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Bonecas (O grito do mar na noite, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Bonecas Emmanuel Mirdad           Começo da noite, a academia está cheia.           — Rapaz, ontem eu peguei quatro!           — É lascador, esse menino!           Um grupo de homens sarados, alguns bem jovens, reveza o uso de um aparelho puxador para exercícios diversos, a compartilhar os seus músculos ao espelho comum.           — Você tá grande, hein, pai?           Uns fazem tríceps, outros, remada em pé, poucos, na barra comum, difícil de fazer. Eu sou o que mais faço; lembranças da época no quartel.           — Tá ligado a Bruninha? Passei a pica! Putinha, putinha...           — Man, vai rolar o ensaio na segunda, vamo dêcê? Só tá rolano as gata, Serjão deu as ideia. E vamo cumê água na segunda também!           — Bora!   ...

No palheiro (O grito do mar na noite, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui No palheiro Emmanuel Mirdad           Carnaval de Salvador, Bahia, fevereiro de 2010. Fernando, carioca, está de abadá, dentro do bloco, segmentado pelas cordas, atrás do trio, no asfalto da Avenida Oceânica. Carine, soteropolitana, está de camisa colorida e salto alto dentro de uma estrutura confortável, à frente da grade, rodeada por gente que se proclama “diferenciada”, no alto do camarote. Quando ele a enxerga, desaparece dos amigos e das rodinhas de xibiatagem. Quando ela o vê, já havia sumido do seu companheiro de enfeite e das amigas previsíveis. A ponte é construída no exato instante em que ambos se entreolham em magnetismo não aleatório.           Ele fixa o olhar. Ela desvia e também faz, logo depois. O tempo não para, mas é como se. E o sorriso vem cúmplice, só de boca, sem dentes. Assim, compartilham a longínqua possibilidade de viver um grande amor, embarcar em viagens paradisíacas e aproveitar ...

Assexuada (O grito do mar na noite, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Assexuada Emmanuel Mirdad           “Eu nunca gozei e não me importo.”           A caneta nanquim risca a primeira folha de um caderninho com espiral. Monique se questiona se deve registrar as suas confidências, não quer produzir provas contra si ou arriscar ser descoberta por alguém. Inspira e expira. E recomeça a escrever:           “É possível não se importar? É. Não me importo.”           Outra vez, titubeia da proposta, mas logo se recompõe e continua:           “Hoje o manobrista enterrou os olhos...” *           Tela preta e créditos.           — E aí, curtiu?           — Mais ou menos, achei um Coen menor, “Fargo” ainda é o meu preferido.           — Sério? Também achei, mas prefiro “Onde os fracos não têm vez”. Bom saber que vo...

Aqui se paga (O grito do mar na noite, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Aqui se paga Emmanuel Mirdad           A pequenina tem os cabelos ralados pela quimioterapia, e a cabecinha começa a doer muito na escada rolante de um shopping. Chora, sem alarde, mas, como a babá não pretende despertar a atenção alheia, sofre uma ameaça:           — Se você continuar chorando, te levo ali na farmácia pra tomar injeção. Pare agora! Não chore! Quer tomar injeção?           A dor é tão forte que a pequenina nem consegue gemer, só escorrer lágrimas e contrações no rosto, e a mãozinha esquerda a roçar o cocuruto ralo de fios como numa prece pelo fim do sofrimento. E, ao ouvir a palavra ‘injeção’, o terror dispara a mãozinha a enxugar freneticamente as lágrimas, o que só faz jorrar mais e mais. Dessa vez, a sutileza dá lugar a um tranco, sacudido:           — Você tá teimando, é? Vai agora mesmo tomar injeção! Vai parar ou não?!     ...

Não escaparás (O grito do mar na noite, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Não escaparás Emmanuel Mirdad           Ela acende um baseado e prende os longos cabelos pela última vez; não há ninguém para decifrar os sussurros que sempre escapam. Da sala, ouve o som de uma banda de reggae, mas já está cansada de soldados estadunidenses. Tem coragem e muito cabelo, mas nunca foi rasta por lhe faltar fé.           Termina o baseado de forma lenta, acendendo-o algumas vezes, sempre com aquele movimento sinuoso tão característico. De tacar fogo sabia, desde pequena, a queimar as pontas dos cabelos das outras gurias. E ficava olhando a chama fixamente, a bailar as suas pupilas no inferno paralelo que tanto lhe sugere a salvação.           Ela põe fogo no próprio cabelo. E apaga. Repete. Não se incomoda com o fedor de palha queimada; sobe mais rápido que a prudência e vira imolação. Gira as chamas como uma mula sem cabeça à frente do espelho. Berra a dor que vem de d...

Quase onze dias (O grito do mar na noite, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Quase onze dias Emmanuel Mirdad           30 de setembro. 273 º dia do ano, não bissexto, no calendário gregoriano. Aniversário da cidade de Viçosa, em Minas Gerais. Independência de Botswana, na África. Para os católicos, é dia para celebrar São Jerônimo — morreu nessa data em 420 d. C. —, o padroeiro dos bibliotecários e dos tradutores, e patrono das secretárias, que, graças à data de nascimento da estadunidense Lilian Sholes, primeira mulher a datilografar em público numa máquina com tipologia QWERTY, criada pelo seu pai Christopher Sholes, 30 de setembro é o dia delas no Brasil.           Aurélio Miguel, o judoca, conquistou a sua medalha de ouro, categoria meio-pesado, no dia 30 de setembro, mesma data em que os librianos Chacrinha, Truman Capote, Daniel Filho, Xororó e Monica Bellucci nasceram. No último dia de setembro, a ópera “A Flauta Mágica” (Die Zauberflöte), de Mozart, estreou em Viena, na Áust...