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Ela não quis (Olhos abertos no escuro, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Ela não quis
Emmanuel Mirdad

          Manuela intui que Davi não deve ser um crápula. Na quinta e última raia da piscina a céu aberto do clube, ele fica próximo à parede e costuma descansar entre as séries que o professor passa. “Será que Davi fuma?”, ela pensa. Os outros dois homens que nadam na raia dos mais avançados faltaram hoje. Assim como as senhoras da raia em que Manuela se encontra, a terceira, dos intermediários. A chuva pode ser a causa.

          — Não consigo nadar borboleta, cansa muito... — ela puxa conversa.

          — Como?

          Na raia entre os dois, não há ninguém. Às seis horas de uma manhã de inverno chuvosa, apenas quatro alunos treinam na piscina sem aquecimento. No professor, a vontade de dispensá-los e voltar para casa antes que a avenida alague. Manuela passa da terceira raia para a quarta, a fim de ser notada, como se fosse possível alguém estar num mesmo espaço que ela e não notar as suas formas e curvas desenvolvidas de uma mulher precoce, num rosto indeciso entre a candura e a malícia, iluminado por um sorriso redemoinho que captura e naufraga o incauto admirador do seu percurso sublime.

          — Borboleta... Não consigo... Cansa muito... Mas eu acho lindo... — para cada pausa, ela mordisca o polegar.

          — Nova desse jeito? Que nada... Duvido!

          Davi tem uma barba que ela acha elegante, bem aparada, a tonificar o queixo quadrado, marcado por uma pequena dobra ao meio, hipnose máscula que leva Manuela a fremir os ovários aptos e predispostos à estreia.

          — Tipo assim, cansa mesmo...

          — Você tá fazendo direito?

*

          Manuela encontra Davi de terça a quinta, somente na aula de natação, às seis da manhã. Ela entra na piscina e inicia as séries, de crawl e estilo. Ele, afobado para dar um bom dia significante de “estou aqui e te quero”, maquia a cadência e o fôlego do treino para puxar assunto entre os descansos, sem vergonha de expor o interesse, mesmo com uma raia a separá-los. Ela rende as conversas até surgir algum comentário que a faça sorrir ou a surpreenda — Manuela julga Davi um homem preparado, muito melhor do que os moleques que conhece e dá uns beijinhos no colégio ou nas festinhas de aniversário das amigas. A virgindade? Só um homem feito terá o dom para tanto — a senhora de dentro de si exige essa qualificação à sapeca na linha de frente. E Davi parece ser esse homem. Ela passa a desenhar o seu nome no caderno, durante as aulas de Geografia e História, que considera modorrentas. E ele a pensar em Manuela ao prescrever receitas, realizar cirurgias e procedimentos médicos, nos jantares e até durante as transas automáticas da rotina com muitos compromissos assumidos.

          — Depois de quinta, vou sair da natação.

          — Como assim?

          Manuela começa uma nova série de voltas na piscina. Davi acompanha com os olhos a saliência lisa e firme, que se destaca um pouco para fora da água, seguir o seu rumo, impulsionada por braçadas seguras no estilo tradicional, de crawl. É a mais destacada curva da jovem, a que povoa o fetiche nesses últimos dias e quase o impelira a fazer uma besteira na entrada dos banheiros do clube. Ele mergulha à frente e condiciona o ritmo das braçadas para ficar apreciando o corpo de Manuela embaixo d’água, a nadar um pouco atrás, ao seu lado; hoje, encontra-se na terceira raia da piscina, a dos intermediários, mais uma vez com as senhoras ausentes, mesmo sem chuva. O professor estranhou a mudança. Os dois chegam ao outro lado.

          — Hoje, eu serei o seu personal trainer. Quem sabe assim você não se motiva a ficar?

          Manuela sorri, graciosa, e faz da respiração um ímã. Davi segura o seu braço pela primeira vez. Sente os pequenos pelos se arrepiarem, e os elementos do inefável compartilham as informações que creditam ambos ao enlace, ao encaixe, à troca de fluidos e genes. O toque é uma foda. Ela vibra. Ele endurece. Uma mão no antebraço. Um feito para o outro.

          — E aí, bora? — ele precisa seguir, senão vai beijá-la ali mesmo, na frente de todos.

          — Bora!

          Davi nada com a cabeça dentro da água, a olhar para o lado e a catalogar as formas distintas de como despir o maiô preto da jovem. Mas não é só o desejo que inunda os pensamentos do médico. Ao bater na borda ao mesmo tempo em que Manuela, ele revive uma sensação há muito adormecida, que ainda não foi maculada pelo acúmulo de experiências fadadas ao fracasso, traumas e frustrações da vida adulta. Os dois trocam sorrisos e olhares, harmônicos e compactuados, numa mesma vibração de afeto. Se Manuela o amar, vivenciará o primeiro amor, e Davi poderá aplicar o seu melhor na relação, pois já conhece bem qual de si deve ser ao amar, caso esse amor seja justo e merecedor de tanto empenho.

          — O que é que você vai fazer mais tarde?

          Ele julga que é justo e merecedor.

          — Eu?

          Ela não está preparada para o bote, embora o deseje.

          — Tenho uma proposta para você.

          — Bora? — e Manuela parte, sem esperar a resposta, a nadar de peito.

          Davi segue. Na outra ponta, ela se segura na raia, parece cansada.

          — Vou voltar de borboleta, para você...

          Manuela admira as costas largas de Davi, que se levantam da água impulsionadas pelos dois braços a girar num movimento simétrico, como fossem alçar voo, ou saltar de uma prova olímpica, ou atirar um pedregulho. Ela degusta também o tronco que ondula o movimento das pernas como um boto, um ser mítico das águas, um príncipe submarino, viril e sinuoso, como um macho que sente, um bruto que acolhe, um deus que dança. Ela o quer. Ela o deseja. Ela o ama.

          — Minha mãe chegou, tenho que ir. Mas me diz a proposta...

          — Às cinco e meia vou estar na sala de arte. Apareça lá!

          — E qual é o filme que tá passando?

*

          A proposta: não deixar rastro, ou seja, não trocar números e endereços. Nada de fotos, ligações, mensagens, redes sociais, e-mails, nenhum registro. A cada encontro, um dos dois anunciaria o local e horário do próximo. Arriscado, mas excitante. E se algum dos dois faltar a um dos encontros? Como se reencontrariam novamente? No clube? E se ele deixasse a natação também? Vale procurar os dados na secretaria?

          Não. No café em frente ao cinema, sem tê-lo beijado ainda, Manuela estranha a proposta de Davi e o pressiona com uma autoridade que o surpreende; não esperava essa firmeza em uma jovem que é virgem, mas a senhora de dentro se coloca para fora, a forçar:

          — Por que essa complicação toda? Por que eu não posso simplesmente te ligar? Qual é o problema?

          Davi, quando ama, não mente.

          — Eu sou casado.

          Ela não quis.

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