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Ao mestre André Setaro, com carinho

André Setaro (reprodução do seu Facebook)

Ao mestre André Setaro, com carinho
Por Emmanuel Mirdad, o espinheira, seu discípulo

Não sei se é possível continuar a chamar a Faculdade de Comunicação da Ufba de Facom sem o professor André Setaro. Tenho plena certeza que hoje enterramos a Facom junto ao mestre da contemplação. Que a partir de agora seja chamada de Faculdade de Jornalismo ou qualquer outro similar torto e imperfeito, mas que não seja utilizada mais a lendária nomenclatura Facom. Sinto muito, novos calouros, com a partida de Setaro, é impossível se formar novos faconianos. Acabou. A tragédia é essa. Não houve, nem nunca haverá, um professor como André Setaro. Mais que professor, mestre. Que tava se lixando pra isso.

Vítima de enfarto, faleceu ontem, 10 de julho, aos 63 anos em Salvador, Bahia. Com ele, perdemos uma biblioteca, vasta de prateleiras, assuntos diversos, com o bom humor pregado no teto rindo de imediato, debochado, cheio de sarcasmo, quando alguém puxava um livro e vibrava com o umbigo: "Veja bem... ". Se algum dia você visitou a biblioteca Setaro, aprendeu que é na descrição, na independência, no desprendimento que é possível o gênio.

André Setaro (reprodução do seu Facebook)

"Sonhei (e não sei por que cargas d'água) com Bell Marques. Acordei surdo" – André Setaro. O mestre da ironia escreveu assim em março deste ano: "Que será de mim, meu Deus!, d'agora em diante, sem os acordes melodiosos do Chiclete com banana? Resistirei à dolorosa perda?". Uma risada farta, no timbre rouco, e as baforadas a sair como de uma boca de dragão.

Em janeiro deste ano, citou Machado de Assis no seu Facebook: "Matamos o tempo, mas é ele que nos enterra". Para Setaro, o bruxo era "O MAIOR DE TODOS", pois "de longe, é o maior escritor brasileiro. Estilo admirável (qual escritor 'made in Brasil' tem um estilo tão absorvente?), ler Machado é compreender a extrema beleza da criação literária, Tenho a sua obra completa editada em três volumes pela Aguillar. Sempre que acabo de ler o terceiro, volto ao primeiro e, assim, 'ad infinitum'. Machado é a minha terapia". Quando alguém demonstrar, com propriedade evidente, que é fã de Machado, ou seja, que é um Machadiano, confie, pois costuma ser uma linhagem de mestres – como Hélio Pólvora, Nelson Rodrigues e tantos outros.

André Setaro (reprodução do seu Facebook)

André Setaro era um esteta, um admirador confesso da beleza feminina, especialmente sua musa Brigitte Bardot. Era um bon vivant, um dos poucos que sabiam beber e o álcool produzia mais sentidos ainda, ao invés de confundi-los. Um amante dos prazeres que não lhe eram vícios, e sim um estilo de vida, uma parte importante e indissociável de seu caráter revolucionário, contestador, anarquista. Uma figuraça, um sátiro da celebração, do bom papo, das risadas, do deboche. E, quando era preciso ser duro, era. Quando teve de se expor para pedir ajuda, fez da maneira honrada, sem vexame, sem exposição de fraqueza. Fez como um homem. Fez como um honrado cavalheiro que sempre foi.

André Setaro era um gentleman, um lapidador da palavra. Você podia vir com a excitação que fosse na pergunta, voz alta, nervoso, doido pra perguntar algo cabuloso pra esperar uma resposta polêmica ao extremo, e ele nunca alterava seu timbre de voz. Setaro era discreto, calmo, deixava o tempo respirar, transpassar seus pensamentos; promovia ausências entre as ânsias nossas por suas respostas. Seguia em suas baforadas, dava uma só palavra: "e...." e as milhões de reticências que diziam tudo antes que dissesse tudo.

André Setaro (reprodução do seu Facebook)

Era o homem da precisão, do êxito da síntese, um Antonioni da existência. Seu raciocínio fluía devagar, nunca vinha de lá no sobressalto, na urgência, no fascínio babaca de aparecer. Nosso mestre era um cavalheiro, da boa-educação, e atirava-lhe na sua cara que não precisa ser um babaca correto pra ser um homem honrado. Pra mim, André Setaro era um tipo raro, esses sábios que inutilmente tentamos definir como "Buda Nagô". Muitos têm esse apreço por Dorival Caymmi, como Gilberto Gil cantou. Sim. Mas eu tenho mais por André Setaro.

O sarcástico ícone do deboche comentou assim em fevereiro: "Ainda continuo com o firme propósito de ir, quarta que vem, participar do quadro "Desaparecidos" do 'Ba/Tv' - Meio-Dia' da Tv Bahia, considerando que ainda não me encontrei. Estou em crise de identidade. Quem sou? Para onde vou? O que estou fazendo neste vale de lágrimas? Tenho fé na Polinter e na ajuda da apresentadora para que alguma alma caridosa possa finalmente me encontrar e me mostrar quem sou".

André Setaro (reprodução do seu Facebook)

O grande jornalista, observador implacável da imprensa baiana, escreveu em janeiro deste ano: "Na reportagem de capa da Muito de domingo passado, no texto está citado 'Grande sertão: veredas', de Guimarães Rosa como um livro de Graciliano Ramos. A cultura literária dos jornalistas baianos parece ir de vento em popa".

Um mortal e sua paixão pela cerveja. Um cabra macho, íntegro, símbolo convicto guerreiro de suas convicções. Sem concessão. Sem passada de mão. Se é pra fumar e beber, que se danem os avisos, os pedidos, os alertas do perigo. Era a sua vida, era o seu estilo, era Setaro e fim. Bebeu e fumou até o fim. E morreu por isso. Mas quem não morre? André Setaro era homem de fato e mérito!

André Setaro (reprodução do seu Facebook)

Caso tenha visto a CBF em campo nessa horrenda exibição de 2014, deve ter-se enfurecido pela presença maciça dos filhinhos da mamãe que se dizem os homens de hoje em dia. Homem, pra mim, era André Setaro. Que gostava de beber e dizia foda-se ao sistema. Que sabia apreciar, respeitar e valorizar a beleza e os mistérios da mulher.

"Amada cerveja, que ajuda a mitigar as dores infinitas de minha existência; amada cerveja, que traz paz e tranquilidade ao interior agitado de meu ser distímico; amada cerveja, que me ajuda a ficar um pouco distante da onda 'on line' que assola os corações e mentes. No Porto da Barra, ao descer da noite, absorto em meus pensamentos, e buscando, nos arcanos de minha memória, uma razão para viver" – André Setaro, 23 de novembro de 2013.

André Setaro (reprodução do seu Facebook)

Além do cinema, da crítica, do jornalismo, da ética, da coerência, da boemia, do sarcasmo, do humor, da literatura, da cultura, André Setaro era um mestre em dissolver as dissimulações dos homens e mulheres. Logo após o Natal do ano passado, escreveu em seu Facebook: "Infelizmente, a maioria das pessoas é oblíqua e dissimulada e, mesmo, hipócrita. Vê-se nitidamente que o Natal, hoje, é um festival de hipocrisias e de aparências, pois vivemos numa sociedade do TER e não do SER. O que importa o que você é para a maior parte das pessoas? Importa, sim, o que você TENHA. Vou m'embora para Passsargada. Lá, sou amigo do rei"

Em 2004, André Setaro condenou: "Lula é um traidor, porque ele traiu os princípios de sua campanha". Ferrenho crítico do PT, que votou em Lula em 2002 (assim como vários intelectuais, pensadores, professores, etc., que depois se sentiram traídos e passaram a criticar o governo petista – embora que este, na Bahia, na gestão cultural de Márcio Meirelles, financiou a publicação de sua trilogia em livro), ironicamente o seu último post no seu Facebook foi sobre política: "A julgar pela aparência, embora as aparências enganem, Rui Costa, candidato "in pectori" de Jaques Wagner, é uma mala sem alça".

André Setaro (reprodução do seu Facebook)

O imperador da razão, a precisão do verbo, a eficiência da análise, o implacável humor, a enciclopédia da linguagem cinematográfica, o jornalista valioso, o crítico estilista, o cachaceiro figuraça, o boêmio ateu, o esganiçador das misérias humanas. Nosso mestre André Setaro, de tantas e tantas gerações faconianas, ETERNO!!!!

André Setaro foi o mestre que desanuviou minha ignorância e me apresentou o mestre maior do cinema: Federico Fellini. Até os confins do universo serei-lhe grato por isso! Bravo! Considero a primeira vez que o vi em sala de aula um divisor de águas em minha postura enquanto homem nesta vida Mirdad. Calouro, entro na sala com os colegas e todos se silenciam ao ver um senhor barbudo, de pernas cruzadas, em silêncio, tragando o seu cigarro até abarrotar os pulmões em plena sala de aula. Silêncio geral, atônitos todos. Eis que o senhor abre a boca, deixa escapar a fumaça e entre as baforadas de um caboclo, começa, pausadamente, com sua voz rouca: "Ahhh.... linguageemmmmm.... cinema----toGRÁficaaa..... ". Mudou o mundo, mudou tudo.

André Setaro (reprodução do seu Facebook)

Em dezembro de 2011, perdi meu mestre maior, o melhor amigo, a multidão dos mais especiais de minha vida, que foi meu pai, o poeta e filósofo Ildegardo Rosa. Essa dor imensa de uma ausência irreparável está de volta, agora com o falecimento do mestre André Setaro, que foi meu amigo e que cultivávamos uma admiração recíproca. Perdi o mais importante professor que tive, que me ensinou tanto, mas tanto, que ficaria quase esnobe expor por aqui – o que ele nunca faria, discreto e humilde como sempre foi.

Chamava-me de "espinheira" (porque eu assinava as resenhas da aula como "humilde espinho") e me caçoava porque eu fui o único que não gostou de "O homem que matou o facínora". Cobrava-me para que assistisse de novo. Ficamos de marcar de assistir juntos este ano. Não deu. Gentilmente escreveu o prefácio de meu livro de poemas, "Nostalgia da lama" (leia aqui). Por causa da saúde, lamentou que não pode ir ao lançamento. No sábado seguinte a este, fiz questão de levar seu livro autografado. Mais uma tristeza: não pode me receber; fiquei no playground mesmo. Sua esposa entregou o livro pra ele. No dia seguinte, oito de junho, por mensagem inbox, respondeu: "Recebi seu livro com a bela dedicatória ... Na minha estrada da vida, os espinhos atormentam-me. De seu admirador – André Setaro". Não pude mais encontrá-lo.

André Setaro (reprodução do seu Facebook)

Um pouco antes das 13h de uma quinta-feira, 10 de julho de 2014, perco o meu maior professor, um grande mestre. Eu não faria o que fiz e nem o que farei ainda sem os seus ensinamentos. Comparando por importância em minha vida, mesmo sem a presença constante do dia a dia e nem a afetividade da proximidade na rotina, digo, com clareza, que perdi um pai pra mim. Meu segundo pai, pois mestre de tanto como foi pra mim, é como se. Como se uma porra, foi, com toda certeza. Um pai. Outro que se vai. Este, diferente do outro, afirmava-se jocosamente de ateu. Mas digo com convicção: está na luz. Tem mérito. Fez muito bem a sua parte. E é muita luz que te desejo. Muito obrigado, André Setaro! Do seu legado não me esquecerei jamais. Descanse em paz.

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André Setaro (reprodução do seu Facebook)

A DESPEDIDA

Encontrei os amigos faconianos Mara, Daniel, Roberto e Lucas no velório do mestre André Setaro. Além deles, um faconiano da nova geração, humildemente em reverência plena ao professor de todos nós. Surpreendeu-me a presença da nova diretora da Faculdade de Comunicação da Ufba, a jornalista e professora Suzana Barbosa, que ficou conosco noite adentro, em que celebramos diversas lembranças engraçadas e antológicas do carioca que nos fascinou. Meia-noite chegou e eu, Roberto e Lucas deixamos nosso mestre na solidão de uma porta trancada.

Quinze para as nove desta sexta, 11 de julho, voltei à sala 8 do Cemitério Campo Santo, no bairro da Federação, em Salvador-BA. Surpresa: porta fechada, como ontem deixamos. Reabri e fui atrás de uma coroa de flores ao menos. Pois havia uma, encomendada pela Faculdade de Comunicação - que viria a ser a mais bela da cerimônia. Assinei e enfeitei o lugar do mestre. E esperei as pessoas.

Muita gente veio se despedir de André Setaro. O cinema baiano presente, o jornalismo, diversos professores, funcionários e alunos de várias gerações da Facom, o grande companheiro de boemia Romenil Silva. Amigos de longa data, vizinhos, imprensa. Descobri o irmão de Setaro, João, e sua esposa e filhos. Como discípulo do mestre, coloquei-me à disposição. Acompanhei-o pra autorizar a abertura da campa da família.

E chegou gente. O corredor ficou cheio. Um enterro de um grande homem, admirado, reverenciado. No relógio, onze horas e nada do cemitério vir buscar o caixão. André Setaro, coberto de flores, tinha uma feição tranquila, serena, e até mesmo irônica, lembrando um sorriso, algo do Quincas Berro D'Água. Pois não poderia deixar passar do além; aprontou.

O horário do sepultamento chegou, mas a guia não foi entregue. O professor Fernando Conceição a catar o responsável, que informou o inesperado: o sistema do cartório tinha caído. Atraso. Pessoas foram embora. E foram ficando os setarianos deste acaso. A diretora Suzana sempre atenciosa, presente, honrando o mérito do mestre diante da Faculdade que, nesta cerimônia, não falhou com ele, valorizando sua partida. Reunimos os queridos do professor. Palavras de carinho, como da professora Vera Martins e do cineasta Roque Araújo. Carregamos o caixão pesado de Setaro. Caminhamos em silêncio, não muito, pois a tumba era próxima. E ele aprontou de novo.

O caixão era maior que a cova. Os coveiros tentaram uma, duas, três vezes. Começamos a ironizar. A voz de Setaro passeava com o vento: "Vocês não vão me enterrar, hahaha". Arrumei um jeito e pedi aos fumantes presentes que acendessem seus cigarros em homenagem ao mestre. Fizeram, vários faconianos e alguns amigos. E o caixão finalmente foi colocado, mas não na horizontal, e sim em contra-plongée. Aplausos e gritos de Bravo! Bravo! Setaro!

The End.

André Setaro (reprodução do seu Facebook)

Penúltimo diálogo que tive com Setaro

Último diálogo com Setaro


43'44" de entrevista com Setaro.
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11'26" de entrevista com Setaro na TV Ufba.
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Setaro no Soterópolis sobre o lançamento da trilogia.
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Setaro "pilota" na TV-E Bahia (parte 13)
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Setaro "pilota" na TV-E Bahia (parte 11)
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Comentários

André Setaro disse…
Obrigada pela homenagem, Mirdad. O dia que você esteve aqui, o rapaz da portaria me disse seu nome, eu não entendi, e transmiti a André que estava deitado, triste e cabisbaixo. Não conheço ninguém chamado Lilá, ele disse. Eu desci, ao voltar entreguei o livro. Ele ficou muito alterado porque queria muito falar com você. Eu desci de novo, mas você já tinha ido embora. Teria esse encontro mudado tudo? Ele estaria ainda conosco, ainda que por poucos meses, porque ele nunca abandonaria o cigarro, a cerveja, e já definhava de forma visível. Via o fim próximo. A última coisa que me disse antes de partir foi: "Não posso ficar aqui (no hospital). Amanhã tenho aula..." e fechou os olhos, como que a dormir. Não sentiu mais nada. Obrigada pela sua homenagem, estamos muito sentidas e comovidas, eu e filha Francesca - um abraço - Irene

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