Mayrant Gallo (foto: Lidi Nunes)
Mayrant Gallo é professor e escritor, natural de Salvador-BA (1962). É graduado em Letras com Francês, e mestre em Teoria da Literatura, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Foi professor de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Publicou vários livros, entre os quais “O inédito de Kafka” (CosacNaify, 2003), “Três infâncias” (Casarão do Verbo, 2011), “Os encantos do sol” (Escrituras, 2013), “Cidade singular” (Kalango, 2013), “As aventuras de Nicolau & Ricardo: detetives” (Penalux, 2014), “O enigma dos livros” (P55, 2015) e “Verão do incêndio” (Villa Olívia, 2023), entre outros. Ganhou os prêmios “Literatura para todos” do MEC, em 2009, e Petrobrás Cultural, em 2010.
Mayrant Gallo é o autor baiano que eu mais admiro (sou leitor fiel da sua obra), um dos escritores com maior respeito à arte literária, um professor que me ensinou muito sobre Literatura e Cinema. Neste post, relembro uma seleção de 30 trechos que fiz da sua obra em 2015, epígrafes maravilhosas prontas para serem usadas nos livros de vocês (ou apenas apreciadas por leitores atentos).
“O lado vazio da cama
É a presença humana
Que mais atemoriza...”
“Recordações de andar exausto” (2005)
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“Sempre tem alguém que faz antes de nós o que pensamos fazer.”
“O inédito de Kafka” (2003)
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“Sonhou que transava com três mulheres. Mais: que as satisfazia. Acordou, e nem a esposa estava ao seu lado.”
“Nem mesmo os passarinhos tristes” (2010)
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“Assombrava-me a afirmação de que o que acontece já aconteceu. De que o presente foi, o futuro é, e o passado será. De que o que se diz já foi dito. Em suma: o que se afirma que vai ocorrer já ocorreu; apenas estamos nos lembrando do fato, que não passa de um porvir reincidente.”
“O gol esquecido” (2014)
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“Disse que ia sair para comprar cigarros... E o fez mesmo. Voltou para casa e está dormindo.”
“Nem mesmo os passarinhos tristes” (2010)
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“O homem não pode sobreviver além do limite imposto pelo tempo, pela dor. Não pode suplantar a morte, se manter jovem e viril. Tudo o que o homem faz é porque já o traz embutido; tudo, toda ação é, portanto, uma peça a mais montando o emblema turvo do fim.”
“O inédito de Kafka” (2003)
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“A mão que arrebata você é tão grande, e forte e cerrada, e você se sente tão oprimido e abandonado, que cedo lhe vem a compreensão, irrevogável, de que todas as pessoas têm direito natural à vida, não importa o que façam com ela. Você revê — ou relê — a vida e a compreende a partir do seu destino infame.”
“Três infâncias” (2011)
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“É preciso compreender que o culto ao passado muitas vezes não constitui um sintoma de fraqueza, nem de loucura, nem de tédio, mas a única opção que nos resta.”
“Os encantos do sol” (2013)
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“Nenhuma dor coletiva é maior que uma dor individual. Nenhuma onda, tendo varrido toda uma enseada com seus barcos e seus banhistas, supera a dor de uma ausência pessoal, a dor de um braço cortado, a dor de um coração partido.”
“82: uma copa | quinze histórias” (2013)
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“Um domingo vazio, sem movimento. O sol, por entre os edifícios, projeta sombras contra ruas e becos. Não há sentido no espaço, nem no tempo, pois não há pessoas à vista; só artérias de sombras e luz, reflexos que, partindo das janelas, cortam o vazio, cruzam o ar e repousam no vácuo daquela tarde sem propósito.”
“As aventuras de Nicolau & Ricardo” (2014)
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“Isaac compreendeu que era realmente depois da morte que o sujeito se transformava em ninguém, nada, algo nulo, um objeto de uso, o veículo do desejo alheio ou, talvez, o repositório de seus sonhos frustrados, de seus desejos adiados e suas escolhas malfeitas. Seu tio jamais fora religioso, e agora o era; jamais pensara em se salvar, e agora, morto, segundo o padre, entrava no Paraíso; jamais pensara em Deus senão com sarcasmo e desprezo, e agora era o próprio pensamento corporificado de Deus.”
“Cidade singular” (2013)
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“O Gordo tinha uma teoria: mulheres se deitam à noite com possibilidades e despertam pela manhã com frustrações. (...) Ele era uma possibilidade. E também, a qualquer hora, uma frustração.”
“Cidade singular” (2013)
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“Ninguém foge da morte, do tempo, da velhice, tríade de canalhas numa trama que quer, a qualquer custo, o homem, cada homem. Impossível fugir deles. São implacáveis e estão em todas as épocas e todos os lugares. A morte reina absoluta, livre de rivais; o tempo é paciente e pouco se importa se é hoje ou amanhã; e a velhice, velha e exigente costureira, não tem pressa nenhuma de acabar sua rede de rugas. E assim vão vivendo, devastando o homem, que quanto mais foge mais se entrega.”
“Pés quentes nas noites frias” (1999)
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“queremos certeza
e o que temos são estrelas
por sobre a cabeça.”
“Recordações de andar exausto” (2005)
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“Você cresce. É um ato que, se por um lado é misterioso, por outro é lúgubre. Não há como evitá-lo, nem tampouco como conferir-lhe aceleração. Ato letal, como o destino de uma estrela, que se distende, expande e afinal explode. Naturalmente, você não se lembra de muita coisa: os dias existem para uma irremediável perda.”
“Brancos reflexos ao longe” (2011)
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“A vida tem a duração de uma névoa ou de um cigarro: para algumas pessoas, contam-se horas ou mesmo dias; para outras, breves segundos. É gozar o máximo, viver o possível e esperar o fim, a grande hora. (...) Cada frase sua era uma sentença, um pensamento cruel que lembrava a todos que a vida humana não passava do epílogo de um drama insólito num teatro em ruínas.”
“As baianas” (2012)
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“O corte no dedo, por sua vez, não deixara marca alguma. Quando o marido, no auge do desejo, o beijava, não percebia nada, nenhuma protuberância que o fizesse parar a carícia e perguntar qual a origem daquela cicatriz. Não, não havia cicatriz. E talvez seja esse o mal do mundo, o apagamento irremediável das cicatrizes.”
“Pés quentes nas noites frias” (1999)
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“Por vários dias admirou aquela modelo-viva na vitrine. Quando soube que não era viva, não deu a menor importância. Voltaria lá tantas quantas vezes quisesse sua lembrança.”
“Nem mesmo os passarinhos tristes” (2010)
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“Longe, ausente, o pai do menino estava dormindo dentro dele, e só às vezes acordava, olhos abertos no escuro, em meio ao sono, ainda tomado pelo fio do sonho. Mas logo voltava a fechá-los, ofuscado pelo sol apático de uma vida que não era a sua.”
“O inédito de Kafka” (2003)
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“Nicolau e Ricardo querem férias, mas o crime não para. Nicolau e Ricardo estão cansados, mas os criminosos tiram energia do sol e se renovam como insetos. Nicolau e Ricardo gostariam de passar três semanas na praia vivendo só de vento e espuma, mas os criminosos preferem prensar cédulas e contar papelotes. Nicolau e Ricardo gostariam de ir para a cama todas as noites à mesma hora e amar suas mulheres, mas os criminosos passam as noites em claro e, firmes como rochas, volúveis como água, só raramente cedem aos encantos de um ventre. Nicolau e Ricardo acham que, no fim das contas, pesados os extremos, os criminosos levam vantagem.”
“As aventuras de Nicolau & Ricardo” (2014)
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“Esteve a contemplar, de cima de um prédio, equilibrado no parapeito, a vastidão de concreto e ferro desenhada pelo homem e agora inútil. Tudo ao mesmo tempo o fascinava e entristecia. De que adiantavam todas aquelas linhas de imponente arrojo, se ninguém mais, exceto ele, um serzinho ínfimo, podia contemplá-las?”
“O ovo e o mundo” (2015)
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“Lá fora, ao vencer o corredor ensolarado e de cuja superfície, de cimento áspero, subia um indefectível odor de aridez, amuou-se, certo de que ia morrer, em breve. Talvez. Esta é uma possibilidade sempre presente, o forro da própria existência, o pouco de sentido que diariamente a envolve, sob os clarões do nada.”
“O enigma dos livros” (2015)
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“Nasce o sol sobre o dia, emprestando-lhe sentido. Na manhã, na praça vazia, silenciar de passos, os amantes tentam desesperadamente ter-se em vida, pois que estão morrendo a cada ato...”
“Três infâncias” (2011)
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“Com o passar dos dias, a moça se convenceu de que não havia mais esperança, e que o cisne se achava realmente sozinho e por isso vagava ao longe, em meio às luzes. A última compreensão que tiveram deixou-os perturbados. Foi a moça que a sacramentou, com um doloroso comentário:
— Como eu, ele também pensa que as luzes são sua companheira. E passa as noites a nadar, enganado pelas aparências.”
“Brancos reflexos ao longe” (2011)
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“Nenhum vestígio restaria no fim, exceto lá por dentro, num vão profundo de seus corações. Um lugar inalcançável e que jamais seria preenchido (...) A lembrança de seus atos não os reconstruía, nem por inteiro nem parcialmente. Seus dias passados seriam, quando rememorados, uma simples mentira que os propagaria como figuras sem fundo e sem força. Um traçado inútil para uma repetição falsa.”
“As baianas” (2012)
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“O sol pálido lá fora.
A chuva.
A gente que passava, os trens ao longe.
E ele ainda querendo que tudo fosse diferente.”
“Dias de garoto” (2015)
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“A execução foi marcada para a clareira pública, ao amanhecer, com a presença de muitos animais, que, nessas ocasiões, abandonam atabalhoadamente suas tocas, pois a morte alheia é um evento sempre atraente e muito disputado.”
“A minhoca dorminhoca” (2015)
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“— O crime é hoje solução para tudo — Victor Vhil disse, num tom que não admitia réplica.”
“Dizer adeus” (2005)
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“Imediatamente, sentiu-se feliz por não ser o único ser vivo no mundo. Mesmo um gato era bem-vindo, e ainda que lá na fazenda, antes, ele vivesse se escondendo do bichano, com medo de ser devorado, e embora fosse este o único destino dos patos, mais cedo ou mais tarde — um estômago.”
“O ovo e o mundo” (2015)
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“Depois do impacto e do baque,
A imobilidade. A amabilidade...
E foi como se o mundo parasse.
E até o Bigode — pela primeira vez! — sonhasse.
Ali na rua aquele monte de pelo imóvel,
E em cada cabeça a dor de não se ter sido melhor.”
“O cachorrinho riu” (2015)

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