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Fábula
Emmanuel Mirdad
Ele costuma camuflar as suas frustrações com um semblante de tranquilidade, sem expor a fraqueza comum. Após meses do término do seu último relacionamento, sente-se preparado para recomeçar o percurso: no início, a fantasia; durante, a queda das máscaras; no fim, o susto pela revelação dos erros e desencontros, traições e desencantos. E ele continua a afirmar: “Quem conhece as dádivas da vida, nunca conseguirá ser feliz por completo sem o amor verdadeiro”.
Ele tenta encontrar a pessoa com quem irá compartilhar essa felicidade, mais uma vez. Frequenta os mais diversos lugares. Nada acontece. São muitos, e nenhum é o que espera por ele — pois, de acordo com a sua crença, essa espera já está acontecendo, e cabe a ele o lado ativo dessa fábula. O desencontro tritura o ânimo da busca, e a necessidade de se completar no outro tem de ser confinada no íntimo. Aguardar. Paciência, é preciso. Tempos depois, o acaso proporciona a ele o encontro que é traduzido como “destino”.
Um ponto de ônibus. Na estação. Horário de trabalho. Arrodeado de pessoas a cumprirem a rotina. Ele pressente a dádiva. A afeição é imediata. Anterior às palavras. Ele é cego e advinha as formas como vibrações. Sente a força de uma avalanche, o lançamento do ônibus espacial, a erupção. Sem recorrer a análises, afirma ao coração o que a sua percepção insiste em apontar como o eleito. E esse homem espera o momento de subir no ônibus e partir; enquanto isso, pensa nos afazeres planejados para hoje. O cego se aproxima. O eleito percebe a movimentação. O cego desabafa:
— Quero dizer que te amo. Não preciso saber o seu nome, o que faz, os demais detalhes forjados pelo existir. Só quero acreditar na sua verdadeira essência, o espírito, que me guiou até encontrar a sua presença física. — O eleito aguarda uma chance de interferir — Você me faz amar sem motivo. Como posso ter certeza? Não sei, essa é a certeza. Só sinto. Isso que chamo de amor. Eu acredito na sua luz. Vem, acredita em mim...
O eleito se livra da tentativa de toque e pergunta:
— Isso é uma pegadinha?
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