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Bonecas (O grito do mar na noite, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Bonecas
Emmanuel Mirdad

          Começo da noite, a academia está cheia.

          — Rapaz, ontem eu peguei quatro!

          — É lascador, esse menino!

          Um grupo de homens sarados, alguns bem jovens, reveza o uso de um aparelho puxador para exercícios diversos, a compartilhar os seus músculos ao espelho comum.

          — Você tá grande, hein, pai?

          Uns fazem tríceps, outros, remada em pé, poucos, na barra comum, difícil de fazer. Eu sou o que mais faço; lembranças da época no quartel.

          — Tá ligado a Bruninha? Passei a pica! Putinha, putinha...

          — Man, vai rolar o ensaio na segunda, vamo dêcê? Só tá rolano as gata, Serjão deu as ideia. E vamo cumê água na segunda também!

          — Bora!

          — E o Baêa?

          Futebol, buceta e cerveja. Apenas três assuntos na conversa e, em poucos segundos, os homens são iguais, melhores amigos há décadas, inseparáveis. Na convivência da academia, falar da bola seduz, atrai, induz o outro a comentar, a dividir as suas opiniões e a explorar o humor moleque, a provocação que ambienta a fraternidade inicial entre homens. Para se afirmar num grupo, a buceta é necessária: é preciso ejacular em algo com peitos e vida, de preferência da espécie humana e, mais que isso, é fundamental comentar, detalhar as façanhas secretamente manipuladas ou mentirosas, o uso da buceta como troféu, posse, título que diferencia o garganteador dos outros machos não tão comedores assim — mesmo que, na prática, todos não passem de meros expulsórios de esperma —, sedimentando a intimidade entre os homens; recupera-se, assim, a contabilidade das traquinagens que tanto serviu para consumir o tempo na infância, que nunca termina. E, numa vida superficial e retilínea, imune à trágica consciência de que há diversos conflitos complexos na existência humana, a cerveja é a única sinuosidade dentro do óbvio, o alívio da rota mecânica dos dias. Todos bebem, vibram e se tornam felizes, a permitir a abstração.

          Homem é quase tudo igual: quer ejacular em mulheres, contar vantagem quantificada e não qualificada para outros homens, e encher a cara até o fim. Eu não. Gosto de comprar bonecas, de preferência Barbie. Uso a minha cara de executivo rico e mau, ternos finos, pai de, no mínimo, duas filhas, para evitar comentários. Carrego um rolinho de papel de presente sempre junto, porque gosto de embrulhar a boneca e me presentear, fazendo o papel de duas amiguinhas: a que dá e a que recebe. Abro com ansiedade, como se nada soubesse, e brinco até tarde da noite, só e confortável no meu apê. Adoooro!

          — Faltam quantas aí, man?

          — Duas ainda.

          — Posso revezar com você?

          — Claro!

          — Você viu que roubaram o Baêa? Rapaz...

          Felipe Jr., o Bodão, herdeiro da maior criação de bodes da Bahia, catorze placas no puxador, descola-se do grupinho e vem puxar papo comigo. Do futebol, passa a falar de música; quer me apresentar o som do artista do momento, figura black power a misturar sons africanos com o gingado baiano. Me poupe, Bodão! No ano passado, enquanto você tomava umas no posto de gasolina, num sábado de poucas opções da infame agenda cultural do telejornal, eu exercitava toda a minha beleza negra no kuduro alucinante desse artista bombadinho, na época em que era alternativo e fazia um som na laje improvisada de um bar, cheio de gente bonita. Como eu era feliz por estar na margem alternativa do senso comum soteropolitano! Mas esses tipos “hypados”, estereótipos também previsíveis, fecharam o nariz e travaram a bunda quando o talentoso artista foi promovido ao mainstream e bombou com a galera do branco playboy do Itaigara. Pois bem, prefiro mil vezes que o som da minha academia toque agora “yeba-yeba-yeba” do que “quebra-quebra-quebra”, e que os bombados da vida multipliquem a renda dos camelôs e consumam a nova moda inventada pela combalida indústria do axé, que tá tentando se reinventar, mas não consegue, coitada.

          — É você, man, tá viajano, é? Que figura! Vai dêcê na semana que vem?

          Tá, vou ser o seu amigo. Também acho que Saulo salva.

          — Vou sim, e você, vai dêcê como?

          Tô em casa. Achei esse Bodão um fofinho, e o melhor é que ele nem sacou qual é a minha, burrinho, burrinho. Uma dose de uísque antes de dormir, amanhã cedo, vou trocar de treino. Na tevê, final de jogo do Fluminense, boa partida. Não sei por que me lembrei daquele sacaninha do Ilê, flamenguista, que sempre reclamava quando perdia para o rival: “Negão não torce pra pó de arroz”. Ui, até parece!

          Pó é sempre bom.

*

          Bodão está cansado por esses tempos. É uma tristeza nunca antes sentida, que não pode ser dialogada, pela total falta de compreensão do que se trata. Mas é algo ruim, ele compara, tão quanto botar o pé na fogueira de São João. É a mesma dor, só que não perceptível, que queima por dentro. Aperta, angustia e ainda atrapalha o seu trabalho.

          O fortão desconta na academia, a aumentar os pesos sem orientação. Os amigos desconfiam; cadê a risada, cadê a galhofa? Ele disfarça, diz que é o trabalho, anda puxado. Não conta sobre o chefe, que está no seu pé, descontente com o seu ar distraído, a invocar que é o estágio inicial da pilantragem, o que provocaria demissão por justa causa — mesmo sendo pai, Almir despacharia o primogênito na primeira oportunidade, caso consolidasse a suspeita de “ensacizeiração” do filho. Bodão sente que está na sofrência: troca o pagode nas alturas pelo inédito silêncio no trânsito, a desperdiçar milhares de reais do sound system do seu possante tunado, vermelho-sangue.

          Brocha. Em dois meses, negou fogo por catorze vezes. Assumiu a queda ao sair de um jantar na Bahia Marina, num dos mais respeitáveis restaurantes de Salvador, depois de um rolé de mãos dadas, pós-comédia romântica no cinema do shopping mais elitizado. A irmã do patrãozinho remanescente da aristocracia cedeu às investidas na academia e topou a paquera. Bodão tentou a sua última cartada: já havia brochado com as vadias e as putas e as ex-namoradas e as fãs; restou testar o tesão via romance. Saíram quase todos os dias por uma semana, e o pau não subiu. Nenhuma vez. No final do jantar, deixou a mulher na mão com uma desculpa esfarrapada — quase a mesma da outra saída; o recorde do seu repertório é de três desculpas. Daí, parou. Da frustração pela ausência de sexo surgiu a tristeza nunca antes sentida. Dentro do quarto do apartamento onde mora — na barra da saia da mãe separada e ausente, cinquentona de farra com as amigas dondocas —, o fortão chora.

          Como um menino.

*

          Compro uma Barbie Vida de Sereia 2. Não gosto muito de sereias, esse negócio de rabo de peixe não é para mim, não. Mas essa sereiazinha azul, de loiro quase branco, me deu uma fissura. Mal chego em casa e já vou montando o presente. “Amei, amiga, obrigado, você é um amor!” “Que cabelos lindos, adoro penteá-los, que delícia!”

          Judas Juda-ah-as Judas Juda-ah-as Judas Juda-ah-as...

          Oxe! Número desconhecido...

          — Alô, quem é?

          — Maurição? Sou eu, tá foda aqui, velho...

          — Quem é? Bodão? É você, Bodão?

          — É sim, man...

          — Que número é esse, rapaz?

          — É do trabalho, o meu joguei na parede de raiva!

          — PQP, Bodão, qual foi agora?

          — Não rolou de novo, man, tá foda!

          Tadinho do Bodão, me ligou umas quatro, cinco vezes essa semana. Ah, se ele soubesse... Acho que se tocou que eu sou mais compreensivo que os outros símios. Por sinal, não tô me reconhecendo. Quem diria que logo eu, fino e elegante, seria amigo de um brucutu como o Bodão? Mas até que é legal, não sei o que é, gostei dele. E não é tesão, o Kiko tá me servindo bem esses tempos, é algo além, coisa de afeto, sensibilidade. Vidas passadas? Será? Acho que o Bodão é um Ken em versão BBB alfa, desses amiguinhos manipuláveis que também coleciono aos montes, como as minhas bonecas, mas bem longe de casa, só para orbitar o meu ego-rei, a me bajular com gratidões eternas pelas minhas doces palavras — fui até citado recentemente por um influencer famoso. Sou chique, rico, bem situado, lindo, com inserção sociocultural bem azeitada e um rebuliço de dançarino e cantor. Gay, com orgulho, mas sem causa. Fazer o quê, né? Tem mais que citar mesmo. Nem preciso da minha saudosa e amável mamãe para ressaltar o que já sei: sou o melhor. Solteiro — melhor ainda. Deus a tenha, mainha!

          — Bróder, fique tranquilo, tudo isso passa. Você vai ver.

          — Sei não...

          — Sempre passa!

*

          Madrugada de sexta-feira, Bodão dirige pela orla com os vidros abertos, recém-rendido por uma night que acabou em pancadaria no barzinho playground de publicitário. Trocou uns murros, deitou gente no chão, tomou tapa de segurança já fora do bar, mas resolveu seguir só, sem levantar a voz. De volta da balada frustrada, do tipo que só rende a cruel e explícita evidência do buraco da ausência de si mesmo, que nada ou ninguém tapa, o fortão faz o possante andar bem devagar. E, ao invés de virar para a sua rua, no hábito de cantar pneu e assustar as velhinhas do bairro, Bodão reduz a marcha, pisa no freio, faz a curva e encosta. Um mulherão, de pé na calçada da esquina, canta:

          — E aí, gato, tudo bem?

          A travesti é quase da mesma altura de Bodão, com bunda saliente e coxas torneadas, silicone pra mais de 300ml. Quando os peitos pulam para dentro do possante, e a boca especialista em boquete supremo posiciona-se bem perto da sua, Bodão toma uma futucada do macho alfa interior e retruca:

          — Sai daí, desgraça, se pique! — arranca o carro, quase a despencar a travesti no chão. Detalhe: de pau duro.

          — Ôôôôôxxxeeeee, que otário, seu enrustido miserável, vá dá cu na puta que te pariu, mané!

          A travesti se ajeita do susto, dá um rebuliço renovador e, menos de cinco minutos depois, está dentro de uma Range Rover preta, a caminho do melhor motel de Salvador. “Rainha...”, o cliente suspira.

          Bodão fica em casa na sexta e no sábado à noite, e no domingo de sol, também. Desde a sua independência automobilística, na pré-adolescência das carteiras falsas, pegas e rachas, que ele nunca deixou de sair em todos os dias da tríade sagrada da diversão soteropolitana. Do bate-volta de uma vaquejada em Barreiras, extremo oeste baiano, até a roubada de conhecer a Chapada Diamantina, com uns post-hippies de Santa Catarina, só para comer uma loirinha, o fortão sempre arrumou um jeito de não perder a balada. Mas, porém, todavia, contudo, aliás, se e não: a travesti esbagaçou o juízo do macho, e o fim de semana foi todo em quarentena, mais potente que uma gripe das cinzas do Carnaval.

          Bodão está confuso. Não consegue nem começar a entender. O estado de brochada constante embanana a rotina, e a malhada e imponente travesti virou de cabeça para trás as referências do desejo primal. “Que porra é essa, aquele troço tem um pau, como posso ficar com tesão? Mas é mulher, porra, tem bundão, peitão, coxão, cabelão, toda cavala, do jeito que gosto. E a voz grave? É mentira, porra, aquilo é traveco, tem pau, não tem buceta. Quer dar cu agora, porra?!”

          Quis. Dar e comer. São duas opções, é mais diversificado, não é só meter. E é em mulher com caralho, que é feminina, sinuosa e provocante. A dualidade parece estranha, mas instiga o fortão. E ele volta a sair, já na semana seguinte do confinamento, querendo tentar mais uma vez transar com uma mulher sem brochar. Mais do que nunca, julga que é preciso provar a sua masculinidade. Porém, voltar para casa é algo que mudou. Definitivamente.

          Bodão não pega ninguém na balada e vai embora sozinho. Ele poderia ter voltado pelo caminho mais usual, tomando as avenidas de vale, mas decide prolongar e voltar pela orla, para passar, bem devagar, pela mesma esquina em que vira a travesti que ele considera uma bela morena.

          Não avista. Volta mais uma vez, mais cedo. Nada. Duas, três, quatro, todas as vezes continua passando por ali. Não reencontra a “bela morena”. Mesmo assim, continua, devotamente, a fazer o mesmo caminho de volta para casa, bem devagar, a olhar para os grupos de “bonecas”, fissurado em encontrar a musa. Torna-se uma cara conhecida.

          — Olha o indeciso lá na ponta! Toda noite agora é isso, sacana enrustido, nunca para! — reclama a “revoltadinha”, sempre de salto 15, já de saco cheio por não conseguir se esvaziar no fortão.

          — Pois é, menina, tenho até medo desses, vu? Fiquei sabeno cada coisa, teve uma que se ferrou lá na Carlos Gomes. Um louco desse, que só ficava passano, passano, uma noite tomou coragem, botou a menina pra dentro, e ela nunca mais foi vista. Dizem até que o safado torturou a coitada, meu Deus! — acrescentou a “medrosa”, que tomara uns sopapos de um cliente, só porque tinha mudado o nome para Lady Leitte, em homenagem à negalôra do Carnaval.

          — Êêêpaaa! Nem venha falar mal da Carlos Gomes, minha história é toda de lá e ainda acho que é a melhor praça pra trabalhar. E te digo mais: conheço a mãe desse aí, é cliente lá no salão em que a minha irmã trabalha, já vi foto e tudo. Mora aqui perto e tá com o cuzinho coçano pra dar. Ai, s’eu te pego, ai! — suspira a “veterana”, até hoje montada no mesmo tom vermelho do microvestido.

          Bodão passa pelo trio, bem devagar, e gosta de ver os peitões da “revoltadinha”, que faz questão de mostrá-los, a oferecer caras, bocas e boquetes. “E se for uma vez só? Podia ver qualé, e ninguém ia ficar sabeno. Porra, mas só se for com aquela gata... Mas cadê aquela desgraça?!” Resolveu dar mais um rolé.

          Retorna para o Rio Vermelho. Visa aquele pub que nunca fecha e sempre está cheio, porque é o lugar compartilhado por todos como “o” lugar da paquera, o esquente antes do motel. Conhece os porteiros de longa data, o produtor, a banda, o dono. Fura a fila e entra, largado no meio de vários conhecidos, abraços, apertos de cachaça e “Você é meu bróder, véi, tá sumido, porra! Vamo cumê água!” Várias mulheres se interessam, e Bodão nada quer. O medo de brochar prova-se fatal: mata o macho em prol da propaganda de que ele é supostamente viril.

          O fortão olha para as mulheres com a desolação de quem já provou tanto o seu desempenho e agora todas parecem iguais, inatingíveis e cansativas. Ao ter brochado em sequência, sem uma explicação — a falta de diálogo e a incompreensão do problema camuflam o óbvio: efeito colateral das frequentes bombas para ganhar músculos —, acabou perturbado, pois, o que antes eram apenas bucetas para meter, ele transformou em mulheres com enigmas e quereres mesquinhos, capazes de machucá-lo impiedosamente, de empenarem o seu pau ao tamanho de um verme microscópico, sina de Adônis do Louvre. Ora, pois, estar brocha feito um inútil tasca-lhe na cabeça a maçã do Gênesis, que, mordida com casca e tudo, bane o Bodão do paraíso, axioma da pura “metelança” que era a sua vida até então, para o dogma do “inferno é aqui”, complexo, repleto de variáveis cancerígenas e canibais. Isso, para um homem como ele, que muitos julgariam como padrão, raso ou superficial, aterroriza como se estivesse recém-cego-surdo-mudo, quase tetraplégico, no centro de uma metrópole chinesa, sem ninguém disposto a ajudar.

          — Acerto depois, man, tenho que ir — Bodão vai embora, rapidamente, sem pagar a conta.

          Atocha o pé no acelerador e passa avionado pela orla. Vai até o Quiosque das Baianas, em Amaralina. Dali, retorna para o Rio Vermelho. Estaciona em um dos largos. Confere o celular, mas não responde a nenhuma mensagem. Fecha os olhos, acalma-se e volta à Pituba, pela orla, mais decidido. Por fim, encosta naquele cruzamento e chama a “revoltadinha”.

          — Quanto é, beleza?

          — Pra você, faço oitenta.

          — ...

          — Vamo, gostoso, vai ser bom...

          Bodão arranca o carro de novo, deixando a travesti emputecida. Só que, desta vez, o santo não ajuda. No cruzamento, um Uno branco, embasado pelo sinal verde, entope na lateral traseira do possante; bate, roda e vai parar dentro de uma ótica. E o carro importado do fortão rodopia mais ainda e vai beijar de lado o poste do outro lado da rua. Desta vez, o santo ajuda: Bodão sai cambaleando, meio grogue, poucos cortes. Caso tivesse contratado a “revoltadinha” antes de arrancar, talvez agora a travesti estivesse morta.

          — Puta que pariu, moleque, que foi que você fez, porra?! — atravessando a rua correndo, brada a “revoltadinha”, que, mesmo sozinha, parte para cima de Bodão.

          — Sai daí, desgraça! Você não viu nada, não fala nada, senão eu te mato, ouviu?! Eu te mato, porra! — dá um solavanco na travesti, que logo cai fora para não ir em cana, pagar de laranja da lambança do boy.

          Com o “mel” começando a descer da testa, lábios um pouco inchados, braço machucado, uma baita dor de cabeça que viria com o seguro, a ótica e a polícia — o cara do Uno se ferrara, talvez estivesse morto —, Bodão só pensa:

          “Onde é que você tá, morena?”

*

          — E aí, Bodão, será que essa balada vai tá legal hoje?

          — Pô, Maurição, cê tá brincano. O Serjão garantiu que só dá as melhores lá. E ele já montou o esquema, vai rolar depois um putetê vip, secreto e as porra, lá na descida da Graça pra Barra, desses que é putaria pura, xibiatagem em alta.

          — Massa! E você tá animado hoje, hein? Qual foi?

          — É que a noite promete, vu, pai!

          Bodão, cheiradaço, vai comigo à noitada de sertanejo pop, que nem curto. Mas essa série de saídas com o brucutu tá me deixando animado. É diferente, exercito a minha face maquiavélica, que amo, jogando com todos os asnos, simulando o meu lado putão com muita maestria! Kiko tá injuriado, reclama da minha ausência, afff, uma carência só. Ele que espere, gosto de conhecer outros ambientes, mesmo que não tenham nada a ver comigo. Zezinho, se tiver lendo isso aqui, vai se lembrar de quando o convenci de que era preciso conhecer o gueto, ralar no pagode, pagar de quebrador. Rapaz, foi uma confusão só quando uns caras tirados a macho flagraram a gente se pegando numa quebrada do Wet’n Wild, de camisa colorida. Ainda bem que o Zezinho é faixa preta, e eu me garanto também. Ha, ha, ha! A gente quebrou no pau uns quatro... Mas o chato foram os tapas e mata-leão dos seguranças junto com as vaias das bozengas barrigudas. Essas encalhadas... Ficam putas quando dois belos negros rejeitam a sebosidade das suas curvas gordurosas. Ha, ha, ha, ha, ha! Ri muito e vou continuar no deboche. Olha lá o tal do Serjão, que figura tosca! Realmente, o maior cafajeste, que canalha! Gigolô da alta sociedade, tá estampado na cara.

          — Meninas, esses são Bodão e Maurição, meus amigos, meus amigos! Carol, Fabiane, Jozi, Dedeia e Niquinhaaaa, uhm, delicinha... Bora, bigode, desce aí as geladas, xibungo, bora beber, porra!
Niquinha... Que menininha bonitinha é essa... Loirinha, loirinha...

          — Cê não é daqui não, né?

          — Sou de Caxias do Sul, cheguei esse ano.

          — Ah, tá! Você é uma gracinha, sabia?

          Que cinturinha! Alta, pernas longas, delgadas, um violãozinho. É tão graciosa essa gatinha, que é toda chamada de “inha”, mesmo com mais de um metro e setenta. Quietinha, meio tímida, um pingo de malícia, pele lisa, lustrada, esticada no plástico natural da tenra idade. Não deve ter feito vinte anos ainda. E essa boquinha, esses olhos grandes, vivos, clarinhos, clarinhos... Como parece uma boneca, meu Deus!

          Uma Barbie...

*

          Rua Manoel Barreto, Graça, ladeira que vai dar na Barra. Um SUV segue sem fazer alarde — vulgo sem som alto a tocar pagode, mesmo com o alto teor etílico consumido dos seus ocupantes. Serjão na frente com uma, Bodão no fundo com três, sem Maurição, que voltou para casa, saindo à francesa muito antes da madrugada. Som baixo, a tocar músicas de Luan Santana, Serjão dirige, passando a marcha entre as pernas de Jozi, que geme em suspiros finos. Fabiane troca beijinhos com Dedeia, que lhe dá um colo com muito carinho. Carol se mantém de rosto virado, indiferente, a olhar a paisagem. E Bodão, que no bar ostentou mais que agiu, ao entrar no SUV, acanhou-se. Serjão nem provocou: ficou mais interessado em tirar a microcalcinha de Jozi, ao mesmo tempo em que engatava a ré e manobrava o veículo sem pagar ao flanelinha.

          Pela câmera, o segurança confere o modelo e a placa e permite o acesso do SUV. Na garagem, três carros estacionados, mais caros que o de Serjão, que vai na frente com Jozi e nem quer saber dos demais e do ritual: cafunga um canto ali mesmo e fica a passar a pica, por trás, em pé, apoiando-a numa bancada, por dentro do resto de roupa que ainda cobre a mais patricinha das putas de luxo. Fabiane e Dedeia desembarcam grudadinhas, rindo muito, e são recepcionadas com entusiasmo pelo anfitrião Diego M., engenheiro de multinacional, dono da festa, que acaba de entrar na garagem.

          — E você deve ser o Bodão, bróder do Serjão, aquele sacana mal-educado. Quem já se viu já sair fudeno sem nem ao menos falar comigo antes, porra?!

          — Pois é, escroto. E aí, beleza?

          — Tudo na santa paz! E esse Baêa?

          — Tá mal.

          — Mas melhora.

          — Duvido.

          — Deixa de bestagem, rapá, vamo entrano que a farra já começou, e aqui é esquema pesque e não pague. Tô bancano tudo e quero que essa seja a melhor suruba que já fizemos!

          Não é uma casa de swing nem encontro de casais. São alguns ricos, bem inseridos e farristas da elite baiana que se encontram de quando em quando, para algum deles pagar a noitada com as melhores profissionais de luxo da cidade, até de outros Estados. Tudo para ostentar. Reza a lenda que o patrãozinho remanescente da aristocracia estreará na próxima edição, a botar abaixo os demais: partirá para importação de ucranianas e suecas. E em outro patrãozinho a Carol mama bem. Mal entra na festa e saca a piroca de alta calibragem monetária para dentro da sua boquinha bicuda de selfies nas redes sociais. Outro branco rico chega por trás e se introduz na puta de uma maneira rápida, pois não quer que vejam nem meçam o tamanho do seu membro. Mesmo com a orgia disseminada nos cômodos e salas da casa alugada, o sexo é comportado, meio higiênico, sem histeria, com um som jazz fusion pop lounge house merda de elevador a rolar ao longe, muitos pufes, travesseiros, acolchoados e bebida a rodo, servida por putas também, que nenhum branco quer enrabar, por serem de um fenótipo mais comum.

          Bodão prefere ficar no canto. Pega uma cerveja e beberica aos poucos. Pica a valer não o apetece mais. A impotência o estraga por completo e abre possibilidades: talvez não fosse um putão e só tivesse transado com tantas mulheres por hábito e ostentação; talvez fosse um romântico de família, esse tipo de homem frouxo propenso à cornitude, masoquista não assumido, fadado a amar a puta e se divorciar da mulher honrada; talvez fosse gay. E, ali, naquele paraíso da sacanagem, está tão ausente e arrasado, que se torna invisível. As putas se revezam nos playboys, e as garçonetes nem o servem. Acabam a longneck e a prostração. A raiva pede passagem à inércia e o arremessa ladeira abaixo, a pé.

          — Tá livre? Toca pra Pituba, rápido.

          O motorista o deixa num flat, na orla, a poucas quadras de onde mora, para não deixar suspeitas. Espera o táxi sumir, para andar em direção às travestis. Passa por três, que mexem com ele, mas sem resposta. Bodão tem um querer. E, na ponta da esquina com a rua Piauí, encontra.

          — Quero você. Vamos?

          — Oi, tigrão, que delícia, vamos sim! Cadê o seu carro?

          — Tô sem.

          — Eu soube... E agora, quer que eu chame o meu motorista?

          — Precisa não, moro logo ali, venha comigo. Agora, me siga de longe, não quero que me vejam com você.

          — Pô, gostoso, tô de salto, fica ruim andar tudo isso.

          — Então, chame o seu motô e venha me encontrar logo. Vou ficar na portaria esperano.

          Calunga cogita: “Traveco, será?” Fica na dúvida, mas permite o acesso, porque o Sr. Felipe Jr. autorizou. Logo ele, que sempre aparecia com uma mulher melhor que a outra, “vai virar pro outro lado agora?” O porteiro reflete: “Estranho, hein? Depois pega jeito pra coisa”.

          Caminham, mais próximos um do outro. A travesti deduz que é a primeira vez do fortão; já descabaçara o rabo de muito filhinho bombado das mamães, nas áreas nobres de Salvador. Décimo primeiro andar. Bodão não se movimenta, olhar fixo no chão. Está de pau duro. O elevador fica parado, e a travesti nada fala, nem se movimenta, estudando se não seria um esparro estar ali. Confia na gilete, dos tempos em que trabalhava no centro da cidade; era rápida no manuseio de facas, sempre afiadas, boa de tirar secreções de objetos pontiagudos. Não é o caso agora. Talvez seja apenas timidez. É difícil ser macho e topar dar o cu ou pegar em outro pau. E fazer em casa é muito complicado; o que encoraja é o marginal, o proibido, o lugar sujo, a contravenção. A morena dá uma chance, a fungar mais forte, remexendo o decote apertado, quase saltando à gula. O instinto responde, e Bodão levanta os olhos, direto nos peitões. Cobiça. O membro estala quase para fora da calça. Desliga as noias. É a vez de o fortão rosnar, o sangue vindo aos litros, em ondas, a percorrer o corpo, as informações da potência de outrora distribuídas por cada músculo, Ares retomando o controle, banindo o Hades.

          Dentro do elevador, Bodão lasca um chupão na travesti, que não o reprime, mesmo estando fora do “contrato”; curte a sensação do primeiro beijo gay de um heterossexual, ou do primeiro momento de “saída do armário” de um belo homem. O amasso balança o elevador, com a morena a se aproveitar do cliente que considera gostoso, a arranhar as suas costas e braços, mordendo, a apertar o seu bumbum durinho, onde logo, logo meteria o seu pênis de “êla” cavala.

          O casal despenca do elevador à porta do apartamento, aberta quase como por mágica. Lá dentro, a travesti, já de silicone para fora e de minúscula calcinha, arranca a blusa de Bodão e despenca o zíper, calça e cueca. O fortão aperta a cabeça da morena como se tivesse espremendo todos os seus próprios problemas e dúvidas, numa sensação mútua de liberdade e alívio. Duro, enfim! Duro, de novo duro, duro! Como se diz por aí, a travesti detém o melhor boquete, para compensar a falta de uma vagina. Bodão goza rapidinho, mas não se afasta da boca, porque ela não deixa; enquanto engole, continua a chupar, uma das suas melhores técnicas, que a diferencia das demais no mercado. O fortão goza de novo e desaba no sofá. A travesti aproveita para cuspir pela janela a segunda leva; não gosta do sumo, da safra, que veio meio rala, “desprovida de tutano”.

          Meio frouxo de afirmação, meio inebriado, Bodão está frágil no sofá. A morena, já nua e de pau armado, parte para cima aos chupões, mas no calibre certo de não assustar. Mas Bodão está decidido e deixa escapar a sua derrota como putão, assumindo-se liberto, e se posiciona de costas, entregue.

          — Vou te comer bem gostosinho — a travesti sussurra, carinhosamente, ao ouvido de Bodão.

          O interfone começa a tocar, insistentemente. Não para. O elevador chega ao 11º andar. O interfone se cala. Cinco horas da manhã, e a mãe de Bodão e o seu acompanhante entram no apartamento. A travesti nem percebe a movimentação, empolgada nas estocadas, agora ritmadas com pressa e força, condizentes com o macho alfa que era possuído de quatro, descabaçado.

          — Felipe, meu filho! Que porcaria é essa?!

*

          Madrugada. Maurício está na cozinha. Sente um pouco de fome. Abre a geladeira. Belisca algumas passas. No armário, cata uma lata de batata-frita. Já na sala, admira-se no reflexo da janela, enquanto come. Duas, três, quase dez. Deixa a lata sobre a mesa da sala e vai para o seu quarto de bonecas. Ao passar pelo sofá, aprecia os seus dois amigos, Kiko e Zezinho, agarrados e nus, a dormir de conchinha. A noite deve ter sido proveitosa. Maurício limpa pedaços de batata no canto da boca e sorri, satisfeito. Chega ao quarto e acende a luz. Entre as várias bonecas, e as suas casas, carros e outros bonecos de plástico, Niquinha está amarrada e amordaçada, com o olhar vidrado, em estado de choque, vestida como uma Barbie, ao estilo princesa.

          Maurício pega uma escova e começa a pentear os cabelos da loirinha.

          — São tão macios...

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