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Cavalo selvagem, de Eliakin Rufino

Eliakin Rufino
Foto: Divulgação | Arte: Mirdad


"toda carta
de amor
é película"


"nosso destino é ser índio
embora todos digam
que nós não somos mais índios
eles pensam que nos educaram
eles acham que nos civilizaram
mas é o contrário

eles nos ensinaram com suas atitudes
que se nós não existíssemos
jamais eles teriam exercitado tanto
seu desejo de matar"


"porque da arte de cantar fiz meu ofício
e me despi das ambições cotidianas
fui posto à parte
na escuridão da margem
(...)
porque marchei de pé esquerdo
no pelotão dos destros
denunciei a farsa dos fiéis
e a falsidade dos honestos
fui posto à parte
na escuridão da margem
porque povoei de canto
a tecnológica mudez da paisagem"


"de tanto puxarem meu tapete
aprendi a pilotar
tapetes voadores"


"a certeza da morte não assusta
o que virá depois não me faz medo
quero a vida na medida justa
do tamanho do mistério e do segredo
(...)
a certeza de saber que morrerei
faz a minha vida mais feliz"


"O que é perfeito está morto
Eu quero o falho
O feio
O torto

Quero os pecados da alma
E as imperfeições
Do corpo

Se a pressa
É inimiga da perfeição
É amiga da mudança"


"escasseia a caça
índios morrem
a estrada passa"


"mostrou o livro pro índio e disse:
eu sou o emissário
o enviado divino

é neste livro que está
teu plano de salvação
a porta do céu é estreita
mas para o inferno há muitas portas

o índio após meditar
disse por fim sabiamente:
aqui não cremos no inferno
e nosso céu não tem portas
essas letrinhas miúdas
pra nós são formigas mortas"


"minha vó me chamou
curumim venha cá
(...)
não vá esquecer
essa tribo é um rio
o destino é correr

curumim essa terra
nunca nos pertenceu
não é de ninguém
não tem dono nem deus"


"embora polua
a chaminé
tem o seu encanto"


"se não fosse esse mosquito
a floresta virava palha
(...)
o maior ecologista da amazônia
é o mosquito da malária"


"Depois de percorrer o mapa-múndi
Depois de viver os anos do desbunde
Depois do amor livre e da política das rosas
Depois das vertigens e das rebordosas

Mel agora só se for de abelha
Amor agora só se der prazer
Cobertor só se for de orelha
Pó – só mesmo o pode crer"


"repouso no travesseiro
a cabeça erguida
pelos projetos da vida"


"não aprendi a prudência
que a fábula ensinava
não queria ser formiga
eu queria ser cigarra"



Trechos presentes no livro de poemas "Cavalo selvagem" (Valer, 2011), de Eliakin Rufino.

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