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Ângelo Sobral desce aos infernos, de Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho
Foto: Divulgação | Arte: Mirdad


"A sorte, meu amigo, é como a desgraça: só acontece aos outros"


"Diante do sofrimento alheio, fico tão abalado que não posso reagir sequer para mostrar-me de alguma forma solidário. Já li em mais de um rosto o julgamento cruel: insensível. Mas não, é o contrário: sofro tanto ao testemunhar sofrimento que fico literalmente prostrado. Mas uma na minha longa lista de fraquezas"


"Que diálogo – de verdade – pode existir entre meu genro e eu? É um bom rapaz, ótimo marido, porém são virtudes para minha filha, não para mim"


"A única certeza é esta: Helena está morta. Morreu ao meu lado e eu nem o percebi. Passou do sono ao nada sem que a travessia dessa extrema – a mais extrema – fronteira me fizesse abrir os olhos. E se os abrisse não seria mais do que a testemunha impotente. E uma testemunha que talvez nada testemunhasse de fato, de essencial, nada além do aparente. Se é que houve mesmo algo de aparência nessa passagem. Na verdade, morta, Helena parecia viva. Tanto que a sacudi várias vezes antes de reconhecer que não mais conseguiria despertá-la"


"O enterro, na tarde do dia seguinte, sepultou em mim boa parte de Deus. Sepultamento que já começara com a morte de tia Joana e se repetiria, multiplicando-se ao longo da vida, pedaços e pedaços de Deus se desprendendo e afundando num chão de indiferença, já em estado de decomposição. Da última viagem de meu avô, ficou-me uma imagem que de quando em quando me procura: um carro mortuário imenso, sinistro, trepidando no calçamento irregular, de pedras escuras e gastas, um carro de pesadelos com cortinas negras, negras"


"Nos meus anos mais pretensiosos, que se estenderam até mais ou menos os quarenta, um outro medo: o de deixar a minha obra inacabada. Depois descobri que assim fica toda obra, ao menos para o seu autor. Mesmo que eu viva mil anos não estarei satisfeito o bastante para considerar meu trabalho concluído"


"Servi-me outro uísque, respirei fundo e respondi que não escolhia tema nenhum – eles é que me escolhiam. E que a forma de escrever nasce com cada assunto, ou melhor: é o assunto. Acrescentei que cada autor é um caos único e gera os mundos que ele pode gerar, pois o autor escreve com o que ele é. E só. Não pode escrever como outro"


"Quanto aos meus netos: Paulo vai fazer engenharia e é um tipo de muito bom senso; Mário, porém, parece ter herdado algo do meu sangue mau: é dado a frequentar bibliotecas, livrarias e já soube que escreve poemas e contos (...) Mas ele ainda é muito novo, talvez seja só febre da mocidade. Não dá ainda para saber se tem talento, se nasceu marcado pela fatalidade do artista. Sim, isto: a fatalidade. Porque o artista não se faz por opção: ele é o que é por sua condição. Que, para muitos, é, na verdade, uma maldição"


"Sempre acompanho o que os novos escrevem, para não correr o risco de ser morto à traição"


"Você sabe quando comecei a desabar? Ao perceber que meu ser físico e cronológico já não podia corresponder a certas esperanças: "Um dia farei isso; um dia serei aquilo": houve época em que estas palavras soavam em mim com absoluta confiança (...) Aos dezoito, vinte anos, prometi a mim mesmo: serei um grande escritor aos quarenta. Hoje, porém, que prazo posso conceder-me para realizar algo maior do que já fiz? O espaço se reduz, as possibilidades se desfazem, as perspectivas se fecham, os sonhos (o que resta deles) mal conseguem respirar"



Trechos presentes no livro "Ângelo Sobral desce aos infernos" (Giostri Editora, 2014), de Ruy Espinheira Filho.

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