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Quinze passagens do livro de contos Onde morrem os heróis, de Mayrant Gallo



“Eu soube disso, tão logo a vi. Eu soube e compreendi que tínhamos algo que vinha de longe, talvez do princípio de tudo, porque o tudo é uma sucessão de vaivéns infinitos: estamos, vamos e logo voltamos.”


“Chegou em casa e se deitou no sofá. Mal tirou os sapatos, que caíram sobre o tapete, dormiu. E foi assim o primeiro capítulo, se houvesse aqui uma divisão em capítulos. Mas quem dividiu a vida em capítulos foram mais precisamente os escritores. A vida é sonho. Um contínuo rio. A água que se foi não volta e, no entanto, está lá, sempre. Até que tudo se apague, como ele neste momento.”


          “— O senhor não trouxe acompanhante? — a enfermeira perguntou.
          — Não tenho ninguém.
          — Esposa, um amigo, um parente?.. 
          — Ninguém.
          O tom de sua resposta calou a moça, que de pronto empurrou a cadeira de rodas em direção à sala de exames — tão fria!”


“(...) Dulce sabia que não. Mulher sempre sabe. E foi assim que ela se deitou para dormir, contrariada. Antes, porém, colocou as crianças na cama, tomou um banho quente e vestiu a camisola. Deitada, afinal, pensou no marido e em como ele era um cretino, ao mentir para ela e ir deitar com outra. Mais nova, sem dúvida, e sem filhos. Estreita. E pensou que estreita era aquela faixa de quintal onde ela e seus irmãos, mais a filha do vizinho, jogavam futebol quando crianças, a bola a se chocar nas paredes do muro e da casa, um animal solto atrás do qual eles iam como uns malucos. E entre esta lembrança fortuita e a decepção com o marido Dulce adormeceu, sem se dar conta da transição, mal saindo da vida e entrando no pântano.”


“Deus, que mundo estranho! Eu não sabia nada e continuo sem saber, eu não entendia nada e continuo a não entender. Que foi então que lucrei? Quantos algarismos em minha conta existencial acrescentei? Acho que nenhum... nenhum... nenhum...”


“No fluxo, é bom que se diga que era uma escola. E que ela, a escola, já não existe, porque só existiu enquanto eles estavam ali. Não adianta voltar geograficamente, os lugares de épocas passadas só persistem na memória, o mesmo lugar é sempre outro lugar, mas fica nas cabeças como o mesmo de sempre, onde fomos, ou simplesmente fomos felizes.”


“(...) escaras... Viravam-no a esposa ou a filha, às vezes uma das enfermeiras ou mesmo um dos médicos, a cada dia mais esquivos. Meses haviam se passado, e em algumas semanas completaria um ano desde que ele fizera aquela viagem ao estrangeiro e, na volta, ficara assim. Veio o Natal, e esta data nunca fora tão triste para ele e as duas mulheres de sua vida. Lamentou-se de não ter concebido outros filhos, um fieira extensa de rebentos, pois agora não as veria tão únicas e abatidas. Acreditava que famílias grandes superam mais facilmente qualquer drama, a mais terrível tragédia. Mas uma família pequena, três pessoas somente, era uma verdadeira lástima, uma melancolia sem fim.”


“(...) Quase trinta pessoas tinham sucumbido na explosão do restaurante, mas foi o destino fatal deste homem — o único a perecer na segunda explosão — que ficou, de concreto, para a memória e educação da posteridade. Morre uma só pessoa, e deitamos lágrimas; morre uma centena, e cuspimos no chão.”


Mayrant Gallo (foto: Marcelo Frazão)


“Olhou para trás, e foi como se olhasse para o passado. Aqueles olhos... Quando os viu pela primeira vez, face a face? Tentava se lembrar. A sucessão de vaivéns não lhe permitia saber com precisão... Nada é preciso, tudo é ilusão. Quem disse isso? Vá saber! Mundo abarrotado de frases e coisas, de gente e sonhos. De ilusões.”


“(...) Não tinham mais que treze anos e, sempre juntos, viviam traquinando. Até que estudavam, gostavam de estudar, mas o que desejavam mesmo era descortinar o mundo. Era uma época sem computadores nem telefones celulares, sem todo esse aparato que intoxica as cabeças e embota os sentidos; uma época em que as brincadeiras ou eram sugeridas pelos brinquedos ou pela imaginação.”


          “Uma mulher surgiu da rua acima da ladeira que, de viés, conduzia ao restaurante. E foi, talvez, a primeira a perceber que qualquer coisa de estranho estava por acontecer, pois, de súbito, paralisou-se a olhar o céu. O vendedor e o homem chamado Ivan acompanharam-lhe o olhar, mas tudo o que conseguiram avistar foi uma mancha, de cor meio prata, à qual se seguiu um estrondo, não muito longe de onde estavam. O fogo se ergueu, e onde antes havia o restaurante via-se agora uma fogueira, fumaça, destroços, gritos, lamentos e outros sons, se não imperceptíveis, inesperados. Alguém disse que fora uma turbina de avião; outro, que era um disco voador; um terceiro, mais cético e nada fantasioso, murmurou apenas: ‘Bomba’; sem qualquer vestígio de exclamação, como se dissesse bom-dia a um vizinho antipático.
          Ao longe, cinco minutos depois, talvez menos ou mais, gemeu a sirene dos bombeiros ou da polícia. O fogo aumentara, e algumas pessoas, bem poucas, iam deixando o estabelecimento, as roupas chamuscadas, um e outro filete de sangue a marcar-lhes as faces, o pescoço, os braços. Ouviam-se choros quase infantis em meio ao fritar que fogo proporcionava.”


“As luzes dos veículos contrários passavam por eles e, ao longe, na noite extensa e profunda, uma ou outra luz surgia, como um simples reflexo. No céu, meio branco, ainda assim avistavam-se alguns astros e estrelas — Júpiter especialmente, aceso de perplexidade.”


          “O menino também chegou, mais tarde, ao lugar do comício e ficou olhando o sujeito que falava à multidão, do alto de um palanque, todo avidez e empáfia, voz macia de pedinte, terno e gravata, lábios cínicos, olhos neuróticos, o cabelo que a todo momento caía-lhe na testa...
          E o menino soube que ele mentia. A evidência estava talvez nos gestos.
          Ou em como o homem sorria.
          Ou em como olhava as pessoas, de esguelha, numa encenação circense.
          Em como trocava de cara — ou de máscara — sem que ninguém se desse conta.
          E a multidão, hipnotizada, aplaudia. Com entusiasmo. Histérica.”


          “— Ouça — a garota disse.
          Estavam no sofá, deitados cada um para um lado, um livro nas mãos. A noite subia. O ar da sala se vestia de uma tonalidade gris, a cada instante mais densa e escura.
          — O quê? — Mário perguntou. As últimas horas, como os anos para algumas pessoas, deixaram-no impaciente, ansioso por um desfecho qualquer, imediato.
          — O silêncio.
          — O silêncio?...
          — É.
          Ele atentou. E disse:
          — É verdade...
          Depois se levantou, atravessou a sala, abriu a porta, saiu no corredor, olhou as escadas. Gostaria de olhar dentro de cada apartamento. E de cada cômodo, cada armário. Achar o lugar onde a humanidade se escondia e por quê.”


“(...) que se iniciasse, ali, naquele semáforo além do qual chegariam à escola, outra etapa em sua aventura rumo à plenitude da existência — como rezava o livro de Educação Moral e Cívica —, uma etapa da qual se lembrassem até mesmo no último instante de luz, o olhar vago a divisar a troca inevitável de mundos.”


Presentes no livro de contos “Onde morrem os heróis” (Villa Olívia, 2024), de Mayrant Gallo, páginas 09, 13, 29, 41, 11, 09, 35, 39, 12-13, 55, 38, 25, 47, 21 e 61, respectivamente.

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