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Vinte passagens de Mayrant Gallo no blog NÃO LEIA! em 2014



“Desde que entrou agosto, eu pensava no que postar aqui, hoje, para comemorar os 82 anos de nascimento de minha mãe, falecida em 18 de novembro de 2011. Por dias, fiquei a refletir e a tentar redigir, de memória, algum texto à altura de sua ‘presença em ausência’. Por fim, e não é por acaso que se afirma ser ‘sempre mais escuro logo antes do amanhecer’, há dois dias despertei no meio da noite e comecei a rabiscar o seguinte poema, que, acredito, é uma homenagem mais digna do que qualquer texto que, em total consciência, eu chegasse escrever em lembrança de minha mãe.

NOTURNO DE OUTRAS VIDAS

Sempre achei que morri no Titanic
Ou em Hiroshima
Ou Nagasaki.
Num banho de ilusão em Treblinka
Ou num terremoto no Cairo.

Mas hoje ― sei — só morremos em duas ocasiões:
Na morte mesma
Ou quando nos vai nossa mãe.”


          “(...) Talvez motivadas pela velocidade do mundo, que a internet e a tecnologia em geral só acentuaram nos últimos anos, as pessoas almejam a uma carreira, mas querem se privar de qualquer esforço para alcançá-la.
          Muitos escritores, por exemplo, não querem ler, nem praticar a escrita, pretendem (não sei como!) sair a escrever qualquer coisa e obter sucesso. Se conseguirem algum, será em meio aos leitores médios, de obras ligeiras, que, em geral, só perduram o tempo de uma estação ou o intervalo do gosto de época, que mais cedo ou mais tarde será substituído por outro. Conscientes disso, vão à mídia ou procuram se manter sempre em evidência, de modo a alicerçar sua obra com algo rarefeito que a sustente: sua imagem.
          O fato de um escritor estar na mídia, sendo entrevistado por alguma Fátima Bernardes ou qualquer outro apresentador, não é certeza de que ele escreve bem, de que seus assuntos são necessários e elevados, e de que vale a pena o leitor se debruçar sobre sua obra. Muitas vezes é o inverso: é exatamente por isso que ele não deve ser lido, pois sua obra precisa de aparato, de apêndices e notas para se promover ou se consolidar. E não raro ele comparece ao programa por outras causas, quase sempre extraliterárias. É só um profissional dando sua opinião. Seus livros, bons ou ruins, estão ausentes. Que o leitor não se engane. A imagem de um escritor não é recomendação para a sua obra. Só esta deve se recomendar.”


          “A poetisa uruguaia Idea Vilariño tem um poema que nos dá bem a medida desta constante transitoriedade da vida, quando nos diz que ‘cada tarde que finda formosamente morre’, como as pessoas. E conclui: ‘mais uma, menos uma’.
          (...) em breve o relógio marcará a supressão de mais uma vida, ou por cansaço ou por doença ou por atentado ou por acidente. Ou simplesmente por ideais políticos questionáveis.
          Nos últimos dias, três aviões caíram... E, como se sabe que eles caem em série de três ou quatro, a qualquer momento pode cair mais outro, até que peças mecânicas e cabeças vivas se aquietem, e a vida siga em frente, sem acidentes aéreos. Ao menos por um tempo.
          E eis que Israel joga mais uma bomba sobre a cabeça de um punhado de civis inocentes, e os extremistas adversários agradecem por mais este pretexto para intensificar seus atos violentos e desumanos, por este ou aquele ideal: político, religioso, partidário, rarefeito, obsoleto, vazio.
          E é Idea Vilariño, mais uma vez, quem conclui: ‘Pobre mundo, vão desfazê-lo, vai voar em pedaços’.
          Já está voando. Ou caindo. Como prefiram. Desde muito tempo.
          É um voo com destino previsto. E não haverá sobreviventes.”


          “(...) Se no romance [Bom-dia, tristeza, de Françoise Sagan] as pessoas sofrem porque se relacionam e a existência não presta, hoje estamos piores, pois não nos relacionamos senão virtualmente e prevalece, no ar e no caos, um otimismo exacerbado, de falsa alegria, impulsionado pela mídia. ‘Esse é o melhor dos mundos possíveis’, diz a tevê a cada comercial, ‘e nós temos aquilo de que você precisa’. Volta o apresentador do programa e logo entrevista uma pessoa linda, sadia e bem-sucedida. A mensagem que fica é: ‘Seja assim também! Você pode’.
          O mundo do romance de Sagan é o pós-guerra, misto de deslumbramento e destruição, de reconstrução e análise do que restou. Já o nosso, é o pós-nada ou pós-qualquer-coisa-que-se-queira. O politicamente correto em meio às incorreções políticas, disfarçadas de boas intenções. Age-se em surdina, em benefício próprio e do compadrio, ao tempo que se diz, diante das câmeras e na imprensa em geral, que se está fazendo isso e aquilo em prol da sociedade. Mente-se o tempo todo, na vida e na internet. Criam-se ‘lugares’ onde a intenção é exatamente essa: mentir e fazer parecer.
          Relido, o livro de Sagan ainda tem a sua força, especialmente como representação de um universo íntimo, magoado pelo mundo, mas, diante de nossa época, sua dor é quase uma caricatura, pois, no espelho, as máscaras estão todas expostas, e nada é preciso dizer, nem escrever, visto que perdemos o gosto pela sutileza, nos embrutecemos naturalmente e por nada, ficamos mal-educados, e isso virou charme, só pensamos em nós mesmos, chamamos de amigo a qualquer um, nos revelamos o que não somos ou o que gostaríamos de ser a todo instante e ainda pretendemos que as pessoas, ensimesmadas também, elogiem isso como se fosse um mérito. Não é, é só um jogo.”


Charles Bukowski vive
(25/11/2014)
leia aqui
 
          “(...) O que importa, de fato, é sentir-se vivo, atuante e, além disso, conseguir, em meio ao caos instaurado, algum amor. É o que move as pessoas, e é o que fez a humanidade sobreviver. Tudo o mais é anexo. Não há fato da história humana que seja mais doloroso que a perda no amor. Nem mesmos os comunistas resistem a um rosto e um corpo bonitos. (...)
          Se o tema dos três filmes é a vida [Para sempre na minha vida, O último beijo e No limite das emoções, de Gabriele Muccino], conciliando gêneros como a comédia, o drama e o melodrama, o ritmo, no entanto, é de filme de ação, de aventura. E aqui está uma das grandes contribuições de Muccino. A condução narrativa é frenética, com cortes bruscos e intensa movimentação no tempo e no espaço. Correria o tempo todo. Há, de certo modo, um frenesi de viver, o que tanto intensifica a vida quanto a esvazia de experiências. Nem sempre mais é melhor. Mais vale uma experiência lenta e proveitosa que várias, em caudaloso fluxo, das quais ficam somente esboços, pálidas imagens. Não seria demais sugerir que o diretor, também roteirista, solicita que atentemos para a vida que estamos vivendo, rarefeita e diluída, imersa numa velocidade que não nos deixa ser quem somos. Ou o permite apenas em parte, na superfície.”


          “(...) Enquanto obras mais pretensiosas seguem um curso cujo destino é o limbo das estantes de referência de época ou o esquecimento, o romance de Greene mantém seu frescor e é, ainda, uma dura reflexão sobre os governos instaurados à força e sobre o amor, que não consegue se impor contra os apelos monetários e de poder, o que obriga que, diante de um dilema amoroso, faça-se a escolha mais racional e que prescinde dos sentimentos em favor da segurança financeira.
          (...) É a guerra a suprema vulgaridade. É o jogo político, que perverte as pessoas, a suprema infâmia.
          Romance recheado de reflexões profundas e que persistem à devastação do tempo, e, no entanto, também uma narrativa fluente e hipnotizante, capaz de nos manter acordados ao longo das madrugadas, O americano tranquilo estabelece no leitor uma determinante mudança, pois nos ensina que ‘quando você foge para um deserto, o silêncio grita em sua orelha’. Que ouçamos, portanto, a voz de Graham Greene. Suas palavras e sua visão de mundo, ao mesmo tempo implacáveis e refinadas estilisticamente, podem sim nos fazer despertar e atravessar, incólumes, o deserto. Ou a multidão, embotada e feérica.”


          “Recebi, do escritor Carlos Barbosa, um e-mail com um texto (de autoria desconhecida) afirmando que nove ‘coisas’ desaparecerão de nossas vidas nos próximos anos. São: o correio, o cheque, o jornal (impresso), o livro (impresso), o telefone fixo, a música, a televisão, os bens pessoais físicos, a privacidade.
          Faltou ao autor do texto admitir que ele próprio vai desaparecer, como tudo e todos no Universo. Ora, não sei qual o assombro com relação a estes supostos desaparecimentos, nem tampouco a novidade. Se até Roma, que era o império dos impérios, desapareceu. (...)
          Volta e meia, aparecem na internet esses textos sem autoria, pregando originalidade, terror ou pessimismo. Já até acabaram com o mundo, duas ou três vezes. E mataram antecipadamente algumas pessoas, sempre célebres. ‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’, já dizia Camões. Nada é perene, e mesmo o homem só o é, ‘temporariamente’, enquanto espécie. Nenhuma novidade, portanto. Nenhum assombro: eu estou morrendo, você está, todos estamos. Somos desaparecimentos em curso. ‘Desde o instante em que se nasce já se começa a morrer’. Cassiano Ricardo, poeta desaparecido.
O melhor a fazer é não dar atenção a esses textos sem autor. São o que há de mais execrável, tanto em ideias quanto em forma. E não servem mesmo para nada, nem sequer para nos tirar o sono.”

 
“(...) já aconteceu de um escritor me colocar a mesma questão [‘Quantos livros o senhor já publicou?’] e, quando a respondi, de novo por alto, ele rebateu: ‘Eu já tenho dezoito livros’. Muito bem, parabéns, espero que tenha pelo menos um leitor para cada um deles, como propõe Ricardo Piglia no seu O laboratório do escritor. E transcrevo aqui o alerta de Mário Quintana, quando lhe perguntaram quem era o melhor poeta do Brasil, naquele momento: ‘Poeta não é cavalo de corrida, para chegar em primeiro lugar’. Nem se mede o valor de um autor pela quantidade de livros que ele publicou ou escreveu. Temos alguns exemplos inquestionáveis: Rodrigo M. F. de Andrade, no Brasil; Juan Rulfo, no México; Raymond Radiguet, na França. Nenhum dos três escreveu mais que três livros.”


Em lembrança de minha mãe
(29/08/2014)
leia aqui

“Neste ano, completaram-se duas décadas desde a morte de Charles Bukowski. Ainda me lembro, e já se vão quase dez anos, de uma ‘regulagem’ que um professor, na UEFS, tentou me dar porque levei alguns contos de Bukowski para minhas aulas de Teoria da Literatura. O motivo foi que os alunos, fascinados, divulgaram os contos entre si e, logo, Bukowski estava sendo lido por um público universitário muito maior do que eu pudesse imaginar. O professor alegava que o polêmico autor não escrevia alta literatura, mas ficção de baixo nível, vulgar e sem nenhum acréscimo ao leitor. Nem argumentei, para uma postura desta natureza não há argumentos. Apenas falei que o mais importante era que os alunos estavam lendo, e se divertindo e tirando algum proveito, porque Bukowski é sempre uma experiência peculiar. (...) Pois bem, passados tantos anos, Bukowski continua atual e lido ainda mais do que antes. (...) Podemos dizer, assim, que estes vinte anos sem Bukowski são, na verdade, vinte anos com um Bukowski mais intenso e presente, pois, de fato, um autor só morre quando deixa de ser lido, e isso parece estar muito longe de acontecer com este escritor, que certa vez disse, no auge de sua consciência: ‘O anonimato é a dádiva’.”


          “Este romance [A hora final de Nevil Shute] teve duas ou três edições no Brasil e ficou conhecido entre nós muito mais por influência do filme homônimo, dirigido por Stanley Kramer, com Ava Gardner, Gregory Peck, Anthony Perkins e Fred Astaire nos papéis principais, que pela quantidade de leitores entusiasmados. Aliás, é sempre assim com qualquer obra que, depois de sucesso de venda e crítica no exterior, acaba transformada em filme. O sujeito se sente orgulhoso de revelar que não leu o livro, mas viu o filme.
          Escrito com precisão de estilo e a objetividade característica do romance de especulação futurista, sem abrir concessões para abarcar um público mais vasto, nem dele se afastar, por ensejo intelectual, A hora final representa um tempo em que os grandes livros ainda eram escritos para ser lidos com prazer e proveito, e não para agradar a um público específico, de leitores medianos, ou ao mundo acadêmico, de leitores frios.
          (...) os homens são e serão capazes de, por ambição, capricho ou orgulho, acabar com o planeta, se não com um estrondo, com uma lamúria, que é o que resta aos australianos sobreviventes, mas que, ainda assim, até o último momento, se agarram ao que a vida tem de mais precioso: o entusiasmo de viver.
          (...) Os grandes livros são os que superam todos os obstáculos e, mesmo melancolicamente, continuam a nos mostrar a verdadeira face do mundo.”


          “Não obstante seu assunto trivial, uma dívida monetária, o texto [Haikus, de Cesar Aira] estabelece uma reflexão bem mais vasta e profunda, que envolve, inclusive, a sobrevivência do planeta. É nas mãos de pessoas que exploram aos homens e à natureza, nossos ‘devedores’, que está o destino de todos nós, e estas pessoas, em geral, não têm escrúpulos: são governantes, religiosos, comerciantes, astros da mídia e da cultura pop, industriais, cantores da axé-music e do pagode etc.
          Aira prefere chegar ao leitor específico, de literatura, que realmente lê pelo prazer estético e proveito cognitivo que a obra proporciona. (...) Com mais de 70 obras publicadas, ele privilegia as editoras pequenas, quando não as mini-editoras, em edições de curto alcance, ciente de que a maior qualidade de um texto literário reside na forma como o assunto é abordado, ou seja, na estética. Sem isso, e se tiver algum êxito, a obra não passa de moda de momento, o hit da estação. E a razão recomenda que não devemos dar pérolas aos porcos.
          Curiosidade: meu exemplar, de número 265, estava perdido numa loja da Saraiva, dentro de outro livro. Como suas dimensões são de bolso (11x15cm), meteram-no dentro de um livro qualquer, e ali ele ficou, não sei se escondido por algum leitor que não o pôde comprar de imediato ou se separado pelo acaso para que eu o encontrasse.”


          “Houve um tempo em que a história de qualquer país era contada ou revista pela sucessão de reis, imperadores e monarcas, mortos ou destronados depois de um acúmulo de intrigas e traições. A história cotidiana, à margem do poder, era desprezada pelos historiadores. Foi assim, sem exceção, em muitas partes do mundo. Já no século XX, a história pessoal de um soldado da Primeira Guerra tem tanta importância quanto a própria guerra, por constituir uma metonímia desta, uma parte genuína e representativa através da qual pode se avaliar e compreender o todo do episódio bélico. 
          (...) nunca sabemos ao certo qual é o propósito de um autor ao começar a escrever uma história, nem se o resultado obtido retrata, fielmente, aquele esboço através do qual a sua consciência, no início, o conduziu. O que temos em mãos é o produto de sua criação e é, a partir dele, feita a leitura, que devemos especular. (...) 
          (...) alguém pode me inquerir, exigindo que eu aponte o trecho da narrativa em que isto está dito, sem meias-tintas. Ora, no não-dito, naquilo que, de fato, faz da literatura o que ela é, metáfora do mundo, o ‘outro texto’, que não é o histórico, nem o jornalístico, muito menos o científico; que não é senão o que se pode aferir e afirmar ou reafirmar a cada leitura. O atributo que a inscreve sempre nova na eternidade.”


Menor esforço e imagem
(10/07/2014)
leia aqui

          “(...) o fanfarrão Thomas Guillaume [se faz passar] pelo sobrinho do grande general Fontenoy e, com isso, abre portas para si e muitas outras pessoas, tornando-se herói da Primeira Grande Guerra. Na trama, ele transita por muitos lugares, ganha a confiança de uma aristocrata, a senhora de Bormes, conquista o coração desta e de sua filha, Henriette, e faz da Belle Époque o seu palco. A Europa arde em guerra, mas Thomas arde de vida, como se ainda fosse criança e estivesse, em mais uma brincadeira, entre seus companheiros traquinas.
          Com tal estratégia, [Jean] Cocteau termina por nos sugerir [em Thomas, o impostor], metaforicamente, que a guerra, e em especial aquela, não passa de um capricho, uma aberração que homens supostamente importantes, em seus gabinetes, decidem criar para a ascensão de si mesmos e de suas carreiras, a despeito do infortúnio dos países e das pessoas que representam. A ironia é que, sem esforço nem vontade, nem tampouco qualquer treinamento militar ou intento diplomático, Thomas se torna uma legenda maior que a dos ‘grandes homens’ que fizeram eclodir a guerra. Sua experiência é, como a de todos os combatentes, universal: ‘A última cortina se levanta. A criança e a fantasia se confundem. Finalmente Guillaume conhece o amor’. O front e o amor guardam os mesmos sentimentos. E esperanças.”


“(...) Ao experimentar desejos irrefreáveis por outra mulher, e abdicando, de imediato, de qualquer sentimento que não o de apenas a possuir, estar entre aquelas pernas, o protagonista se conhece e se aceita, para ao fim chegar a uma conclusão a que as pessoas, em geral, viram as costas ou procuram relevar: de que, muitas vezes, ama-se não a pessoa, mas o amor, a chance ou a possibilidade de ‘fazer amor’. No restante dos casos, prevalece a idealização romântica. Que não passa de teatro do mundo.”


“O que se espera de qualquer romancista é que ele nos apresente um mundo que só ele conhece e que, doravante, também nos será íntimo. Não interessa se no presente, passado ou futuro do mundo. Ou até mesmo nos três tempos, simultaneamente. O mais importante é que o autor nos convença da existência daquele instante e daquele lugar. (...) O cenário é de cidade pequena; o clima, chuvoso; e os personagens, sem qualquer maniqueísmo por parte da autora, alternam os estados de ânimo que são o fundo e a forma de todas as pessoas: simples seres humanos, com qualidades elogiáveis e equivalentes defeitos, alguns bem terríveis. Se não fosse assim, de que valeria ler literatura? Sonhar por sonhar, num leito é mais cômodo do que entre páginas. E o romance de Gláucia Lemos [Marce] é exatamente isso: um refúgio de onde saímos mais conscientes do que sejam o mundo e os homens.”


“Obviamente que estas adaptações para a tevê de quatro dos melhores romances de Jane Austen não os substituem [Emma, Persuasão, Razão e sensibilidade e Orgulho e preconceito]. Ler é imprescindível, qualquer que seja o ângulo de análise e o argumento que se utilize para apreciá-los ou não. A leitura é sempre uma impressão do autor filtrada pela sensibilidade e experiência de quem lê, e isso é insubstituível. No entanto, é um deleite para o espírito e os olhos assistir a estas aventuras que, verbalizadas literariamente por Jane Austen, transformaram-se em vida através das grandiosas imagens destas adaptações. Saímos renovados de cada uma destas histórias, e mais cientes de quem somos e de como funciona o mundo. E como são belas e verdadeiras! Como pulsam de otimismo e humanidade!”


Vá e veja 21: Trilogia da vida
(14/01/2014)
leia aqui

          “Há muitos anos que deixei de admirar o cinema brasileiro, mais afeito hoje às pressões do mercado e às imposições multiculturais, e conto nos dedos os filmes que, de fato, podemos chamar de obra de arte cinematográfica. Este [Heleno, de José Henrique Fonseca] é um deles, a começar pela trama, que, baseada num assunto trivial (a biografia de um problemático jogador de futebol), tinha tudo para fracassar. Mas os realizadores (roteiristas, diretor e fotógrafo) foram muito felizes no estabelecimento de uma estrutura que alterna os dias de glória do craque com seus momentos terminais numa clínica psiquiátrica. Entremeando os dois tempos, surgem as recordações idealizadas do jogador, oriundas de seus delírios químicos. Neste sentido, é como se assistíssemos a uma exposição dialética: o êxito no futebol (tese), a decadência pessoal (antítese) e o sonho substitutivo (síntese). Incapaz de se repetir perante o tempo implacável, que o engolfa, Heleno se refugia numa realidade onírica, na qual prevalece uma existência ideal, livre de percalços.
          (...) um filme fluido, sem pretensão biográfica, que abdica do futebol em favor do âmbito extracampo e faz de Heleno de Freitas uma vítima de si mesmo e um protótipo humano de todos nós, que mal estamos preparados para o sucesso e não sabemos lidar com os fracassos.
          Culpar o outro, diminuindo-o ou achincalhando-o, é o escape mais fácil e ao qual não nos furtamos. Assim também era Heleno de Freitas: o culpado era o lateral supostamente onanista ou mesmo todo o time, formado por pernas de pau (salvo ele, Heleno). De onde ele estava, na sua grandeza e talento incomparáveis, o mundo era pequeno, estranho e inimigo. E assim foi até o fim.”


“O melhor jogador em campo em Natal, no confronto entre Itália e Uruguai, foi o juiz. Sua soberba atuação foi decisiva para o resultado (...) O fato é que o juiz não esteve bem. Alternava conversa excessiva com ausência de cartões, conforme orientação da FIFA, mas, de súbito, se perdeu e favoreceu decisivamente o Uruguai. Se me cabe especular, diria que foi o idioma. Mexicano, o juiz simpatizou com os uruguaios e, lá no fundo da alma, viu a Itália como o colonizador, à semelhança da Espanha, e, no miúdo do jogo, foi se deixando pender. Inclusive, foi negligente quando não puniu com o cartão vermelho o atacante Suárez, que, de fato, com um tremendo bocão, mordeu o zagueiro Chiellini. O jogador italiano chegou a correr atrás do juiz, a mostrar o ombro — a evidência da falta, a prova da infração —, mas sem efeito. O precedente lança a hipótese de que, a partir de agora, nas Oitavas, morder é válido. E teremos a primeira Copa de Vampiros.”
 

“(...) veio a público uma excelente declaração de Chiellini, a vítima de Vampirito Suárez, que, em suma, disse: não tem raiva nem qualquer sentimento de vingança contra Suárez e que a punição é excessiva; lamenta pelo jogador e sua família, devido ao longo período que Suárez ficará afastado do futebol, e sugere que ele, mesmo alijado da Copa, seja autorizado a ficar ao lado de seus companheiros durante o restante dos jogos. Maior prova de civilidade e profissionalismo, impossível. E nesta declaração se percebe a diferença entre os dois jogadores. Chillini, além de um ótimo zagueiro, firme e leal, parece ser um sujeito inteligente e cortês. Mais uma lição (ou punição) para o Vampirito.”


“Surpreendeu a todos que a FIFA premiasse Messi como o melhor jogador da Copa. Nem ele mesmo acreditava nesse galardão e, por isso, ficou ali, com a taça na mão, sem saber o que fazer. Faltou ao mesmo a humildade de recusar o prêmio e o entregar a Kross, Robben, Jamis Rodríguez, Müller ou Neuer. Na verdade, a FIFA deu ao argentino um prêmio de consolação, como fizera em 2010, ao escolher Forlán. Se assim foi, deveria dar algum também ao selecionado brasileiro. Um muro besuntado de graxa, digamos, diante do qual os caras ficassem a se esfregar e chorar suas lágrimas infantis, de adolescentes tardios, como bem definiu o escritor Carlos Barbosa.”


Mayrant Gallo (foto: Lima Trindade)

Presentes no blog NÃO LEIA!, de Mayrant Gallo, postagens Em lembrança de minha mãe (29/08/2014), Menor esforço e imagem (10/07/2014), Mais outro avião (26/07/2014), Leituras, 47: Bom-dia, tristeza (10/04/2014), Vá e veja 21: Trilogia da vida (14/01/2014), Leituras, 48: O americano tranquilo (10/05/2014), Desaparecimentos (13/01/2014), Quantos livros o Sr. já publicou? (22/03/2014), Charles Bukowski vive (25/11/2014), Leituras 40: A hora final (04/02/2014), Leituras, 42: Haikus (28/02/2014), Leituras, 46: O retrato (19/03/2014), Leituras, 49: Thomas, o impostor (02/12/2014), Leituras 39: As pernas de Úrsula (10/01/2014), Leituras 38: Marce (09/01/2014), Vá e veja, 23: Jane Austen (17/12/2014), Vá e veja, 22: Heleno (28/06/2014), Diário da Copa, 20: O juiz decisivo (24/06/2014), Diário da Copa, 24: Chiellini (27/06/2014) e Diário da Copa, 38: Alemanha tetracampeã! (14/07/2014), respectivamente.

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