Ingênio
Emmanuel Mirdad
Eu fiz canções que o povo cantou. Muitas ajudaram a tevê a construir o seu império, cristalizaram os símbolos pretendidos da dramaturgia pasteurizada, exibida à noite. As mais ritmadas tiveram a sua divulgação impulsionada pelo jabá e a máquina girou, as rádios bombaram e o povo dançou, seja em festas de aniversário, da firma, datas especiais, ou em festas privadas que enriqueceram os mesmos empresários que me contratavam várias vezes durante o ano. E também ajudaram a compor o interminável repertório de tantas bandas operárias do cachê, sem arte, somente a função de entreter a massa. Já as baladas românticas, ah, as baladas... O meu nome virou febre nas certidões de nascimento, embalaram também os pedidos de perdão, as segundas chances, o encanto redescoberto. O povo amou, com todos os clichês das rimas previsíveis que montei, focado apenas no fluxo do suspiro, deixar fluir os sentimentos, sem reflexões, só costumes.
As canções que fiz propiciaram emprego a muita gente. Os jornalistas se acostumaram ao assunto e venderam revistas, jornais, programas de rádio e tevê com as besteiras que me perguntavam, às quais eu sempre respondia com um sorriso largo, acolhedor e um monte de palavras floreadas e desconexas só para forjar um mito intelectual. E, porque o povo consumia as canções, o ritmo, os embalos românticos e a minha simpatia, estrategicamente forjada também, eu passei a ser necessário para elevar a audiência. Cumpri a função: sempre solícito, de programa em programa, matéria por matéria, parte fundamental no conteúdo oferecido à plateia de um país novo, carente de ídolos para referendar a sua trajetória, algo que aliviasse a condição de pasto do mundo.
Agora, cinquenta anos depois, cabelos brancos e gorda conta bancária, cansei. Mas a mídia continua a precisar de mim para equilibrar as suas contas; quando apareço, os índices aumentam, as vendas crescem, a responsabilidade social é contabilizada. Mas as bandas operárias continuam a me tocar pelo Brasil inteiro, em cada buraco ou bodega, de baile ou de um homem-teclado só. Mas as rádios, estacionadas nos anos 1980, continuam a turbinar o seu comercial com os meus hits, que se tornaram o pressuposto cânone nacional, ao lado de mais uns dez colegas, de duas gerações analógicas distintas. Mas o povo, conservador na sua essência, continua a cantar, dançar, chorar e a fazer filhos com toda essa baboseira de caça-palavras e ritmo que produzi enquanto ainda fumava maconha, à beira do mar, só para comer os bichos-grilos de saias que trepavam ao primeiro acorde de um violão supostamente combatente ao sistema — eu toco, você dá, eu fabulo, você me segue. Tudo continua, mas eu não. Cansei.
Semana passada, eu peguei o violão. Fiz um som. Gostei. A melodia surgiu enquanto folheava um álbum de retratos em preto e branco, que peguei como herança da minha mãe. A letra, preferi que fosse biográfica, com dezessete estrofes, nenhum refrão. Título: “Eu”. Criei os arranjos. Gravei em casa, todos os instrumentos. Botei a voz, cansada, mas foi a minha voz, a que fala para mim mesmo, ao espelho ou dentro da cabeça, e não aquela que é partícipe da farsa social. Mixei. Masterizei. Fui além: tirei uma selfie, ilustrei no computador, escolhi a fonte e finalizei a capa do single. Imprimi em casa, pus num box que providenciei (descartei algum presente que me deram) e fiquei a admirar, mesmo sem ter um CD dentro. Meu. Chamei o neto e botei a faixa para tocar no meu estúdio, nas melhores caixas que o mercado poderia ter me vendido.
O que ele me disse? O mesmo o que o meu empresário falou. A minha mulher. Os músicos da minha banda. A imprensa. O povo.
— Gênio!
Cansei.
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