Orides Fontela por Dê Almeida
(presente no Rascunho #194)
Os poemas de Orides
Emmanuel Mirdad
É impossível tapar as lacunas. Não tem como ler tudo o que é preciso. É muito conteúdo, clássicos e contemporâneos, nacionais e estrangeiros, e ainda há os amigos, com livros bons e ruins. Não sou de lamentar a falta de tempo; prefiro celebrar as surpresas. Tudo no seu tempo, não dizem assim? Pois em 2016, 08 de junho, ao ler o jornal Rascunho #194 (via resenha “O enigma desvendado”, do poeta Edson), me surpreendo: sou apresentado aos versos da mestra Orides. Como assim eu não a conhecia? Chegou o dia! Edson destaca a revelação do poema “Aforismos”, que me assombra (assim como noutros, os versos são proseados neste capítulo):
“Matar o pássaro eterniza o silêncio. Matar a luz elimina o limite. Matar o amor instaura a liberdade.”
Uau! Quem é Orides? Preciso lê-la, com urgência! À noite, compro o caro “Poesia completa”, organizado pelo poeta e crítico Dolhnikoff. A editora Hedra apresenta: “Orides Fontela (1940-1998) foi uma das mais importantes poetas brasileiras da segunda metade do século XX. Da mesma geração de Paulo Leminski, Hilda Hilst, Roberto Piva e Adélia Prado, sua obra se destaca e se diferencia por um alto rigor unido a uma particular beleza áspera”.
Professora e filósofa paulista da interiorana São João da Boa Vista, filha única de um operário analfabeto, a poeta escreveu os livros “Transposição”, “Helianto”, “Alba” (vencedor do Jabuti em 1983), “Rosácea” e “Teia”. A edição que reúne os cinco não demora a chegar, mas a minha maluquice empurra à leitura um monte de livro ruim & descartável antes. Como assim? Quede a urgência? A sincronia explica: tudo no seu tempo. Eis que chega: na terça, 19 de julho, começo a navegar pela poesia completa da mestra Orides (e divulgá-la no meu blog e nas redes). Na estreia de “Transposição” (1969), em que ela me ensina que “A saída é a volta” e “Quebrar o brinquedo é mais divertido” (e a poeta salta “buscando o além do momento”), o poema “Notícia” me talha:
“Não mais sabemos do barco, mas há sempre um náufrago: um que sobrevive ao barco e a si mesmo para talhar na rocha a solidão.”
Em “Helianto” (1973), o segundo livro de Orides me alerta que “tudo amplia mais o silêncio” e “Da não-espera acontecem as flores” (e a poeta registra que “Um pássaro invocou mudamente o abismo”), donde o poema “Ode” me sacode:
“E enquanto mordemos frutos vivos, declina a tarde. E enquanto fixamos claros signos, flui o silêncio. E enquanto sofremos a hora intensa, lentamente o tempo perde-nos.”
O premiado “Alba” (1983), terceiro de Orides, alumia: “tudo indeterminado e imprevisto cria um amor fluente e sempre vivo” ou “Sem história o ciclo dos dias vive-nos” (e a poeta debocha: “Há um caminho solitário construído a cada passo: não leva a lugar algum”). Peneiro, peneiro, e o poema “Pouso (II)” me cola ao chão:
“Difícil para o pássaro pousar manso em nossa mão — mesmo aberta. Difícil difícil para a livre vida repousar em quietude limpa densa e inda mais difícil — contendo o voo imprevisível — maturar o seu canto no alvo seio de nosso aberto mas opaco silêncio.”
No quarto livro da mestra Orides, “Rosácea” (1986), fiat lux: “Nem tronco ou caule. Nem sequer planta — só a raiz é o fruto”. E alumia mais: “em tudo pulsa e penetra o clamor do indomesticável destino” (e a poeta revisita Drummond: “Ó vida, triste vida! Se eu me chamasse Aparecida/ dava na mesma”). No poema “Errância”, as sínteses:
“Só porque erro, encontro o que não se procura. Só porque erro, invento o labirinto, a busca, a coisa, a causa da procura. Só porque erro, acerto: me construo. Margem de erro: margem de liberdade.”
O quinto livro de Orides só vem ao mundo dez anos depois. No derradeiro “Teia” (1996), de frente a si mesmo, “o espelho aprofunda o enigma”, pois “anulado o espelho: eis o infinito” (e a poeta determina o óbvio: “e a pedra é pedra: não germina. Basta-se.”). Do poema “Mão única”, o fim:
“— é proibido voltar atrás e chorar.”
Deixo para o final deste capítulo o meu maior assombro com a mestra Orides. Um poema curto, duas estrofes, sem título, publicado em “Teia”. Assim como a frase “Ser homem é assumir a realidade”, do mestre Hélio, essa obra-prima da poeta paulista é um lema da minha vida, um dos raros textos que poderia tatuar na minha pele, gritado nas minhas redes sociais (é o marco, como imagem, da minha volta ao Instagram; a 1ª postagem do @emmanuelmirdad, em junho de 2020), um dogma que carrego a orientar as minhas escolhas (ou a perturbar o juízo, impondo a sua lógica, confrontando os meus erros). Orides se eterniza assim:
“Nunca amar o que não vibra, nunca crer no que não canta.”
Creia! Uau! Bravo, poeta! Numa entrevista para o Jô em 1996, ela sentencia: “Quem não tem um bom ouvido para língua, não dá para ser poeta”. Amplio: não dá para ser romancista, também. Graças ao canto e à vibração dos poemas de Orides, pude amar & crer ainda mais na nossa língua, à medida do Kairós, para inventar o labirinto de “oroboro baobá”.
A talhar na liberdade o pássaro da solidão.
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Capítulo presente no meu livro de memórias “O enigma de Mutujikaka — A jornada para escrever um romance”, de 2022.

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