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Como uma pedra (Olhos abertos no escuro, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Como uma pedra
Emmanuel Mirdad

Para ler ao som de Like a Stone, da banda Audioslave, a melhor música para dirigir, ao final da tarde, lançada nos anos 2000.

          Kadir sai do escritório mais cedo que o ponto permite. Supõe algumas desculpas e elabora um plano para atuar com elas, assim que o chefe estiver mais contente, disposto a desorientar certas convenções, como aquela de exigir que se cumpra a jornada de trabalho na íntegra, sem concessões. Decide não esperar pelo elevador e despenca escada abaixo até a garagem do empresarial. Embrenha-se no seu carro tal qual um útero e saca um retrato do início dos anos 2000, quando dirigia ao pôr do sol, cantarolando versos como “On a cobweb afternoon/ In a room full of emptiness/ By a freeway, I confess/ I was lost in the pages”, recém-casado. Na foto, duas pessoas, à beira da praia, bem agarradinhas; uma, menos presente, e outra, sofridamente boba.

          Louise gosta de despejar os pés na cadeira mais próxima; lagarteia a sua preguiça, às vezes esticada, sorrindo a malícia que recheava, lupinamente, os seus automáticos de sempre. E, com os celulares no silencioso, curte os últimos instantes de solidão, antes que o marido volte e comece a estragar as suas férias. Álbuns de fotos foram revirados na sua gaveta, sem nenhum cuidado em disfarçar a invasão. Louise ouve uma canção chamada “Meu Norte”, do cantor e compositor Kalu, que suplica: “Eu não tô nada bem”. Ela recorda a sua paciência com a morena, que se mudara para Roraima e diz até hoje que não quer mais ninguém.

          O marido entra na casa e empunha a primeira pergunta antes de fechar a porta. A foto, meio amassada no bolso, comporta uma história que ele desconhece. E Kadir quer saber, agora, imediatamente, sem rodeios.

          — Quem é?

          — Quem, Kadir?

          — Essa aqui...

          Ele demora um pouco para resolver a dobra na foto, ocasionada pela pressa.

          — É melhor você me perguntar qual é a história dela.

          — Ela te pegou? Vocês... transaram?

          — ...

          — ...

          Uma ambulância passa na quadra vizinha. O som se propaga sala adentro; não há comércio por perto. É um bairro de casas, plantas e idosos. Louise alcança os olhos petrificados do companheiro em xeque. Deixa escapar um expiro e revela:

          — Foi estranho. Nós éramos amigas, mas ela insistiu em me amar. Oferecia carona e, quando eu entrava no carro, tocava as suas obviedades, tipo “Eu preciso dizer que te amo”, de Cazuza, sabe, sempre nessa insuportável sugestão adolescente. E me dava flores também. Flores... Flores! Imagina? Logo eu, que detesto! Você bem que sabe disso. Aquelas orquídeas importadas, se lembra?

          — Aham. Continue.

          — Ela quis dançar comigo no casamento, você nem lembra, de tão bêbado que tava. Eu neguei, claro! Eu queria dançar com outra pessoa...

          — Outra? Quem?

          — Não vem ao caso.

          — Sacanas... Vocês transaram ou não?

          — Ela era prima de Bruno, que apresentou pra mim por acaso, num encontro na fila do supermercado.

          Kadir não disfarça a sua inquietação e prende os dentes com força.

          — Moravam no mesmo bairro, próximo daquela lojinha charmosa de produtos naturais... que você detesta.

          Louise risca nos lábios um sorriso. Kadir resmunga e cruza os braços, com a foto entre os dedos. Sente que, dentro dessa loja, deve ter sido humilhado muitas vezes; um lugar reservado o suficiente para ser o esquente perfeito à alcova, segundo o seu raciocínio.

          — Nessa mesma época, Bruno me demitiu. Fiquei arrasada, você se lembra, é claro.

          Greve de sexo. Sim, como poderia esquecer? Tempos difíceis, quase perdeu também o seu emprego.

          — Bruno... — Kadir deixa escapar, no fim de um suspiro forte, aquela frustração remanescente que transfigura o passado num presente de penitências presentes.

          — E ela veio com flores pra curar a minha ressaca. Mais uma vez, esse crime.

          — Como é o nome dela?!

          — Cristiane.

          — Nome de piranha!

          — Sua mãe.

          Kadir quer rebater, chamá-la de puta e vagabunda, mas se lembra de que a sua mãe se chama Cristiane. Prefere a cozinha, a escapulir do vexame. Louise pausa a execução do álbum “Amaralina”, de Kalu, sem se levantar do sofá. O marido volta, com um copo na mão.

          — Me diga logo, sem rodeio. Vocês transaram?

          — Ela é ótima, mas docinho demais, sabe? Ela...

          — É ótima? Como assim? Vocês transaram, porra?!

          — Enjoa igual comer quatro quindins, sem água. Quase uma dama, como disse a minha mãe certa vez.

          Louise gargalha.

          — Peraê! Você apresentou pra sua mãe?! Que porra é essa?!

          — ...

          Kadir quase arremessa o copo.

          — Bom, ela não teve culpa, se eu não soube amá-la direito. O meu modo de amar é duro, sabe?

          Ela se lembra da última vez. Cris alertara que estava de mudança para a longínqua Pacaraima, lá na fronteira com a Venezuela. Louise salientara que era uma bobagem e que esperaria por ela, pacientemente, quarto por quarto da sua casa, sozinha. Como uma pedra.

          — Então, honey, pra que o estresse? Passou.

          — ...

          — ...

          — Mas vocês transaram?

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