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Não escaparás (O grito do mar na noite, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Não escaparás
Emmanuel Mirdad

          Ela acende um baseado e prende os longos cabelos pela última vez; não há ninguém para decifrar os sussurros que sempre escapam. Da sala, ouve o som de uma banda de reggae, mas já está cansada de soldados estadunidenses. Tem coragem e muito cabelo, mas nunca foi rasta por lhe faltar fé.

          Termina o baseado de forma lenta, acendendo-o algumas vezes, sempre com aquele movimento sinuoso tão característico. De tacar fogo sabia, desde pequena, a queimar as pontas dos cabelos das outras gurias. E ficava olhando a chama fixamente, a bailar as suas pupilas no inferno paralelo que tanto lhe sugere a salvação.

          Ela põe fogo no próprio cabelo. E apaga. Repete. Não se incomoda com o fedor de palha queimada; sobe mais rápido que a prudência e vira imolação. Gira as chamas como uma mula sem cabeça à frente do espelho. Berra a dor que vem de dentro. Mergulha a cabeça na privada. E, cravejada de tufos chamuscados, arma-se de tesoura e gilete. Corta e rapa os pedaços, a tirar umas lascas do cocuruto. Está careca, completamente. Asseada pelo álcool iodado, prepara e acende um novo baseado, sozinha, na sala. Pensa nos irmãos, pois é Natal.

          Todos viajaram para o Norte.

*

          O menino estala os dedos e se cansa de interagir com dezenas de amiguinhos virtuais. Larga o celular e ricocheteia pela casa, sem encontrar nada que possa aplacar a ansiedade que sente. Ele se atira no sofá, a folhear, a esmo, o porta-retratos digital com mais de mil fotos, até fixar os olhos em um retrato antigo; é o pai, com a sua idade, rodeado de moleques descalços e repletos de barro, unidos e sorridentes pela partida de futebol disputada.

          — Que tosco!

          Pela janela dos fundos, o menino avista a área verde que diferencia o condomínio onde mora dos demais. Deserta, como sempre. Cogita descer e passear, para tentar se livrar do tédio ao fazer algo inusual. Sente preguiça e prefere voltar para o quarto. Acessa o aplicativo no celular e digita: “:(”.

          Recebe um convite para jogar online.

*

          Dois amigos, velhos e viúvos, comunicam-se via internet, cada qual com o avatar que menos se associa à carne que naturalmente os comporta, deteriorada pelo tempo. O interregno é breve.

          — Não há o que fazer. O que faço, então?

          — Respire.

          — Tomei metade. Preciso da outra metade. Eu sou um covarde corajoso ou um corajoso covarde?

          — Não faça.

          O que tomara os comprimidos minimiza a tela, para buscar a música “My Way”, na versão de Frank Sinatra. Na desorganização dos seus arquivos, não consegue encontrar. Maximiza:

          — Não há nada além de mim por aqui. Estou só e mal acompanhado de mim mesmo.

          — Faça.

          — É impossível.

*

          O parrudo caminha, à noite, a portar um cutelo, escondido sob uma jaqueta, mesmo no calor de dezembro. Na esquina da rua, o barraqueiro de frutas prolonga o seu horário, aberto até mesmo no dia de Natal, a curtir o alívio de adiar o encontro inevitável com a família em casa. Na calçada estreita, acontece o esbarrão larápio de rumos, desequilíbrio dos automáticos de sempre.

          — Foi mal aí!

          O barraqueiro se desculpa e aproveita a chance para oferecer algo, a se abaixar para pegar uma fruta. O parrudo, de repente, bota a cara do cutelo para fora. O barraqueiro não nota e oferece:

          — A laranja tá docinha, docinha. E hoje tá em promoção!

          O parrudo raja um talho fatal, bem no meio do gogó. Enquanto o barraqueiro engasga os balbucios assustados do fim, a lâmina é limpa na sua camisa. O parrudo corta uma laranja, mastiga um gomo e comenta, para dentro:

          — Hum... Danke!

*

          O menino sai do apartamento sem avisar; sente-se grande o suficiente para responder pelos seus atos. Pretende testar um novo aplicativo no playground e quer fazer antes dos seus amiguinhos virtuais que moram no mesmo condomínio. 20º andar, elevador vazio. Aperta o botão PG e se mantém colado no espelho. O elevador para no 18º. A jovem entra sem dar boa noite, cheirando a erva, com a cabeça machucada por umas queimaduras, e se mantém perto dos botões. Acabara o cigarro, e ela sente a fome apertar. O menino nunca a viu antes; acha inusitada a careca da jovem e tenta registrar a sua figura no celular, em vez de bisbilhotá-la com a boca aberta e a expressão estática da geração analógica. Essa movimentação incomoda a jovem, que dá uns resmungos e corta:

          — Se você tirar foto minha, eu quebro o seu celular.

          O elevador para no 4º andar.

          — Boa noite.

          O velho fica sem resposta, tanto do menino, que parece amedrontado, quanto da jovem, que figura estar zangada. Ele não se incomoda e também se posiciona colado no espelho, olhos nos olhos, centrado em si mesmo. O velho pensa no amigo que está tentando se matar, mas não consegue completar o serviço sozinho. De táxi, vai custar uns sessenta reais só a ida, mas o amigo precisa da sua ajuda para ficar bem.

          Térreo.

          A jovem toma um esbarrão visual e detém a cadência de saída do velho e do menino. Ninguém desembarca do elevador. Há um homem a empatar o progresso. Ela julga: “é aquele morador esquisito do 12º, o alemão”. No condomínio, ninguém sabe quem ele é, pois não interage com os vizinhos nem possui perfil nas redes sociais. O parrudo sorri, de boca fechada, com certo desdém. Ele acaricia a ponta de um cutelo com o polegar e o indicador da sua mão esquerda, e a direita o empunha, sem ligar para o circuito interno de câmeras. O menino agarra o braço do velho e começa a chorar. A jovem pensa na família que passeia no Norte. O parrudo, com a voz tão grossa quanto a expressão que faz, navalha:

          — Sobe?

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