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Quinze passagens do livro do disco As Quatro Estações (Legião Urbana), de Mariano Marovatto



“(...) Era uma avalanche de sensações perturbadoras a caminho da natação. O formato da canção era diferente. Não havia um refrão que se repetia como as outras músicas. Quando fixava algo mais inteligível como ‘teu grito acordaria não só a tua casa, mas a vizinhança inteira’, pensando no tamanho desse grito, nas pessoas dessa casa, surgia, em seguida, algo mais sombrio como ‘e há tempos são os jovens que adoecem e há tempos o encanto está ausente’ e tudo se anuviava novamente. O ‘há tempos’, repetido várias vezes, parecia ser o sujeito da canção (...) de repente, depois de três minutos e dezoito segundos, vinha ‘lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa’ em duas vozes não sincronizadas, e a música acabava. O rádio não dava respiro e logo surgia outra canção de outra banda tentando apagar a experiência sinestésica dos meus ouvidos de sete anos de idade. Depois de escutar algumas vezes, um dia perguntei para a minha mãe por que ‘cocaína era só tristeza’. Ela, dirigindo, preocupada com a hora da natação, com o trânsito ou com as duas crianças inquietas no banco de trás, respondeu algo como: ‘Ah, meu filho, não entendo muito essa música chata.’”


“‘O segundo verso de ‘Há tempos’ é de um texto achado numa igreja em 1600 e alguma coisa na Europa e veio por carta’, diz o texto do encarte do disco, escrito por Renato. O verso em questão é: ‘Muitos temores nascem do cansaço e da solidão.’ Uma busca na internet, traduzindo o verso para o inglês — ‘Many fears are born of fatigue and loneliness’ —, e o Google apresenta quase exclusivamente uma listagem enorme de sites que citam o poema ‘Desiderata’, do poeta norte-americano Max Ehrmann, não muito conhecido por aqui. Nascido em 1872, Max nunca obteve fama com os seus versos enquanto vivo. ‘Desiderata’ foi publicado pela primeira vez em 1927, mas foi somente em 1956, mais de uma década depois da morte do autor, que o poema começou a ganhar leitores de uma forma bastante peculiar. Graças a um reverendo de Baltimore leitor de poesia contemporânea, ‘Desiderata’ foi recolhido numa compilação de textos devocionais publicada pela igreja de Saint Paul, com os créditos de seus autores. Havia, porém, uma única referência impressa no livro do padre: ‘Old Saint Paul's Church, Baltimore A.D. 1692.’ Uma rápida lida na página da Wikipedia sobre o poema esclarece a confusão feita por Renato (e por muita gente desde então): ‘Consequentemente, a data de autoria do texto era (e ainda é) muito confundida como sendo de 1692, o ano da fundação da igreja.’ Curiosamente o livro obteve um certo sucesso editorial no mundo católico e um número considerável de cópias chegou a diferentes paróquias norte-americanas e europeias. Dessa forma, a autoria do texto perdeu-se por completo com a fama exponencial dos seus versos. Renato afirma, de orelhada, no encarte, que o verso também é de um ‘autor hindu desconhecido’, provavelmente outro boato gerado pela ausência de autoria da publicação do reverendo. Em 1968, Leonard Nimoy — o falecido ator que interpretou o Doutor Spock em Jornada nas estrelas — recitou o poema inteiro numa faixa de seu LP convenientemente intitulado Spock Thoughts. Depois, em 1971, o famoso locutor norte-americano Leslev Steir [Les Crane] gravaria no seu disco o poema, finalmente com os devidos créditos ao poeta Max Erhmann. Inacreditavelmente o álbum alcançou o top 10 da Billboard dos Estados Unidos e ganhou um Grammy de melhor disco na categoria spoken word. Renato, por sua vez, nunca soube da existência desses LPs, muito menos de Max Ehrmann.”


“(...) Quase 700 mil cópias do terceiro disco tinham sido vendidas até o fatídico 18 de julho de 1988, dia do catastrófico show da Legião no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. O que deveria ter sido o coroamento dos dez anos de trajetória musical na capital do país para aquele gigantesco público de 50 mil pagantes acabou se transformando num pesadelo: 385 pessoas ficaram feridas, outras sessenta foram presas e ao total 64 ônibus foram depredados antes e depois do tumulto. A união entre o movimento punk e o ambiente brasiliense havia chegado ali, depois de uma década de surpreendentes desdobramentos (pro)positivos, ao seu maior revés, e da forma mais selvagem. Hostilizado na sua própria cidade, o grupo deixou Brasília o mais rápido possível no dia seguinte ao show. Renato, não. Renato ficou mais alguns dias. Enfurnado num quarto de hotel com um gravador cassete de quatro canais, uma guitarra, um baixo e um teclado, sob o efeito do desastre, o cantor da Legião Urbana obsessivamente continuou a trabalhar. O resultado dessas noites de hotel solitárias e não dormidas foi uma fita batizada de ‘Cocaine days’, contendo 60 minutos de desconexos esboços instrumentais: as primeiras manifestações, embrionárias, do que viria a se tornar o próximo disco da banda. O exorcismo de Brasília e a iluminação através de um caminho não destrutivo almejado por Renato em As quatro estações começou factualmente em meio à maior das ressacas da história do rock brasileiro até então.”


“(...) Renato está agora num programa de tevê [Programa livre, no canal SBT], ao vivo, em 1994. Ao longo dos 57 minutos de duração da atração, os adolescentes que lotam a plateia pedem insistentemente, a cada intervalo, para que a banda toque ‘Pais e filhos’. Cansado dos pedidos, Renato resolve pagar uma geral ao microfone: ‘Tá bom, a gente vai tocar ‘Pais e filhos’, mas a gente não ensaiou, tá? Escuta, vocês sabem que essa música é sobre suicídio, né? [...] Essa música é muito séria, tipo me desgasta pra caralho quando a gente toca e as pessoas não percebem! É sobre uma menina que tem problemas com os pais. Ela se jogou da janela do quinto andar e não existe amanhã. Sabe, eu acho bacana, a gente vai tocar, é uma música bonita, mas existe um clima em torno de algumas músicas da Legião Urbana que me assusta É uma música seríssima, que nem ‘Índios’. Eu não conseguiria ouvir duas vezes seguidas. Eu gostaria então que vocês prestassem atenção na letra e vissem que é uma coisa forte. Agora eu tô legal e tudo, mas eu estive muito mal na minha vida, quando eu era mais jovem. [...] Agora eu encontrei meu caminho, [...] e essas músicas refletem um momento na minha vida que eu não gosto de lembrar mais. Eu prefiro tocar uma outra coisa, mas a gente vai tocar ‘Pais e filhos’.’ Depois, já deitado novamente no seu sofá-cama (...),  Renato ironiza o refrão cantando em vozinha estridente com os braços para o alto. imitando a plateia de fãs da Legião, ‘É preciso amaaaar...’, sentindo-se imediatamente culpado pela piada, remenda: ‘Eu fico brincando, mas é uma música muito bonita, eu gosto muito.’ (...) Dado relembra com um risinho no canto da boca: ‘Eu acho que o nome da canção veio do fato de que na época de As quatro estações os três estavam com filhos pequenos e aquela revista Pais & Filhos rolava de vez em quando no estúdio.’ No show do Palestra Itália para 50 mil pessoas, Renato debochadamente afirma que ‘Pais e filhos’ foi feita no banheiro.”


“‘(...) Até o terceiro disco, Que país é este? – 1978/1987, homens eram homens e montanhas eram montanhas. O rock 'n' roll do grupo — até então um quarteto — chegava sem intermediários, diretamente da fonte do punk na Inglaterra, até Brasília. Renato Russo, Renato Rocha, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá conheciam mais nomes de bandas do Reino Unido — seus integrantes, seus discos, seus acordes e suas letras — do que dos cantores e compositores que se multiplicavam sob o guarda-chuva da sigla MPB da mesma época. Em As quatro estações, Bonfá, Dado e Renato se deram conta de que ‘as coisas tornaram-se confusas’, o punk e Brasília já não bastavam, se esgotaram. ‘Eu tinha que tirar Brasília do meu sistema’, disse Renato. O disco demoraria 16 meses para ficar pronto. Era a primeira vez que a banda entrava em estúdio sem material acumulado dos primeiros anos de Brasília, e as canções inacabadas dos discos anteriores, aos ouvidos da banda, reproduziam o mesmo discurso. Era necessário se reinventar. Renato afirma: ‘Não queria mais aquela angústia joy-divisiana que leva ao suicídio, tem que existir o caminho da iluminação, em que você não se destrói.’”


“Em 1989, de segunda a sexta, geralmente das três da tarde até as oito da noite, Bonfá, Dado, Renato e o produtor Mayrton Bahia, da mesma forma que os demais funcionários da EMI-Odeon iam até a Mena Barreto para trabalhar. Depois de tantas mudanças e sobressaltos no ano anterior, o trio chegou à conclusão de que o método mais eficaz para se levantar um disco era a disciplina. Na época a Odeon dispunha de dois estúdios e uma terceira sala, normalmente usada para mixagem, mas que, dependendo da agenda dos demais artistas da gravadora, também podia ser usada pela Legião para ensaiar e gravar. ‘A gente tocava onde dava, na sala que estivesse disponível, mas a gente ia todo dia, sem falta. Tipo cartão de ponto mesmo’, afirmaria Dado. (...) durante meses o processo de composição do grupo era uma ruminação de acordes, frases e timbres, até que surgisse por inteiro uma canção. ‘Neste disco tentamos fazer uma coisa mais melodiosa, mais harmônica, em vez de trabalhar só dois acordes’, diz Renato. ‘As músicas vão ser mais elaboradas, as harmonias vão ser mais elaboradas — em vez de terem duas notas, como em ‘Ainda é cedo’ e ‘Soldados’, terão cinco’, ironizaria Dado, numa entrevista feita durante as gravações do álbum. ‘O Dado tá tocando bandolim no disco, gente!’, retrucaria Renato. Na maior parte do tempo de estúdio gasto para fazer As quatro estações não houve nenhuma menção das letras das canções ou sequer o nome do disco. Bonfá, Dado e Renato se comunicavam apenas pelos ouvidos e por uma mínima referência verbal como mero lembrete: ‘Vamos puxar aquela mais Dylan’, era, por exemplo, o código para tocarem a futura ‘Sete cidades’. O disco permaneceu instrumental durante dois terços da sua gestação. ‘As letras só viriam meses e meses depois. Quando chegaram as primeiras canções de fato prontas, com os versos do Renato, a reação foi muito mais um ‘Ah! Finalmente! Vamos gravar, então?’ do que um ‘Nossa! O que você quis dizer com isso?’ ’, afirmaria Dado.”


“(...) ainda em 1988, paralelamente aos primeiros meses de gravação, quando a banda aparecia diariamente nos estúdios da EMI-Odeon, o Brasil acompanhava, também no mesmo ritmo diário, a nova novela das oito, Vale tudo. Dado afirma que o horário das gravações acabava por volta das 20 horas para que os três pudessem voltar para casa a tempo de acompanhar a trajetória de Odete Roitman e companhia. Nos arquivos dos tapes da Legião existem três demos de ‘Pais e filhos’. Na primeira delas, o famoso riff que abre a canção, feito pelo violão de Dado, ainda não existia. O guitarrista conta que um dia, em um dos ensaios, Renato sentiu a falta de uma introdução, de uma frase melódica que pudesse ser repetida ao longo da faixa. Dado concordou. Disse que seria ótimo uma frase ao violão que servisse de contraste em relação ao refrão, que surgia sempre mais pesado do que o restante calmo da canção. Foi aí que Renato teve uma ideia: ‘Como é aquela música da Tracy Chapman que toca na novela? Podia ser uma coisa naquela onda folk dedilhada, né?’ Em minutos a inspiração do violão de ‘Fast Car’ daria luz a outro riff igualmente clássico da música pop.”


“(...) Em 1989, antes do primeiro turno das eleições para presidente, Renato abriu publicamente o seu voto: ‘Eu vou votar no Roberto Freire, um comunista ateu.’ Assim como aconteceu com ‘Há tempos’ e ‘Pais e filhos’, a voz definitiva de ‘1965 (duas tribos)’ foi gravada no mesmo 17 de julho. (...) Pela temática explicita sobre os anos de ditadura no Brasil — embora entremeada pelas lembranças afetivas da infância do cantor —, ‘1965’ mantém-se solitária dentro dos grupos de canções do álbum, e, por conta disso, foi sabiamente escolhida por Renato para abrir o segundo lado do disco, inteiramente dedicado ao amor. A fórmula panfletária da música, com um grand finale redentor, ‘O Brasil é o pais do futuro / Em toda e qualquer situação, eu quero tudo pra cima’ (que iria se repetir mais uma única vez em ‘Perfeição’, em O descobrimento do Brasil), é bem diversa das antigas canções de cunho político da produção brasiliense do grupo, quando não havia esperança nem futuro em momento algum de suas estrofes (...) Mesmo em vários momentos deprimido e cético com a realidade social do país, antes e depois de compor ‘1965 (duas tribos)’ e também ‘Perfeição’, Renato depositava suas esperanças de um futuro melhor num mesmo lugar desconhecido e inominável que, provavelmente, solucionaria também a sua busca espiritual e afetiva que assombra os 47 minutos de As quatro estações. Numa entrevista, três meses depois do lançamento do álbum, ele diria: ‘O novo disco é todo político. Nesse disco a gente está falando do espiritual, e hoje em dia não existe nada mais político para mim do que o espiritual. Aliás, acho que essa é a questão crucial hoje em dia, a questão de você com teu lado religioso. Atualmente, o rock só vai mudar alguma coisa se puder servir de instrumento para seus ouvintes. Você pode pegar o rock como uma disciplina e crescer, conhecer o mundo, conhecer a si mesmo. Entrar num processo intelectual. [...] Até bem pouca tempo atrás, a gente realmente acreditava que poderia mudar alguma coisa. Depois percebemos que não ia dar mais para mudar, mas continuamos acreditando.’”


Mariano Marovatto


“‘O avô do Renato, eu acho, tinha lutado em Monte Castelo, na Segunda Guerra, e ele [Renato] já tinha composto aquele tema no teclado, pensando nessa história. E é um tema quase militar, se você parar pra escutar. Um dia ele chegou no estúdio com aquela letra toda sobre amor, misturando Camões e a Bíblia, com a música já pronta. Eu só toquei o violão, o Bonfá a percussão e de repente tínhamos mais uma música pro disco’, afirma Dado. (...) De todos os versos de ‘Monte Castelo’, Renato escreveu de próprio punho apenas dois: ‘Estou acordado e todos dormem’ e, o mais essencial da canção, ‘É só o amor, é só o amor’, Só o amor é capaz. O amor, por ser tão imenso, pode ser tão bom quanto mau. É só o amor, é solitário o amor. ‘Na verdade, Renato nunca teve ninguém. O que é triste. Nessas canções ele ficou idealizando a questão da família, do amor, da fraternidade, do ambiente socia saudável que ele não teve, sabe? Mas esses temas de amor serviram muito, na verdade, pra ele, como ruptura em relação ao discurso de ‘Que pais é este’ etc. É um lugar de conforto inventado por ele’, refletiria Dado.”


“(...) A surpresa do cantor com o inesperado verso de sua própria autoria vem da colagem de frases que caracteriza a composição da letra de ‘Há tempos’. Ao que parece, não só essa letra, mas grande parte de todas as outras letras da Legião surgiu de um reagrupamento de versos esparsos, anotados por Renato nos seus vários cadernos ao longo dos anos que, depois de recombinados, ganharam um sentido próprio. Diz a lenda que Renato demorou seis meses pra montar o quebra-cabeça da letra da canção. De acordo com o processo do álbum, é uma hipótese bem razoável. (...) Renato se autoironiza: ‘O disco abre com ‘Parece cocaína mas é só tristeza, talvez tua cidade. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão. E o descompasso e o desperdício herdeiros são agora da virtude que perdemos’. Eu fui chamado de Olavo Bilac do rock. Mas de repente tocou no rádio e todo mundo se identificou. E a gente virou uma banda pop!’”


“(...) ‘[Nosso processo de criação] é um processo lento. Enquanto bolamos as músicas, já começamos a pensar no que dizer na letra. Essa música tem cara de quê? A música começa na bateria e no baixo, e começamos a tentar encaixar palavras que combinem com a música.’ Mas quando as faixas instrumentais ficaram prontas, Renato Russo era, por vezes, vítima de ataques de paúra: ‘Quando as músicas começaram a ficar completas, entrei em pânico. Eu realmente não sabia o que falar. Não dava para reclamar da vida porque tínhamos acabado de fechar um contrato milionário. A inquietação veio vindo, veio vindo, e a primeira solução foi sentar e analisar nossos problemas. O principal deles era que as músicas estavam muito pesadas, carregadas de uma energia que acabou gerando a incapacidade de continuar ouvindo aquilo. Isso tudo começou a arrastar o trabalho. [...] Quando estávamos fazendo o disco, eu não sabia sobre o que a gente ia falar, porque eu não queria mais falar sobre coisas negativas. [...] Mas gradualmente conseguimos ter a disciplina necessária para que essa inquietação pudesse se transformar em letras.’”


“Há quem diga que o clipe de ‘Há tempos’ é tão clássico na carreira audiovisual da banda quanto o vídeo de ‘Tempo perdido’ ou de ‘Perfeição’. Durante a maior parte do filme, a câmera está em Renato, sozinho em casa com seu violão. Sua estante de livros e de filmes em VHS aparece repetidamente. Em destaque estão: a biografia de Bob Dylan, a Doutrina de Buda (provavelmente o mesmo exemplar citado no encarte do disco), os filmes Some Like It Hot (ou, em português, Quanto mais quente melhor, obra-prima de Billy Wilder, estrelando Marilyn Monroe e Jack Lemmon) e O mágico de Oz, livros de Ernest Hemingway, Jean Genet, Aldous Huxley, a biografia de Einstein, as biografias de Judy Garland, Bob Marley, Elvis Presley e James Dean, o I Ching, O tarô, de Jung, a Paideia, de Werner Jaeger, os Collected Poems, de Allen Ginsberg, as Fábulas, de La Fontaine, Lectures in America, de Gertrude Stein, o VHS de Help! etc. A canção chega na frase ‘já estamos acostumados a não termos mais nem isso’ e Renato mostra para a câmera a carta da justiça dos arcanos maiores do tarô (a carta da morte ele já havia mostrado no início do vídeo). Daí vêm os contos reunidos de Sherlock Holmes, a Bíblia em inglês (em edição ilustrada para crianças), a biografia de Gertrude Stein, a biografia de Hitler, a poesia completa de Keats e Os dias lindos, de Carlos Drummond de Andrade, intercalados com imagens de Dado e Bonfá fazendo playback de seus devidos instrumentos. Essa imensa quantidade de referências bibliográficas do primeiro videoclipe de As quatro estações, em comparação às aparições de grandes ícones, mortos precocemente na juventude, no filme de ‘Tempo perdido’, reflete o salto conteudístico entre os dois álbuns.”


“(...) um belo dia Renato chega aos estúdios de Botafogo com a letra da canção mais efetivamente pop do disco, ‘Meninos e meninas’. ‘Quando eu escutei ele cantando pela primeira vez eu pensei poxa, que letra foda! E, porra, que bom que finalmente ele está se assumindo em público’, diria Dado. Se ‘Feedback Song’ fala da morte, da tragédia do fim de um amor ocasionado em última instância pela falta do lugar do pleno exercício da homoafetividade na sociedade, ‘Meninos e meninas’ fala da descoberta da sexo, das dúvidas entre o que seria o certo e o errado, e serviu como remédio para aqueles que, quando escutaram ‘acho que gosto de meninos e meninas’ pela primeira vez, se sentiram finalmente representados. Em contraposição a ‘Há tempos’ e ‘Eu era um lobisomem juvenil’, não há nada de obscuro nos versos da música: ‘São tudo pequenas coisas / E tudo deve passar.’ Mesmo com a ambiguidade culpa/flerte em relação aos nomes de santos/cidades no refrão da canção e de mais uma história de amor mal resolvida que surge na terceira estrofe da letra, ‘Meninos e meninas’ é ao mesmo tempo a canção mais animada (não há nenhum acorde menor ao longo dos seus 3 minutos e 23 segundos) e o maior alento do disco que começou com ‘Há tempos’. ‘É a primeira vez que falo claramente que gosto de meninos e meninas. Também não sei o que vai dar, porque eu começo a falar de santo no meio da música e acho que vai embolar tudo!’, afirmaria o cantor.”


“Renato tem 33 anos. Está sentado na cabeceira do sofá-cama aberto na sua sala, com as pernas esticadas, fumando mais um cigarro que ele acaba de sacar do maço. Veste uma camisa estampada predominantemente roxa, de mangas compridas — talvez um número maior do que o seu, mas de acordo com a moda de 1994. Oito almofadas coloridas apoiam sua cabeça e suas costas. Um abajur de chão de cúpula azul ilumina o lado esquerdo do seu rosto. A calça comprida — da mesma cor bege da parede atrás do sofá-cama — está dobrada na bainha. O cantor está descalço, dando uma falsa impressão de que começou a entrevista muito à vontade. Renato repete o tique de ajeitar o cabelo acima da testa, desenhando um microtopete, tentando esconder as entradas de sua nascente calvície. A barba cheia está curta, mas cuidadosamente aparada abaixo do maxilar. O descobrimento do Brasil já está nas lojas há alguns meses e Renato revisita a trajetória da banda, disco a disco, diante da equipe de tevê que está com ele na sala do seu apartamento na rua Nascimento Silva, em Ipanema. O entrevistador, que não aparece, faz mal as perguntas. Renato não se importa e elabora as respostas com uma crescente calma ao longo da hora e meia de conversa. ‘Todo mundo diz que As quatro estações é um disco maravilhoso, mas agora eu venho com esse discurso chato’, desabafa enquanto cruza as pernas no ar. ‘Todo mundo cismou que é um disco maravilhoso e alegre enquanto o V é um disco depressivo. Mas não é assim. Eu acho que o V oferece até mais saídas do que As quatro estações. Porque em As quatro estações o cara fica lá no ‘cordeiro de deus’, enquanto no V o cara diz que quer ‘um dia de sol no copo d'água’ ou ‘eu vou cuidar de mim, o plano era ficarmos bem’.’”


“Os quatro primeiros discos da Legião Urbana funcionam como pares. Se Que país é este é a afirmação do no future apresentado em Legião Urbana, As quatro estações é a maturação dos apontamentos surgidos no repertório carioca de Dois. O quarto disco, no conceito de Renato, fecha um ciclo de quatro estações distintas. O budismo, muito caro ao discurso do álbum e que também serve ao texto deste livro, afirma no seu tatibitate que, assim como na natureza, os homens passam por quatro diferentes períodos, compatíveis com as estações: formação, existência, declínio e vazio, ou seja, primavera, verão, outono e inverno. Trabalhando com os pares de álbuns da Legião, a ‘formação’ culminaria em ‘declínio’ (representados por Legião Urbana e Que país é este, respectivamente) e a ‘existência’, no ‘vazio’ (Dois e As quatro estações, nessa ordem). O vazio, portanto, representa o esgotamento ‘sincero’ do discurso espiritual da banda, segundo a tese de Hermano Vianna, bem como a ruminação pela ruminação, até a falência dos dentes, do koan barthesiano, e, por fim, o desconforto causado pelo conceito do disco (...) depois da exaustão espiritual de As quatro estações, o grupo lançaria V, naturalmente a antítese conceitual de seu predecessor. As soluções práticas apontadas por Renato nas letras de V, ausentes em As quatro estações são fruto de um dado biográfico da vida do cantor: ‘As canções do V eu fiz totalmente sóbrio e durante um bom período de análise. Acredito que sejam as minhas melhores letras, não por acaso.’ O ambiente rarefeito da lírica religiosa do quarto disco versus a crueza da (auto)análise das letras de V é o conflito mais fértil da trajetória da Legião Urbana. Os dois álbuns são os ápices opostos de uma mesma maturidade musical e poética de Dado, Marcelo e Renato. Na sequência cronológica, O descobrimento do Brasil serve aos ouvidos como conferência dessa maturidade e também como patamar para analisar, com a distância certa, a personalidade dos cinco álbuns anteriores. Já A tempestade e Uma outra estação são o retrato do esgotamento físico de Renato e, ao mesmo tempo — de acordo com as condições possíveis impostas pelo incontornável final da trajetória do grupo —, a última homenagem da banda ao seu próprio legado, que permanecerá na história da música brasileira por tempo indefinido.”


Presentes em “O livro do disco: As Quatro Estações (Legião Urbana)” (Cobogó, 2015), de Mariano Marovatto, páginas 14, 47-48, 12, 55-56, 11, 38-39, 57, 65-66, 71 a 73, 49, 40, 46-47, 63-64, 09-10 e 42-43, respectivamente.

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