que a parte que se oculta nas profundezas do mar. Não será aplicável a grande parte das obras de literatura? Isto é, a parte aparente representa o texto visível, legível, impresso, enquanto aquilo que se mantém oculto representa as infinitas possibilidades de leitura e interpretação crítica, podendo-se ver em cada tentativa de apreciação uma lasca daquele enorme e maciço bloco submerso"


"A literatura nada mais é que um punhado de palavras vazias, de personagens sem graça, de histórias sem charme nem arte. A minha ficção? Ah, como me envergonho de tudo que escrevi. E para quê? (...) Grande merda, a literatura hoje, como motivo de vaidade. Devia, sim, ser motivo de vergonha. Com todos os avanços intelectuais e tecnológicos, inclusive, e até sobretudo, dos recursos que facilitam o trabalho braçal do escritor, deveríamos nos envergonhar porque nunca, nunca chegaremos aos pés dos nossos grandes precursores (...) Só essa incapacidade já deveria ser suficiente para que jogássemos no lixo os nossos computadores e deixássemos de fazer literatura para fazer outra coisa. Que foi o que eu tive vergonha na cara para fazer e fiz"


"Imagine o constrangimento dos arquivistas diante da descoberta da valise, ainda fechada e intacta, trinta e dois anos depois da estranha doação: imaginei-os abrindo a valise; achando ali dentro apenas velhos manuscritos de poesia; fechando de novo a valise como médicos fecham o corpo de um paciente quando constatam que o tumor é inoperável"



Trechos presentes no livro de contos "Heródoto, IV, 196" (Cousa, 2013), de Reinaldo Santos Neves.

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