Download no Google Drive aqui
Aqui se paga
Emmanuel Mirdad
A pequenina tem os cabelos ralados pela quimioterapia, e a cabecinha começa a doer muito na escada rolante de um shopping. Chora, sem alarde, mas, como a babá não pretende despertar a atenção alheia, sofre uma ameaça:
— Se você continuar chorando, te levo ali na farmácia pra tomar injeção. Pare agora! Não chore! Quer tomar injeção?
A dor é tão forte que a pequenina nem consegue gemer, só escorrer lágrimas e contrações no rosto, e a mãozinha esquerda a roçar o cocuruto ralo de fios como numa prece pelo fim do sofrimento. E, ao ouvir a palavra ‘injeção’, o terror dispara a mãozinha a enxugar freneticamente as lágrimas, o que só faz jorrar mais e mais. Dessa vez, a sutileza dá lugar a um tranco, sacudido:
— Você tá teimando, é? Vai agora mesmo tomar injeção! Vai parar ou não?!
A última lágrima desce sem que a pequenina enxugue. Ela para de coçar a cabecinha e, desamparadamente, para dentro, balbucia:
— Num ké jéção... Eu ké morrê.
*
Três meses depois, a babá tem uma dor aguda no estômago. Morre de choque anafilático, surpreendida pela anestesia. A pequenina não entende o que aconteceu.
Nem a babá.
*
— Mamã, mamã, pô quê papá do céu num me leva pas’istêla cum Jana?
— De novo essa história, filha?! Já te falei que você vai ficar boa, papai do céu quer assim — e dá um beijo molhado. — Agora vá, adiante, temos que ir ao médico pra você tomar remedinho, meu amor... Pra ficar boa logo, logo, viu?!
— Ké ir não, mamã, eu vô pas’istêla, eu sei.
E a pequenina realmente foi para as estrelas: 92 anos mais tarde, a partir de casa, arrodeada pelos seus filhos, netos e bisnetos.
Um tataraneto, também.
Comentários