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O interior do reggae é samba


Em 2023, criei o projeto “O interior do reggae é samba”, para disputar o edital Rumos Itaú Cultural. A ideia era aproveitar a máxima de que tudo vira reggae e reconfigurar a obra do sambista baiano Tião Motorista (1927-1996), na voz cristalina do seu sobrinho, o reggae star Jahgun (baiano radicado na Califórnia), com os arranjos e produção do mago Átila Santana. Havíamos botado no mundo o álbum “Silent Dreams”, com as minhas composições; agora, uma nova rodada de trabalho com os amigos.

Jahgun amou a ideia e se reaproximou da família do tio querido. Prontamente, autorizaram o cantor a gravar, pois o que todos querem é que a música do mestre sambista circule para as novas gerações.

O projeto propôs a gravação do álbum “O interior do reggae é samba – Jahgun canta Tião Motorista”, com 10 faixas, numa reconfiguração de ritmos, do samba para o reggae, as músicas revisitadas e rearranjadas por Átila Santana, nos variados estilos do ritmo jamaicano: rockers, lovers, rocksteady, dance hall, dub, roots e pop reggae.

LP “Meu Interior” (1977), de Tião Motorista

No repertório, composições solos de Tião Motorista (que fez parcerias com Jamelão, Chico Anysio e Olga de Alaketu, entre outros), para destacá-lo ainda mais, com os sucessos “Na Galha do Cajueiro” (gravado por Simonal, Exaltasamba e Luciana Mello, entre outros), “4 de Dezembro” (gravado por Maria Bethânia) e “Cheguei Tarde” (gravado por Alcione e Jair Rodrigues), além dos sambas “Minha Roupa”, “Você Não Tem Palavra”, “Relógio Não Espera”, “Aonde Eu Ia, Não Vou Mais”, “Lavagem do Bonfim”, “Fazer Santo é Mistério” e “Meu Interior”, presentes nos álbuns “Samba e Talento” (1970) e “Meu Interior” (1977), de Tião.

O interior do reggae é samba” seria o primeiro álbum gravado em português por Jahgun, que tem muitos trabalhos disponíveis em inglês (acompanhado pela banda Justifyah, ele toca regularmente nos EUA e em festivais como Reggae on the Mountain e Lightning in a Bottle). Porém, não foi selecionado pela comissão do edital Rumos Itaú Cultural. Um desperdício, avalio. Sorte que Jahgun resolveu tocar as gravações por conta própria e, junto com a produção e arranjos de Átila Santana, vão reconfigurar os sambas do mestre Tião Motorista em hits de reggae deliciosos. Acompanhem nas redes!

PS: Segue abaixo a justificativa que elaborei para o projeto.

LP “Samba e Talento” (1970), de Tião Motorista

Raimundo Cleto do Espírito Santo ganhou o apelido de Tião porque jogava tão bem quanto o craque rubro-negro de então, a fazer gols pelos novatos do Ypiranga. O Motorista veio anos depois, quando se firmou como um dos taxistas mais queridos de Salvador, exímio conversador simpatia a apresentar a sua cidade para os turistas. Mas o seu principal talento era a música, especialmente o samba, que dizem ter nascido na Bahia (celeiro de bambas como Riachão, Nelson Rufino, Batatinha, Edil Pacheco, etc.). E Tião criava melodias e versos como “já sei o que fazer, não devo me zangar, eu vou sair sozinho, eu nasci só, eu sei andar”, “trabalhando duro para ganhar dinheiro, a família é grande para sustentar, ninguém vai me ajudar (...) se eu chegar atrasado, vai ter agonia, não marco o meu ponto, vou perder o dia, relógio não espera operário chegar” e “se estou chorando por dentro, sei do meu interior, pouco importa o que sinto, se é coragem, se é pavor (...) das vitórias ou fracassos, sei do meu interior, ninguém vai saber de mim”, um cronista da realidade que o cercava, e que propagava às pessoas com uma voz afinada, aveludada, de timbre suave, cheia de balanço e malemolência tipicamente baiana.

O álbum “O interior do reggae é samba” é um resgate da obra de Tião Motorista. Mais ainda: é uma reconfiguração, uma refazenda, uma experiência que revela que, no íntimo do ritmo que a Jamaica sagrou no mundo, há o DNA do samba, a música negra da diáspora a universalizar os saberes, emoções, sonhos e inteligências afrocentradas. Nosso projeto quer revisitar o mestre e apresentá-lo às novas gerações através da voz da sua família, cujo talento musical continua a encantar por aí.

Um trechinho da primeira faixa que Jahgun e Átila estão produzindo

O reggae star Jahgun é sobrinho de Tião Motorista (por ele ser mais velho, era chamado de “avô” pelo menino, e o carinho era retribuído: “marrom glacê” era o apelido que o tio deu ao filho de dona Sônia), dois homens negros com origens na periferia de Salvador, histórias de lutas, conquistas e êxodos, trabalhadores que labutaram em muitas áreas, sempre atrás do sonho de viver de música. Tião morre tragicamente afogado numa praia de Salvador, meado dos anos 1990, e, mesmo tendo sido gravado por gigantes como Maria Bethânia, Simonal e Exaltasamba, só possui dois discos lançados e as suas composições precisam ser relembradas.

Apoiar o nosso projeto é a oportunidade de colocar a obra de um mestre do samba em evidência novamente, próximo ao seu centenário; de proporcionar à cultura e aos consumidores de música um álbum com uma proposta instigante, experiência entre gêneros, rico de arranjos e interpretação emocionante; de valorizar o legado musical de uma família negra sem fronteiras, periféricos que ganharam o mundo, com talento e arte, geração por geração. “O interior do reggae é samba” já reaproximou o “californiano” Jahgun à família do seu tio, que esperam ansiosos a oportunidade do grande público se encantar novamente com a arte de Tião Motorista, eterno.

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