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A farsa
Emmanuel Mirdad
Ele é um canalha que finge estar só, a esburacar o peito a sós, naquele lugarzinho doído, para delimitar, bem definido, o não amor. Expõe, a 360º, o vazio fabricado do seu coração e aponta como se fosse a ponta de uma luneta: “Deste peito só verás o horizonte” — passe por ele e não more, porque buraco está, mas não é vazio. Cilada, o homem que possui e cumpre, mas não hospeda, alerta; tal qual um túnel, aquece e despacha.
Ela é uma atriz que pergunta, sem ter uma pergunta de fato, que dimensione, precisamente, o que nunca poderá compreender. Não é ausência, descaso ou autopiedade. Tudo sempre foi uma questão de fome, que cessa e recomeça pontualmente. Na sua vida de banzos e encantos, só lhe cabem pássaros ceifados de voo ou a planar em silêncio, três ou dezessete canções em tom menor, matizes e fractais agudos e saborosos — quero e não sei. Quero, e não. Querer e não saber como. Saber-se no querer. E fingir não saber é o charme que ela colhe ao pé da fonte. Sorrir, adentro.
— Não consigo sem você.
— Isso é preguiça de insistir. E medo de apanhar numa outra tentativa.
— Já estou espancada sem você. E a preguiça é só o cansaço interminável.
— Compre vitaminas. E saia da cama num dia de sol.
— Mas eu tô te esperando há tempos...
— Prefiro pagar uma puta.
— É mais fácil brochar quando paga?
*
O canalha se encontra com o amigo.
— Tomei um toco incrível ontem.
— Você?
— Tomei...
— Conta aí!
— Na lata, sem rodeio, ela apedrejou: “dançaria com todos aqui, menos com você”.
— Pxxxx...
— Humilhou, véio!
— Mas você dançaria com qualquer uma ali também.
— Dançaria, é claro. Aliás, dancei.
— Então, ela só evitou a sua própria descartabilidade evidente.
— Faz sentido. Mesmo assim, fui humilhado e é foda!
— Besteira! Humilhante é ser rebaixado à categoria de “amigo” pela mulher com quem você está envolvido emocional e sexualmente.
— Pelo menos, você comeu.
*
A caminho do happy hour com a atriz, a amiga encontra uma conhecida.
— Oiiiii! Quanto tempo, hein? Como você tá, tudo bem?
— Não. Tudo péssimo! Minha mãe morreu de câncer faz uma semana...
— Nossa, que horrível...
— ...
— ...
— Ó, bom te ver, fica bem, vou nessa, força aí, tá?
Caetano canta, no rádio de um táxi que passa veloz e não respeita a faixa: “Eu quero seguir vivendo, amor”. Ela vai. Amy Winehouse morreu ontem. E, agendada pela mídia, a amiga reclama com a atriz, enquanto aguarda o garçom trazer a cerveja:
— Ai, que horrível, tão cedo, é uma falta enorme, tô sentindo uma dor tão grande, tô pasmada, ela não devia ter feito isso, tão jovem, tão genial, incrível, uma diva, que voz perfeita, gênio da música, maravilhosa, única...
— Engraçado... Nunca ouvi você falar dela antes.
Depois de muitas risadas, antes da conta chegar, a atriz finalmente desabafa a real de ter combinado o encontro com a amiga.
— Hoje, li um “eu te amo” dele, que era meu, pra outra.
— Oxe! Relaxe. Desde quando o “eu” do “eu te amo” dele pra você algum dia foi seu?
— ...
— ...
— É verdade... Não existe “nós” no “eu te amo”.
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