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Dez passagens de Ângela Vilma no livro de crônicas Histórias de gente miúda


“O que acontece com as pessoas que não morreram ainda, mas desapareceram nesse grande abismo em suspensão que é o mundo?”


“(...) quando teve hepatite, aos seis anos de idade, iriam levá-la às pressas para Salvador. A irmã chegou na porta do quarto, magrinha como sempre, com seu maior bem nas mãos: um pequeno copo de alumínio com seu nome gravado. De lá da porta falou: Toma, Fi, pode ficar com meu copo. Desde esse dia, em momentos difíceis, o copo transita.”


 “(...) Quem não ficou marcado, nas Lavras Diamantinas, por essa bela mulher negra, grandona, poderosa, bonita, inteligentíssima, que mandava e desmandava em todos nós? (...) Foi ela, Maju Guimarães, a mulher mais corajosa que conheci, quem desacatou o prefeito e foi presa! (...) Professora e diretora do Colégio Municipal de Andaraí, andava para lá e para cá no seu ambiente de trabalho, descalça e lascando uma caneta nos dentes. Essa mulher sabia tudo de literatura, das artes, das danças. Rezava para as almas, dançava jarê no chalé de Zé Sebastiana e mandava em nós, seus alunos, seus queridos alunos. Um dia me ordenou ir atrás de uma pena de galinha para que ela pudesse coçar seus ouvidos. Saí correndo atrás de uma galinha, no fundo do colégio, que nem uma barata tonta.”


“(...) eu assustada, você serelepe (você que sempre adorou tirar retrato), nossas semelhanças e diferenças eternizadas. E uma coisa, a fundamental: a configuração de um tempo que se congelou na fotografia. (...) O mais poético desse momento foi o gesto de mãe: aprontar o cenário, chamar o retratista, e nos colocar ali — a fim de que nossa infância jamais acabasse.”


“Raimundinho foi criado no dengo, ficou gordo de tanto comer doce, e quando cresceu deu pra ruim, o que não poderia ser diferente. Ele, morador daquela casa, se achava dono e brigava com os primos visitantes. A avó dava razão a todas as suas malcriações, o avô ria diante de suas diabruras. E foi com seus onze pra doze anos que o capetinha fez sua primeira patifaria: vendeu, de má-fé, para o tio uma bicicleta quebrada. Daí em diante começou a tomar gosto, e num belo dia fugiu para São Paulo. De lá não mandou nem duas linhas escritas para a avó, quanto mais um sabonete. E ela sempre defendendo-o, com força e pureza: Coitado, não tem tempo, trabalhando... Trabalhando?”


“Saudades de Andréia, que já trazia, bem antes de ir embora, o olhar de quem descobre o mistério.”


“Ele tirou uma foto minha e não era eu. Foi entregar e eu não queria aceitar, pois que aquela menina horrorosa, com cabelo horrível, não era eu. Ele, nervoso, falou cantando aquela barbaridade nunca esquecida por mim: que ele não tinha culpa de eu ter o cabelo que a barata roeu.”


“O primeiro amigo secreto. Eu tinha sete anos, e foi somente com as crianças da rua da Ilha, nossa rua. (...) Lembro-me de que tirei André e de que lhe dei uma peteca. Quem me tirou foi Cosme e ele me deu um sabonete Gessy. Meu descontentamento foi notório. Chorei, dei chilique, joguei o sabonete lá para o canto e escondi o rosto no colo de mãe, chorando como uma condenada.”


“Ele era um rapaz vistoso, não bonito, mas quase sendo: ficou na fronteira entre ser bonito e não ser; aí restaram uns traços belos e outros nem tanto. Porém, ele sempre se achou bonito: sorrisão aberto vendo todos os dentes, até os quatro sisos, sempre bem trajado, com um nível de paquera razoável na cidade. Nunca o achei bonito, só meio atormentado, o que dava ao seu rosto uns traços de Rimbaud tipicamente baiano, ao ponto de o tormento visível — em sua cara — o deixar engraçado. Isso: não era uma cara bonita, era uma cara engraçada.”


“Na apresentação que fez, com os colegas de sua equipe, sobre a poesia de Francis Ponge, coube-lhe o pão. Trouxeram uma cesta enorme, cheia de pães, e mostraram para a turma os alpes, as montanhas, habitantes da visão panorâmica daquela coisa que comemos todos os dias sem olhar. Tal qual Ponge, Gilberto tomou o partido do pão como o mais sensível e competente dos advogados. E contou, na segunda parte da aula, morrendo de rir, o quanto foi interessante sua pesquisa. Primeiro porque teve a ideia de ir perguntar a um amigo seu, padeiro de muitos anos, como era a experiência de fazer pão. E que o amigo lhe disse que não sabia responder isso, pois nesses anos todos nunca tinha prestado atenção em tais coisas. Nessa hora a risada de Gilberto foi mais ampla, plena, como o aluno que aprendeu — com o mais profundo de sua sensibilidade — tudo sobre a vida.”



Presentes no livro de crônicas “Histórias de gente miúda” (Mondrongo, 2023), de Ângela Vilma, páginas 65, 37, 47, 33, 31-32, 48, 35, 36, 69 e 62-63, respectivamente.

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