Pular para o conteúdo principal

15 anos do primeiro ensaio com banda em estúdio

Emmanuel Mirdad em cima do prédio onde
morava no Parque Júlio César em 1999,
com a guitarra Lílian

Ontem, quinze anos atrás, entrei em um estúdio para ensaiar com banda completa pela primeira vez. Era um sábado, 7 de agosto de 1999. Acordei bem cedo, comi o meu cuscuz e desci rumo ao Nel Center, que ficava na pracinha do obelisco duvidoso, no coração do Parque Júlio César. Fiquei esperando Ednei aparecer para abrir o estúdio. Sete e quarenta da matina, chegou o primeiro músico, que estacionou o Gol e se apresentou como Beef (o apelido da época do guitarrista e compositor Juracy do Amor). Tinha sido indicado como um bom músico pelo amigo Erivaldo Dantas.

Nunca nos vimos antes. A identificação surgiu pelo horário e local marcado. Ele estranhou aquele rapaz alto, com cara de guri, de sandália, bermuda e um óculos de nerd extreme. Ficou apreensivo se o pessoal iria ensaiar mesmo naquele horário surreal, das 8h às 10h de um sábado. Poser e marrento, Beef deu uma olhada no caderno com as minhas músicas e comentou que as letras eram diferentes do padrão do mercado e que por isso eram legais – dito num comentário seco, sem nenhuma finalidade de aproximação.

Juracy do Amor em 2011
Foto: Maira Lins/Comunika Press

O baterista Rafael Fraga chegou num Uno. Também não conhecia ninguém e se apresentou capotando de sono – foi indicado por Luís Buba, um brother da malhação. Silêncio estranho, de gente esquisita. Eu, fã de Legião Urbana, batizei a guiga com o horrível nome de Pássaros Urbanos. E não era propriamente uma guiga: para mim, era uma banda, com todo mundo investindo para tocar as minhas músicas. Ingênuo.

O baixista Itã Teodoro foi o último a chegar, num esforço de acordar muito cedo e ter de pegar dois ônibus. Era o único que eu já conhecia pessoalmente e que aguardava a montagem da banda após diversas tentativas frustradas. Será que agora ia rolar?

Só que Ednei, o dono do estúdio, demorou para aparecer. Longos minutos de um silêncio horroroso. Ninguém se conhecia, tirando eu e o baixista, mas como ele estava caladão, o clima ficou angustiante. Ninguém conversava nada sobre nenhum assunto. Que diabos de afinidade poderia surgir dali? Como é que aqueles três caras embarcaram num esquema bizarro de ensaiar músicas desconhecidas, com músicos que nunca haviam visto ou ouvido falar, em pleno sábado de manhã bem cedo? Fiquei com medo de alguém desistir. Ednei chegou, com aquela conversinha de sempre.

Rafael Fraga em 2012
Foto: Lorena Vinturini

Dentro do estúdio, todos a postos, apresentei as músicas. Beef tomou iniciativa, assumiu a direção musical e coordenou a criação dos arranjos, optando por ensaiar apenas duas músicas (o que foi uma frustração grande para a minha agonia de querer ensaiar tudo e deixar o repertório tinindo para gravar e fazer show).

Investimos em "A Prova Enferma" uma hora e meia com a criação, concepção e execução final do que seria a sua primeira versão, e "A Seta" ficou pronta na meia hora restante. Eu? Eufórico na veia, lóki de felicidade, cantando, finalmente, numa banda completa, em estúdio – devo ter desafinado um absurdo, dublê de cantor como sempre fui. Era um sonho de três anos se concretizando, caralho!

Terminado o ensaio, nos reunirmos para acertos. Beef tomou a palavra, esclarecendo que não podia perder tempo com qualquer coisinha; tinha que entrar dinheiro logo. Propus, então, para sermos mais comerciais, focar no mercado, ensaiar para gravar um disco e fazer shows. Itã e Rafael concordaram e nos despedimos com o planejamento de ensaios de cordas antes de voltarmos ao estúdio.

Itã Teodoro em 2011
Foto: Internet

Foi a primeira e única vez do Pássaros Urbanos. Rafael e Itã desistiram logo depois, coloquei Beef na geladeira por um tempo até ressurgir com uma nova proposta de duo, o Pássaros de Libra, que ele topou e acabou gravando a voz e guitarras num demo, "O Primeiro Equilíbrio", com André Magalhães nos arranjos MIDI – finalizado em 2000. Nesse demo, "A Prova Enferma" e "A Seta" foram gravadas (a última pode ser ouvida aqui). O duo acabou logo depois, e em agosto de 2000, comecei um novo projeto, o poema laranja.

Desse sábado, 07 de agosto de 1999, restou-me a sensação espetacular que é materializar um desejo. E o final de semana deste sábado há 15 anos continuou leve, bobo, feliz. Agora que havia provado, queria mais, muito mais. E, nos anos a seguir, foram mais de cem ensaios com a minha banda definitiva The Orange Poem, entre 2001 e 2007.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Seleta: Lisa Hannigan

Lisa Hannigan (foto daqui ) Conheci a cantora e compositora irlandesa Lisa Hannigan graças ao emocionante filme “ Maudie ” (2016), da diretora irlandesa Aisling Walsh (baseado na história da artista canadense Maud Lewis ). A música dos créditos finais é “ Little Bird ”, e a suavidade, timbre, afinação e interpretação tátil da bela voz de Lisa Hannigan me fisgou na hora! Contemplei três dos seus álbuns, “ At Swim ” (2016), “ Passenger ” (2011) e “ Sea Sew ” (2008), e fiz uma seleta com 20 canções que mais gostei. Confira o belo trabalho da irlandesa Lisa Hannigan ! Ouça no YouTube  aqui Ouça no Spotify aqui 1) Tender [At Swim, 2016] 2) Funeral Suit  [At Swim, 2016] 3) Home [Passenger, 2011] 4) Little Bird [Passenger, 2011] 5) Paper House [Passenger, 2011] 6) An Ocean and a Rock [Sea Sew, 2008] 7) Prayer for the Dying [At Swim, 2016] 8) Nowhere to Go [Passenger, 2011] 9) Anahorish [At Swim, 2016] 10) We, the Drowned [At Swim, 2016] 11) Splishy Splashy [Sea Sew, 2008] 12) T

Leituras 2020

Os 10 livros lidos em 2020 Li 10 livros em 2020 , com destaque para a poesia, e selecionei trechos das obras de Alex Simões , Lúcio Autran , Wesley Correia , Mariana Botelho , Nina Rizzi , Érica Azevedo , Ana Valéria Fink e Cyro de Mattos , e trechos dos romances de Franklin Carvalho e Victor Mascarenhas . Além dos livros, elaborei uma seleção de poemas de Zecalu [publicados nas redes sociais em 2019], outra seleta de trechos de crônicas de Santiago Fontoura [publicadas no Facebook], e uma seleção de poemas de Martha Galrão . Por fim, reli a autobiografia de Rita Lee e divulguei trechos também. Boa leitura! “Contrassonetos catados & via vândala” (Mondrongo, 2015) Alex Simões Leia trechos  aqui “soda cáustica soda” (Patuá, 2019) Lúcio Autran Leia trechos  aqui “laboratório de incertezas” (Malê, 2020) Wesley Correia Leia trechos  aqui “o silêncio tange o sino” (Ateliê Editorial, 2010) Mariana Botelho Leia trechos  aqui   “A ordem interior do mundo” (7Letras, 2020) Franklin Carv

Seleta: Flávio José

Flávio José (foto: divulgação ) O artista de forró que mais gosto é o cantor, sanfoneiro e compositor Flávio José . Para mim, ele é a Voz do Nordeste . Um timbre único, raro, fantástico. Ouvir o canto desse Assum Preto-Rei é sentir o cheiro da caatinga, arrastar os pés no chão de barro ao pé da serra, embalar o coração juntinho com a parceira que amo, deslizar os passos como se no paraíso estivesse, saborear a mistura de amendoim com bolo de milho, purificar o sorriso como Dominguinhos ensinou, banhar-se com as rezas das senhoras sábias, prestar atenção aos causos, lendas e histórias do povo que construiu e orgulha o Brasil . Celebrar a pátria nordestina é escutar o mestre Flávio José ! Natural da sertaneja Monteiro , na Paraíba , em 2021 vai completar 70 anos (no primeiro dia de setembro), com mais de 30 discos lançados e vários sucessos emplacados na memória afetiva do povo brasileiro (fez a alegria e o estouro da carreira de muitos compositores, que tiveram a sorte de serem grav