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Cinco poemas e três passagens de Otto Leopoldo Winck no livro Cosmogonias

Otto Leopoldo Winck - Foto daqui Memorabilia Otto Leopoldo Winck Olhar o rio e compreender que o tempo é um rio que flui e não retorna, e, se retorna, será, num tempo outro, um outro rio. Olhar o rio e compreender também que, se as suas águas as nossas mágoas levam, é nesse rio, além da foz, além do mar, além da noite extrema, que as nossas lágrimas se transfiguram, iluminadas não das mágoas mortas, que destas já não há nenhum remédio, mas daquelas que ainda surgirão, pois se há fluir, se há correr, se há viver, sempre haverá sofrer, e pena, e mágoa. Olhar o rio e compreender que o tempo é o rio sem fim em que nos batizamos, irremediavelmente naufragados, todo dia, toda hora, a todo instante. Olhar o rio e aceitar que não podemos nos agarrar aos ramos e às raízes da encosta — e que os barrancos nem sequer a fantasia da estabilidade nos podem, despencando, transmitir. Olhar o rio e compreender enfim que, se a sina de todo rio é o mar, o fim de toda gent...

Trinta e cinco passagens de Ângela Vilma no blog Aeronauta em 2010

“(...) você não sabe nada sobre seu próprio nascimento assim como também nada saberá sobre sua morte, já a caminho. Tudo o que você é, a ficção que você escolheu criar, pertence aos outros, à memória alheia. Sobre o momento que você nasceu, apenas sua mãe e os que estavam presentes ‘disseram’; de sua morte que vem aí, já já, apenas os possíveis espectadores farão o posterior relato. O que resta pensar? Se você não tem a memória dos dois grandes marcos de sua própria existência, a pergunta é insistente: não é uma imensa solidão essa, existir? (...) Ora, ora, você sequer existe, e a solidão é tudo que há. Sinta-a agora, antes de ir atravessar o imenso corredor que lhe espera. Não se agarre ao braço de seu namorado, afinal ele não poderá atravessar o corredor com você. Ele também, na sua hora, atravessará o corredor. Sozinho. É assim que a lei maior, a burocracia, manda: sozinho, marchando sempre, sem se deter. (...) É engraçada essa tragédia (...) porque pensando bem será meu corpo, ...

Vinte e cinco passagens de Carlos Barbosa no blog Minicontos entre 2015 e 2019

“A melhor receita de vida é estar aberto a novas leituras, a novos autores, daqui e d’alhures, deste ou de outros tempos; melhor receita não só para um crescimento pessoal saudável, mas para uma atitude de correta honestidade intelectual. De outra maneira é como se aprisionar a um território e suas parcas possibilidades — por mais que as consideremos plenas — ou a um cânone gélido — por mais que o consideremos insuperável. Como saber, se não experimentarmos? Eu sou um que se considera imperfeito, incompleto e ansioso por conhecimento — o que sou, o que tenho, o que conheço, o que sei, ou o que penso ser, ter, conhecer e saber, parece-me muito pouco.” “Sabemos que o sertão vincula-se automaticamente ao conceito de solidão, de distanciamento, de agruras individuais. Eu digo o que já disse antes: o sertão é antes de tudo território de insuficiências. Ou seja, matéria-prima qualificada para a gênese da arte e de artistas. (...) muito provavelmente este prosador posto à distância de ...

Trinta e sete passagens de Ângela Vilma no blog Aeronauta em 2009

“Sou uma mulher machadiana, silenciosa e entrada em anos. Minhas mãos não têm mais a suavidade dos vinte, e a conversação que proponho é tímida, reticente, sem qualquer esperança. Ganhei com o tempo um rosto severo, com marcas delimitadas pelo espelho mais cruel. Nele nem o meu sorriso é como era: quando se abre, uma nuvem se aproxima em confidência íntima, eterna. Meu corpo sem filhos ganhou o contorno dos rios já vividos, sinuosos e vastos, e nas frestas de minha pele habitam peixes como se no aquário estivessem. Veias partidas aparecem nas minhas pernas, condenando-me à mais primitiva das belezas, à ternura das mais antigas pedras. Meus cabelos, como plantas aquáticas, crescem, crescem, e fios brancos despontam, pálidos, errantes. Tudo em mim é natureza se transformando, árvore plena carregada de troncos.” “Não sabemos quem foi a primeira pessoa a falar de amor, seja nas artes seja num simples bate-papo. Não sei se o que já senti ou escrevi foi, de fato, amor. Aliás, essa pal...