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Quinze passagens do livro de contos O cavalo do bandido sempre sai na frente, de Rodrigo Melo



“Lavar louça me faz evoluir. Há quem pratique ioga, quem vá ao culto, outros precisam mentir, roubar e até matar. Eu lavo louça. A água escorre suavemente pelo ralo da pia e leva, junto com os caroços de arroz e feijão, todas as minhas decepções. A travessa fica limpa, a gente também.”


          “Dia desses, um camarada perguntou dos meus projetos futuros. Assim mesmo:
          — Me fale dos seus projetos futuros ou em andamento.
          Perguntei qual o objetivo e ele disse que simplesmente gostaria de saber.
          Não perdi a oportunidade e passei meia hora mentindo. Eu estava iluminado. Tirei coisas de dentro de mim que nem sabia que existiam. Coisas belas e grandiosas, dessas que marcam de verdade.
          Você precisava ver a tristeza em que ele ficou.”


          “Meu pai era cismado com Ivan Pedro, apresentador de programa de futebol nos anos 1980. Ivan aparecia na TV e meu pai, com os olhos semicerrados, falava pra mim:
          — Tá vendo esse sorrisinho aí? Em casa é outra história.”


“(...) Eu era apenas um sujeito em busca de entendimento e libertação, sem saber se estava no caminho certo. Talvez bastasse continuar. Talvez bastasse, vez ou outra, peitar a fera dentro de nós, com uma certa indiferença e altivez. Talvez bastasse imaginar que uma hora tudo ficaria bem. E assim eu segui: a calcular que a cada esquina que cruzava, ia me transformando um pouco: num homem mais evoluído, num homem mais perto da verdade, num homem mais sincero consigo e mais perto de tudo o que realmente precisava viver. E imaginar aquilo me fez um enorme bem. E eu então comecei a sorrir.” 


          “— O que é isso, Fófis? — ela perguntou, segurando uma vasilha com pipocas.
          — É a vida.
          — Não seria a morte?
          — Às vezes as duas se misturam e viram um troço só.
          Jogou um punhado de pipocas na boca e ficou a mastigar.
          — O que ele fez para ser morto?
          — Era mexicano.
          — Só isso?
          — Só... O nome desse ator com a arma na mão é Randolph Scott. Meu pai gostava dele.
          — Bonitão.
          — Dizem que era gay. Mantinha um caso com outro famoso.
          — Quem?
          — Não lembro o nome.
          — Fófis, não acho que esse homem seja gay. Colocaria a mão no fogo por ele.
          — Ele já morreu, querida, e é bem possível que o outro cara também. Escuta, não quero ser chato, mas não gostei desse apelido.
          — Fófis?”


“(...) existir é um correr de água e tudo é caminho para algum lugar.”


          “— Tem contato com ela?
          — Praticamente nenhum. A última vez que nos vimos foi há dois anos. Ela estava no hospital, tratando de um tumor. Fiquei lá, sentado à sua frente por quase uma hora, mas ela fingiu não me reconhecer.
          — Que triste.
          — Eu gostei. Era como se estivesse com raiva por eu me encontrar numa situação melhor. Na hora, me veio na cabeça uma frase que escutava quando criança.
          — Qual?
          — O cavalo do bandido sempre sai na frente.
          — Boa frase.”


          “Além de despachar as cervejas, o velhote colocava discos pra tocar. Naquele instante, em duas velhas caixas de som penduradas na parede, Silvano Sales se esgoelava a rimar castigo com abrigo. Eu conhecia aquela música e, como havia bebido alguns copos, cantei o refrão.
          — Ih, tá apaixonado — Daiane falou.
          — Parece?
          — Muito.
          — Daiane, você é uma garota esperta, que deve conhecer os segredos da vida, mas errou nisso. O que acontece comigo na realidade é algo bem diferente de paixão.
          — Tá desiludido — Marisa disse.
          — Também não. O que tá rolando, como os gringos dizem, é um negócio chamado wake up cool ever.
          — Que porcaria é isso?
          — É como se, de repente, num susto, eu tivesse começado a entender o que é que vim fazer aqui.
          — E o que você veio fazer aqui? — Marisa quis saber.
          — Ainda não descobri.
          — Me conta, quando souber.
          — Pode deixar.”


Rodrigo Melo


          “— Sempre evitei livros assim, entende?
          — Acho que sim. O grande lance dos livros de autoajuda é que você só precisa ler um. Quase todas as mensagens dão no mesmo lugar.
          — E qual seria essa mensagem?
          — Que o ser humano de um modo geral é um canalha e que cada um tem que se virar por conta própria.
          — Não sei se concordo.
          — Tudo bem.
          — Se tudo tem realmente o mesmo significado, então por que esses livros vendem tanto?
          — Os títulos são bons. A pessoa passa, vê o livro exposto e, quando desperta, já está com uma sacolinha nas mãos.”


“Em vez de descer, peguei uma cerveja na geladeira e dei grandes goles, sentado no banquinho ao lado do fogão. Por um instante, fechei os olhos e tentei me imaginar longe dali: talvez a caminhar pelo Malecón ou a nadar numa piscina aquecida em Salt Lake City, comendo profiteroles numa sacada de frente para o mar em Copacabana. Por algum motivo, as imagens me fugiam. Através do basculante na cozinha, vi o reflexo das luzes lá fora: as luzes de Ilhéus, no sul da Bahia, a cidade em que eu morava. Àquela hora, em algum outro lugar, a vida acontecia de verdade, chamando todos para participar da sua dança especial. A vida sempre estava chamando alguém pra dançar em algum outro lugar.”


          “— Que tal uma cerveja?
          Devia ter uns trinta e poucos anos, cabelos alisados e pintados num tom acaju, a alça do vestido caindo até o meio do braço. Seu rosto era bonito, mas desgastado. Estava em uma das mesas de um bar que, na fachada tinha escrito ‘Supermercado lguatemi’.
          — Estou resolvendo umas coisas.
          — Resolve depois.
          — Não posso.
          — Tá com medo?
          — De quê?
          — De mim.
          — Ainda não deu tempo.
          Ela sorriu. Não tinha um canino e um pré-molar
          — Gostei de você. Vou ficar aqui, te esperando. A vida foi feita pra se viver.”


“Comprei uma carteira de Broadway, uma caixa de fósforos, entrei no fusca e voltei. Tornei a me sentar no banco ao lado da garagem, a calcular se devia ou não fumar. Uma velha e barulhenta caminhonete passou na estrada. Era um pau de arara, abarrotado de gente, outro entre tantos que circulavam naquele trecho todos os dias. Mais tarde, retornaria fazendo ainda mais barulho, veloz como se estivesse em uma corrida, a soltar fumaça e a deixar seu rastro de poeira no ar. Por um instante, enxerguei um encanto naquilo: levar as pessoas até seus lares no fundo de uma velha F100: eu, um sujeito leve e sorridente, ajudando uma porção de gente a descer da carroceria ou aconselhando Pão com Ovo a não gastar o seu dinheiro em vão.”


“(...) sentado na poltrona entre as duas camas, fiquei a calcular quem afinal seria ele. Um bicheiro ou assassino de aluguel aposentado, um proprietário de lanchonete, um mascate? Ninguém aparecia para visitá-lo. Talvez tenha vindo de outro lugar, alguém que deixou tudo para trás em busca da grande vitória. As rodoviárias, as agências de empregos e as marquises estavam cheias de gente assim.”


          “Urucutuques é um remanso. Não há turistas com camisas floridas e protetores solares, tampouco hipsters com tatuagens coloridas e barbas bem cultivadas, muita menos DJs ou headbangers. Acho que nunca vi um policial fardado, em patrulha. Na verdade, lembro de um que frequentava a praça principal, mas ele não usava arma ou colete e sua ronda se limitava a uma partida após a outra de dominó.
          Era como se a cidade tivesse estacado em algum dia da década de 1970 e uma parte de sua alma continuasse lá, preservada em um tipo de inocência que não serve para muita coisa, a não ser que o sujeito tenha desistido ou se esquive de grandes emoções. E era justamente desse jeito que eu andava, um bocado esquivo, e continuaria assim ad infinitum, não fosse uma inesperada ventura que me veio através do que lá fora chamam de wake up cool ever — acho que é isso —, que significa, basicamente, uma chamada de consciência absoluta. Um dia, de frente para o espelho, do nada dei de procurar o indivíduo que achava que era. Meia hora ali, em uma extenuante busca. Não o encontrei. Em seu lugar, um quase estranho”


“Eu devia ter uns dezessete anos e descia a Ladeira do Outeiro com uma bicicleta sem freio. O truque era colocar o chinelo na roda dianteira, entre os garfos, para controlar a velocidade da descida. Naquele dia, porém, o chinelo ficou preso entre os garfos, a roda travou e eu de repente me encontrei voando, totalmente solto no ar. Quem conhece a Ladeira do Outeiro deve imaginar como a minha cara ficou — é uma ladeira assustadora: íngreme, longa e com uma curva que dá para o telhado de Eternit do Búzios Bar. E eu ali, finalmente pagando o preço por confiar em gambiarras mal ajambradas e no espírito romântico que alguns sujeitos de dezessete anos alimentam. O chinelo como alavanca para me sentir um ser especial. E, enfim, pensei: dessa vez me acabo e queira Deus consigam me reconhecer.”


Presentes no livro “O cavalo do bandido sempre sai na frente” (P55, 2026), de Rodrigo Melo, páginas 37, 43, 18, 36, 34, 29, 20-21, 12-13, 38, 35, 10, 28, 31, 09 e 22, respectivamente.

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