Pular para o conteúdo principal

Oito trechos da revista Laroyê #01



“(...) hoje, apesar dos desmantelos e de saber que não há motivos para festa, ora esta, não sei rir à toa, a verdade, esta traquina menina nostálgica que não salva nem liberta, é uma só: sobrevivemos. Ou, para usar outro axioma do antigo Raso da Catarina: bebemos e não morremos.” [Franciel Cruz]


        “‘Veja se sou errada: tô bem garotinha, sentada na paz de Jeová no ônibus, quando encosta um senhor do meu lado e começa a falar: ‘Ah, agora todo mundo quer o auxílio emergencial, nunca trabalhou e vão tudo pra frente da Caixa. Hoje, fui pegar meu FGTS e tive que enfrentar uma fila enorme por causa desse povo.’
        ‘Qual foi mesmo desse homem, Ana?’
        (...)
        ‘Não! Levantei a cabeça, cravei meu olhar nele, e completei: olhe, tô há dois meses sem sair pra passar minha rifa no bairro. Tenho três filhos, dois poodles, meu marido foi embora, me deixou sozinha... e o senhor, boazudo, vem pra cá me dizer o que não sabe. Seja sensível, nem precisa ser demais, mas seja... porque o senhor, bonito, não tem ideia do que eu tô sofrendo.’
        ‘Ana, você mentiu! Nem passarinho você tem.’
        ‘Nesse momento, ficou um climão... todo mundo do buzu olhando, quase me levantei pra passar o chapéu porque ninguém do 1386 esperava aquele show às cinco e meia da tarde no meio da cidade, cheia de buzina e vendedor de água e de pendrive. Ah, Tiaguete, e não venha com essa de falar a verdade. Eu tinha que colocar aquele homem escroto no lugar dele.’” [Tiago Correia]


“(...) mesmo sem PowerPoint, podemos afirmar que as duas indústrias mais prósperas de quase toda e cidade são a da fé e a farmacêutica. Das janelas, sejam as laterais do quarto de dormir ou as do buzu, para onde a gente direcione nossa obnubilada visão sempre aparece uma igreja ou um outro estabelecimento comercial que também negocia fórmulas milagrosas. E neste caso, menina Susan, a doença não é apenas metáfora. É uma triste paisagem sem cura. E, quando as gentes que habitam estes outros espaços acordar, a felicidade não vai desabar sobre os ombros” [Franciel Cruz]


“(...) Seu quarto era atulhado de livros. E ele fazia tudo pra mim: passava meus vestidos, esquentava minha comida, colocava meu café, sempre cantando e dançando. Os meus melancólicos vinte anos não gostavam muito dessa sua alegria extrema. Além disso, me contrariavam seus muitos amigos, seu gosto por sol e carnaval. Porém, as coisas entre nós iam bem, líamos muitos livros juntos. Eu lia contos para ele antes de dormir. Poesia não, ele nunca entendeu poesia.” [Ângela Vilma]


“(...) Salvador tem um jeito peculiar de resistir e carregar consigo os seus fantasmas. De que outra maneira se justificaria que até hoje matérias de jornal, transeuntes dando informação pelas ruas e até mesmo corretoras de imóveis se refiram a um endereço específico entre a Avenida Vasco da Gama e a Avenida Garibaldi como o terreno da ‘antiga fábrica da Coca-Cola’, quando a essa altura ninguém se lembra mais nem mesmo quando ela deixou de existir? Turistas desavisados certamente solicitam pelos aplicativos de transporte uma corrida até a Praça Caramuru, sem desconfiar de que, para os locais e mesmo para o Google Maps, se trata para sempre do ‘antigo Mercado do Peixe’, e que o aeroporto local jamais deixará de ser o ‘Dois de Julho’. É possível que o mesmo aconteça com a livraria próxima ao Porto, e o futuro precise carregar consigo a lembrança do que foi. Porque talvez, para essa cidade ancestral, que viu o fim do mundo tantas vezes e continuou existindo, a parte mais importante e natural do inventário da memória seja justamente o trecho final: ‘Lembre-se’.” [Moema Franca]


“As casinhas deram lugar a lojas, quitandas, copiadoras, bares, pizzarias, petshops, supermercados, cursos de inglês, igrejas evangélicas, trinta farmácias, carros de som e paredões. Onde foram parar as calçadas? Claro que a bala ricocheteou nas paredes e acertou as pessoas. Elas não falam mais, gritam. Gritam e xingam e gargalham e trocam socos e aumentam o volume e continuam gritando. Como se estivessem num ringue de lama pra ver quem grita mais. Tudo virou um corredor abafado. As cigarras se mudaram pro interior de Goiás e o cheiro do pão deu lugar a um concreto fedor de x-tudo com gás carbônico, cachorro molhado e Nova Schin.” [Paulo Bono]


“As boas oportunidades estão escapando de nós. O som que se amplifica em carros arreganhados no meio da rua ou em varandas vizinhas parece a chave para se descobrir, por exemplo, a evolução da surdez humana (reparou que a gente mal se escuta?). Outro dia mesmo, por cima da confusão de sons, uma vizinha que tem o hábito de conversar com a outra pela janela indagou repetidas vezes: QUÊ?! QUÊ?! Até que houve um breve rebaixamento das melodias em disputa lá embaixo e pude ouvir: MINHA FILHA, DE GRAÇA, ATÉ INJEÇÃO NA TESTA!” [Evanilton Gonçalves]


“Olha, a beleza é fundamental, mas a água também é, e a água afoga. Lembra da ‘Garota de Ipanema’, como Vinícius ficou arrasado? Começou falando da coisa linda, cheia de graça, depois percebeu que estava ‘tão sozinho’, que ‘tudo é tão triste’, que a beleza que existe ‘não é só minha’ e ‘também passa sozinha’. Isso ele estava em Ipanema, na praia… e ficou triste. O mundo mais lindo por causa do amor, e ele triste.” [Franklin Carvalho]


Presentes na revista Laroyê #01, páginas 40, 54-55,
40, 30, 48, 51, 34 e 43-44, respectivamente.

Baixe a revista aqui

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dez passagens de Clarice Lispector nas cartas dos anos 1950 (parte 1)

Clarice Lispector (foto daqui ) “O outono aqui está muito bonito e o frio já está chegando. Parei uns tempos de trabalhar no livro [‘A maçã no escuro’] mas um dia desses recomeçarei. Tenho a impressão penosa de que me repito em cada livro com a obstinação de quem bate na mesma porta que não quer se abrir. Aliás minha impressão é mais geral ainda: tenho a impressão de que falo muito e que digo sempre as mesmas coisas, com o que eu devo chatear muito os ouvintes que por gentileza e carinho aguentam...” “Alô Fernando [Sabino], estou escrevendo pra você mas também não tenho nada o que dizer. Acho que é assim que pouco a pouco os velhos honestos terminam por não dizer nada. Mas o engraçado é que não tendo absolutamente nada o que dizer, dá uma vontade enorme de dizer. O quê? (...) E assim é que, por não ter absolutamente nada o que dizer, até livro já escrevi, e você também. Até que a dignidade do silêncio venha, o que é frase muito bonitinha e me emociona civicamente.”  “(...) O dinheiro s

Oito passagens de Conceição Evaristo no livro de contos Olhos d'água

Conceição Evaristo (Foto: Mariana Evaristo) "Tentando se equilibrar sobre a dor e o susto, Salinda contemplou-se no espelho. Sabia que ali encontraria a sua igual, bastava o gesto contemplativo de si mesma. E no lugar da sua face, viu a da outra. Do outro lado, como se verdade fosse, o nítido rosto da amiga surgiu para afirmar a força de um amor entre duas iguais. Mulheres, ambas se pareciam. Altas, negras e com dezenas de dreads a lhes enfeitar a cabeça. Ambas aves fêmeas, ousadas mergulhadoras na própria profundeza. E a cada vez que uma mergulhava na outra, o suave encontro de suas fendas-mulheres engravidava as duas de prazer. E o que parecia pouco, muito se tornava. O que finito era, se eternizava. E um leve e fugaz beijo na face, sombra rasurada de uma asa amarela de borboleta, se tornava uma certeza, uma presença incrustada nos poros da pele e da memória." "Tantos foram os amores na vida de Luamanda, que sempre um chamava mais um. Aconteceu também a paixão

Dez passagens de Jorge Amado no romance Mar morto

Jorge Amado “(...) Os homens da beira do cais só têm uma estrada na sua vida: a estrada do mar. Por ela entram, que seu destino é esse. O mar é dono de todos eles. Do mar vem toda a alegria e toda a tristeza porque o mar é mistério que nem os marinheiros mais velhos entendem, que nem entendem aqueles antigos mestres de saveiro que não viajam mais, e, apenas, remendam velas e contam histórias. Quem já decifrou o mistério do mar? Do mar vem a música, vem o amor e vem a morte. E não é sobre o mar que a lua é mais bela? O mar é instável. Como ele é a vida dos homens dos saveiros. Qual deles já teve um fim de vida igual ao dos homens da terra que acarinham netos e reúnem as famílias nos almoços e jantares? Nenhum deles anda com esse passo firme dos homens da terra. Cada qual tem alguma coisa no fundo do mar: um filho, um irmão, um braço, um saveiro que virou, uma vela que o vento da tempestade despedaçou. Mas também qual deles não sabe cantar essas canções de amor nas noites do cais? Qual d