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Emmanuel Mirdad
Pedro Henrique namora uma moça doze anos mais nova do que ele. Primeiro, ostenta as curvas da jovem, mas logo ela se cansa da atuação em segundo plano e assume o controle, a ponto de isolar PH dos amigos. E o namorado vai ter de acompanhá-la em uma festa de verão em Sergipe, bate e volta com ônibus de excursão. Seis horas de viagem a boiar em cachaça e baderna, todos a encher a cara e a paquerar, pirraçando o único casal monogâmico no ambiente: Pedro Henrique e a “dona encrenca” — apelido que ele passa a usar para se referir a ela, quando está chateado; só não tem a coragem de chamá-la assim quando estão juntos. Três horas de festa gastas apenas na função de segurança, cravado num abraço por trás na sua namorada, para que nenhum homem passe o dedo ou a toque. Duas horas a esperar os quarenta bêbados e bêbadas aparecerem no local combinado pela excursão — e PH relembra que havia parado de beber por recomendação médica, mas prefere continuar sem mencionar o assunto. Seis horas de estrada na madrugada, de volta à Bahia, motorista sem dormir — porque fora visitar a família durante a festa —, banquete de vômitos e mijo a batizar os pés. Ao chegar no ponto de desembarque, PH não localiza o seu carro, porque o local marcado foi alterado de última hora, sem qualquer explicação. Não há responsáveis pela excursão, nem táxi por perto; o celular, descarregado, e a namorada, que esquecera o seu telefone em casa, de porre à base de cravinho, está enjoada e quer vomitar. Ele tem de aceitar a carona do pai de uma das amigas bêbadas da sua namorada, que, coincidentemente, é o seu cliente mais insuportável.
— Mas por que vão justamente a esse bar, que é o lugar da pegação?
— Ahhh... bem... É porque é o mais animado, e hoje é a despedida da Bruninha...
Resignado por brigas homéricas, PH enfurna-se em casa, a aceitar as baladas da namorada com as amigas solteiras. Pouco tempo depois, ela termina a relação com um anúncio “acabou” via mensagem. Ele não aceita, implora pela volta e oferece uma viagem paradisíaca para o Taiti, na Polinésia Francesa. A ex-namorada, que mal fora a Sergipe na vida, finge não se importar, mas logo aceita o convite. O revival da relação cumpre o roteiro: primeiro, a transa interminável por noites seguidas; depois, a jovem termina de vez, antes que ele efetive a compra do pacote turístico: “Olha, Pedroca, não é bem o que eu quero mais”.
Cinco meses depois do término, PH restabelece um contato superficial, apenas pelas redes sociais. Sabe dos planos da ex-namorada em fazer intercâmbio, treinar o seu inglês, visitar o tão almejado Estados Unidos. PH estimula: “Vá sim, viajar é ótimo, você vai adorar Los Angeles”. E hoje, a aproveitar a deixa do aniversário dela, telefona para dar parabéns, mesmo a saber pelas redes que ela está namorando outro. Depois das amenidades iniciais, resenhas ligeiras e clima de cordialidade, a ex-namorada revela que aquela viagem maravilhosa que fariam juntos ao Taiti, ela vai curtir justamente com o novo namorado, mais rico e bem-sucedido que ele:
— Resolvi ouvir você e viajar por aí, Pedroca!
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Pedro Henrique é nostálgico. Soube de uma festa de rock retrô, inspirada nos anos 1950, propícia para ostentar a sua jaqueta de couro e a cara de homem de antigamente, que tanto o destaca entre as matriarcas em festas de família. PH se aproveita da gana interesseira da nova estagiária, a que apelidara de “gata” e a considera muito mais bonita e gostosa do que a sua ex-namorada; arrasta-a para a festa, fantasiada de pin-up. Ele curte uma sensação que interpreta como “sucesso”: destacam-se como o casal mais interessante do lugar, cobiça geral das pessoas, e a sua foto com a “gata” é compartilhada no perfil oficial da festa.
Com a repercussão positiva da retrô, a casa de shows resolve repetir a dose para não falir no segundo ano de funcionamento. PH se assanha; quer ostentar ainda mais a sua estagiária, recém-chegada de Minas Gerais, e publicar nas redes três, quatro, muitas fotos felizes. Analisa que, de uma hora para outra, a sua ex-namorada terá acesso às imagens e se morderá de inveja diante da tal beleza superior da estagiária. Contudo, ela não pode ir. O sábado da retrô será o mesmo da festa de quinze anos da sua irmã, lá em Juiz de Fora, e ela já está com passagem comprada e não quer perder a oportunidade de rever a família e prestigiar a debutante que ama. PH lamenta o azar da coincidência e decide não ficar em casa, por conta do “enorme sucesso” que fora a festa anterior. Ele convida os amigos, mas nenhum topa a balada de rock, a preferir as mulheres que frequentam a balada sertaneja.
A casa de shows está mais socada que antes. PH sofre para entrar, a esperar mais de uma hora e meia na fila. Lá dentro, avista o que considera uma sacanagem: a sua ex-namorada está na festa, acompanhada por um grupo de amigos e pelo namorado, que ele reconhece ser um engenheiro, bisneto da elite baiana, tradicional até o pé. Ainda o avalia como “bonitão”. PH fica chocho e se isola num cantinho menos apertado. Porém, por causa da fluidez e do reajuste das pessoas, a sua ex-namorada e o grupo de amigos, todos casais felizes, acabam se deslocando, no acaso da física, para um lugar literalmente na frente de PH — ela, cinicamente, faz “cara de paisagem”, a simular que não o conhece. E, por conta da lotação excessiva, não consegue se movimentar pela casa e flertar com as mulheres presentes, a forçar ainda mais o isolamento entre a visão da ex-namorada e a parede. Só resta a PH pagar a conta e ir embora antes da primeira banda tocar.
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Pedro Henrique demite a estagiária. Depois da festa, ele considera que a ex-namorada se torna inatingível. A mineira é surpreendida pela demissão. Os funcionários do escritório de advocacia também. A servente acredita que o motivo seja “galha”, como da outra vez. E o chefe de PH acaba de esbarrar na ex-estagiária no corredor do escritório; é a primeira vez que a encontra. O Diretor Geral mensura que, de saída, elas costumam ficar ainda mais bonitas. Anota algo no celular.
Mais tarde, no corredor do café, Amaro comenta:
— Você é maluco, PH, dispensar essa gostosa?! E agora? Você acha que ela vai sair contigo ainda, depois dessa mancada? Game over, mané!
— Tô nem aí! O que não falta é mulher.
Sexta-feira, à noite, PH deseja uma jovem de tez arábica, apelidando-a de “nariguda charmosa”. Ela se diverte com um grupinho de amigas na balada, mas a lógica do advogado alerta que ela deveria ser de alguém — “Toda mulher bonita tem dono”, assim gravou Santanna, o cantador, na canção “Ana Maria”, e PH sempre recorria a essa frase como um bordão. Sem embargo, ele insiste: banca o engraçado, fazendo-a sorrir. Até dançam uma lambada, coladinhos. Ela entrega: o namorado mora longe, muito tempo que não se encontram. A carência pulsa, torna-se visível, arrepiada na pele dos braços, pronta para aparceirar. Contudo, as amigas, que estavam entediadas, sem cortejo algum, permitem que a inveja opere e passam a fiscalizar cada centímetro do contato corporal. “Atiradinhos, né?” Ela se sente intimidada e quase quebra o encanto da paquera. PH é rápido e muda para a tática da discrição, do dia seguinte, para quando ela quiser, é só mandar mensagem; ele diz que respeita a relação dela, mas a quer muito e se oferece como opção para que ela não fique se sentindo sozinha. Ao se despedir, deixa um cartão com o seu número e @, além de um bombom comprado no caixa da balada.
— Só eu e você. E é você que me procura.
No dia seguinte, PH acorda confiante, certo de que ela entrará em contato. Pratica o seu óbvio: vai fuçar o perfil dela na internet. Encontra-o fácil, por conta do sobrenome árabe, peculiar, mas as fotos estão bloqueadas e não há a identificação de que ela possui um relacionamento sério. Ao menos, há um conteúdo que é público. O mais recente fora publicado de madrugada, na balada, mais ou menos quando PH estava na fila, a pagar a sua conta: “Por que os homens de Salvador são tão pretensiosos e mal-educados?”
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Pedro Henrique encerra as suas contas nas redes. Ao fuçar o perfil da sua ex-namorada, encontra as fotos do noivado, todas publicadas com livre acesso, tiradas em Bali, Indonésia, em mais uma viagem pelas praias paradisíacas do mundo, acompanhada pelo noivo, o engenheiro “bonitão” e rico. Para arrematar o alvoroço do suicídio virtual de PH, a ex-estagiária atualiza o seu status de relacionamento: passa de solteira para mulher do chefe.
“Não se deve brincar com o ressentimento delas”, PH lamenta. Bastam poucos dias com a mineira como primeira-dama do maior escritório de advocacia da cidade e, coincidentemente, PH passa a ser perseguido pelo chefe, escanteado até pelo Amaro, maltratado pelos clientes e descartado das principais reuniões. Ainda ressentido pelo noivado da ex-namorada, ele perde feio em dois processos importantes do escritório e é demitido.
PH dá vazão à tristeza e espatifa o seu importado sem seguro no fundo de outro carro, após uma noitada com muita cachaça e putas — mandara a abstinência forçada para o espaço, havia pago o serviço e o motel, mas broxa, não conseguiu transar com nenhuma das três. Por um milagre, ele sobrevive com poucos arranhões e um pé quebrado. Milagre maior ainda: não mata ninguém. De molho em casa, faz uma jogada arriscada num fundo suspeito e se ferra: perde tanto dinheiro que tem de vender o apartamento para saldar os diversos compromissos a longo prazo a que se fiara nos cartões de crédito — quanto mais dinheiro PH ganhou na vida, mais dívidas e contas a pagar acumulou.
Quebrado de corpo, alma e bolso, ele tem de voltar a morar com a mãe, quinze anos depois de ter saído de casa.
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Pedro Henrique compra um carro popular e acerta a sua participação como sócio de um novo escritório, pequeno e com poucos clientes. Trabalho dobrado. Pela primeira vez, torna-se patrão e gosta do que sente. O colo da mãe o ajuda a curar as mazelas. PH retoma a sua confiança e decide que é a hora de sair para conhecer novas pessoas, ir a lugares aonde jamais fora; compromete-se a se esforçar mais na balada para poder ter sexo sem gastar muito. Ouve falar de um lugar diferente, frequentado pelos alternativos, e que agora vem atraindo a elite, naquele processo do cult ser englobado e depois dilacerado pelo pop canibal. E, assim, numa sexta-feira, #partiu.
Uma jovem vai curtir a noite no lugar em que, durante o dia, borracheiros consertam pneus. É a sua primeira vez por ali. Considera a balada “exótica”. Salto alto, vestido curto e cabelão, é uma mulher que tem o costume de ser cobiçada e cortejada, e está acompanhada por um grupo de amigas, vestidas e maquiadas muito semelhantes a ela. Na pista de dança, atochada de gente, a jovem paquera e beija um homem até então desconhecido. Acontece uma química rara, e a noite se transmuta: ela acha tudo lindo, tudo certo, tudo “top”. A sintonia é tão forte, que ela se sente confortável em dispensar as amigas e aceita voltar para casa na carona do crush: PH.
Risadas, beijos e mais beijos, um aperto sincrônico e cadenciado, alegria. Afinados no papo e nos afagos, eles trocam contatos em excitação explícita de que, a partir dali, haverá muito mais saídas divertidas e sexo do bom. PH, a querer figurar como um cavalheiro, deixa a “patricinha”, como ele inicialmente a havia apelidado, na segurança da porta da balada e vai buscar o seu carro, estacionado bem longe. No caminho, vibra numa emoção que há muito não sentia: é a esperança de dias melhores, a ser energizada pela sorte de um encontro que considera como espetacular e promissor.
Em frente à entrada da festa, PH para o carro e a jovem não se movimenta. Só depois de buzinar e sinalizar de maneira afobada, de dentro do veículo, é que ela percebe que o crush da night tem um carro popular. “Ele é pobre”, julga. Sem disfarçar, expõe o semblante de frustração e se fecha numa redoma, a destruir o encanto da noite. Ela entra no carro e não pronuncia uma palavra sequer. Dez minutos atrás, eram amantes íntimos e sincrônicos, “apaixonados”, segundo a emoção de PH. Agora, passageiros de um momento constrangedor e silencioso: ele, catatônico; ela, ouriço. Ao chegar na portaria de um edifício de alto padrão, a jovem desce do carro sem dar boa noite. Nos dias seguintes, ela não responde às mensagens de PH, até que ele desiste e apaga o seu número.
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Pedro Henrique consegue reconquistar a confiança de um cliente de grande porte, e o seu escritório finalmente estabiliza as finanças. O empreendedorismo pulsa forte, e a satisfação do negócio próprio compensa a situação ainda regrada; o carro continua popular, e a casa, da mãe.
Início da noite de uma terça-feira, PH folheia à revelia um best-seller de autoajuda numa livraria. Avista na fila a mulher que dirige uma mineradora do sudoeste da Bahia, apelida-a de “bela morena” e a avalia que está muito mais em forma do que quando a conheceu, e, agora, de anular esquerdo livre.
PH tenta se aproximar dela e consegue. Saem umas três vezes, só como amigos. A cota de jantares do mês estoura, e ela resiste firmemente no seu “pé-atrás”. Até que o método persistente de PH rende uns beijos numa pizzaria do centro da cidade, à qual a executiva topara ir só porque o seu pai a frequentava, e o lugar lhe traz afetivas lembranças da infância. Entretanto, quando ela descobre que PH está morando com a mãe, os beijos param. Havia tolerado, a contragosto, a demissão dele do maior escritório de advocacia da cidade, o carro popular e o novo negócio com reduzidas garantias de sucesso; agora, morar com a mãe, para lá dos trinta e tantos anos, é vergonhoso demais para ela.
— Sou uma mulher pronta e quero me relacionar com um homem feito; cansei de garotos, Pedrinho.
Ele insiste. É largado no balcão de um barzinho. Insiste. Numa doceria, ganha um décimo de atenção e consegue a permissão de ser atendido ao celular. Insiste. Troca o carro popular por um usado importado, busca a executiva na casa do litoral — investimento alto: noventa quilômetros de gasolina, ida e volta —, jantam num restaurante francês com vista para o mar, do outro lado do litoral da cidade, e a leva ao cinema de arte, que julga apropriado para figurar sofisticação. PH atura o filme e o pior: sem um amasso sequer. O advogado não sabe que ela só havia topado a saída porque desejava se livrar do tédio, e aceitado que ele pagasse tudo só para causar prejuízo nas contas do “garoto”. No final da noite, quando a deixa em casa, frustra-se por receber apenas um beijo na bochecha. “Tudo bem”, ele se resigna, a topar o que considera um “previsível jogo da mulher difícil”. Julga que a noite havia sido agradável e acredita que a sua imagem melhorara com a executiva.
“Falta pouco”, ele acredita. E insiste. Dessa vez, num restaurante japonês, ela corta PH, como se fechasse um negócio, sem contra-argumento:
— Vou ser direta: não vou ficar com você. Não me procure mais.
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Pedro Henrique é considerado um homem bonito. Sempre há uma mulher que o deseja, mas PH só fica com quem ele conquista. Os amigos tacham de “viadagem”, e PH continua a dar os seus foras: se ele não tiver a iniciativa, não há jogo. Pois, desde que fora apresentado pela sua ex-namorada a ela, ainda na época em que se relacionavam, que PH deseja aquela mulher baixinha, apelidada de “tatuada”. Avalia que ela tem um charme singular, uma timidez que enfeitiça tanto homens como mulheres. Ela passa a trabalhar na barraca de praia aonde PH sempre vai. O reencontro proporciona uma série de muitos papos no bar: ela, a criar bebidas exóticas e criticar os comportamentos e desequilíbrios do ser humano; ele, a ouvir com atenção e pontuar as opiniões dela com um tipo específico de comentário que o advogado acredita ser capaz de figurar a imagem de “homem inteligente”.
Passam vários finais de semana assim, só na conversa. Ela tem um namorado, e PH acha que ele não vacila, deve continuar a tratá-la muito bem, pois há espaço zero para investidas. Só que, numa noite de sábado, reencontra a mulher a trabalhar no bar da casa de shows — justamente quando está disposto a pegar várias e a festa tem muito mais mulheres do que homens, com umas cinco distintas a se oferecerem, opções reais de prolongar a noite —, e ela informa a preciosidade que PH queria ouvir:
— Que namorado? Tô solteira, nego, desde terça. Cansei de irresponsável, vagabundo...
“Perfeito! O cabra finalmente vacilou e foi descartado. Que sorte!” e PH imediatamente pega o número dela, controlando-se, ao máximo, para não escancarar a alegria do “finalmente vou te pegar!” E a mulher comenta:
— Amanhã tô de folga, tava pensando em ir na praia...
PH marca a hora e acerta de pegá-la em casa — um pouco mais perto do que foi com a executiva. Imediatamente, ele larga a festa; a confirmação da solteirice dela vale mais que todas as mulheres disponíveis naquela noite. Em casa, dorme mais uma vez sem sexo, e mal se cabe ao despertar; pensa que, finalmente, vai cumprir o desejo de ficar com ela — PH tem uma tara de transar com a “tatuada”, porque nunca tivera uma pele, tão desenhada assim, nua na sua cama, e isso o atraía muito. Arruma-se, cuidadosamente, a colocar um som dançante nas alturas. Está muito feliz, radiante, empolgado.
Um pouco mais de trinta quilômetros depois, ainda distante da casa da mulher, parado numa sinaleira, PH telefona.
— Ahn? Quem é? Ah... tá! Olha só, não vai dar, marquei outra coisa...
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Pedro Henrique compra o seu novo apartamento em diversas prestações e deixa a casa da mãe. O escritório se estabiliza e prospera. Os dois sócios de PH estão empolgados e praticamente lhe impõem uma farra em comemoração ao ano que consideram como excelente. Como o novo apartamento se localiza bem próximo ao circuito do Carnaval, e os dois estão solteiros, após um longo tempo de noivado e namoro, PH, que não curte a bagunça da folia momesca, acaba cedendo e topa os seis dias de xibiatagem, a maioria nos camarotes. Hospeda os sócios, e o lugar se torna um rendez-vous.
Domingo, quarto dia de Carnaval, o único destinado a curtir dentro de um bloco com cordas, atrás do trio elétrico. PH se perde dos sócios. Sozinho, prefere arranjar uma paquera para “casar” — firmar compromisso de ficar junto até o fim do circuito, sem beijar outra pessoa. Ele sintoniza com uma mulher, que avalia como linda, esguia e de porte nobre, a apelidá-la de “rainha”. Carioca e negra, usa umas tranças coloridas. PH se encanta com o seu sorriso; diz que tem “o tamanho do mundo”. O melhor para o advogado: ela está disponível, solteira, sem compromisso com ninguém. “Gostei de você” é o suficiente para o primeiro beijo, e o amasso vira um “casamento” divertido, com as amigas cariocas todas cúmplices: “Que figura, ele é ótimo!” No trecho final do circuito, muita dança, pulos e alegria; PH se sente como um rei, com a “rainha” e as “princesas” do Rio entretidas com o seu jeito engraçado, solto e feliz. “Maravilha!”, celebra.
Educadamente, ele convida a carioca para prolongar a farra no seu apartamento. Ela recusa: “Vamos curtir mais o Carnaval, gatinho, ainda temos dois dias pela frente”. Despedem-se com um beijo e um abraço demorados, e PH, de tão satisfeito, volta para o apartamento, sozinho, e não reclama quando encontra os sócios e mulheres desconhecidas se embolando na sua cama — a mais macia de todas. Tira a roupa e trepa, de olhos fechados, com uma gaúcha, a pensar na mulher que o encantou.
A segunda-feira de Carnaval passa, e o camarote, para PH, está um tédio. Os sócios reclamam da apatia e, quando as gaúchas voltam para mais uma orgia, ele prefere dormir, trancado no quarto menor do apartamento. Macambúzio, não se conforma por não ter convencido a carioca a trocarem os contatos. A se comportar como um adolescente apaixonado, resolve orar, diante do espelho: “Quero reencontrá-la, me ajuda, Senhor!” Relembra do que o ex-colega Amaro dissera uma vez: “Quando é para escapar de doença ou encontrar um amor, o ateu se torna rapidinho um cordeiro de Deus”.
No dia seguinte, último do Carnaval, o acerto é curtir na pipoca. Os dois sócios, pendurados na corda de um bloco elitista, tentam paquerar as mulheres que consideram “gatinhas”, mas só se oferecem aos pipoqueiros as que eles classificam como “tribufu”. PH, mais uma vez, olha para dentro do bloco apenas na função de vasculhar e reencontrar a mulher que o encantara. E ele acaba sendo visto por uma das amigas cariocas, que celebra com euforia e vai buscar a tão desejada. Localizadas no meio do bloco, as outras amigas ficam emocionadas, a pular e a apontar para PH. Quando a carioca avista o advogado de longe, situado na pipoca, dá um tchauzinho e mais nada. PH se assusta, sem entender o motivo dela não vir até a corda para abraçá-lo, beijá-lo, ficar com ele. Nem as amigas, que logo fecham a cara ou se espalham, a pular e a curtir a música eletrizada. Do amor ao ódio em segundos, PH se enfurece e quase invade o bloco, sendo contido pelos cordeiros. Ele berra, a balançar, com força, a sua camisa regata:
— É só de abadá, é?!
A carioca responde, com um sorrisinho à Mona Lisa, emoldurado com os seus belos lábios “do tamanho do mundo”:
— É.
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Pedro Henrique continua solteiro. Dedica-se ao trabalho e faz do seu escritório uma referência entre as novas opções do mercado. Recupera o seu prestígio, volta a andar de carro importado do ano, e os amigos oferecem várias opções de noivas em potencial para casá-lo. Nada. PH, ácido, passa a tratá-las como repositório de esperma. Corre, à boca miúda, que se tornara gay. Não se importa com o boato. A fofoca se modifica: “Esse aí é problemático, nem vá!” Ele passa a acumular paixões. Um affair armara um barraco na portaria do seu prédio, mas PH, neutro, aplicou o pior: nem uma palavra, nem um gesto, o silêncio como arma de destruição do indivíduo. Mas...
Quarentão, PH se apaixona de novo. Simples assim. Num restaurante. De dia. Meio da semana. Ela almoça sozinha e gosta de ir ao Museu de Arte Moderna, ali perto. A JAM session do sábado é o gancho da primeira conversa na fila de espera do manobrista. Assim, jazz, como quem não quer nada, PH a reencontra três vezes no mesmo restaurante. Tornam-se amigos eventuais. Num sábado de agosto, meses depois, acontece o primeiro beijo, nervoso, proibido, nos caminhos de pedra do Solar do Unhão. Ela trai o noivo sem remorso; a paixão é explícita e recíproca. PH, alcalino, recupera o brilho da esperança e permite o enraizamento do que sente. A vontade cresce, as cobranças também, mais e mais encontros em motéis e desculpas mil, até que a mulher cede aos pedidos dele e termina o noivado. PH imediatamente a pede em casamento, a atropelar o namoro, a pausa entre uma relação e outra, e o bom senso.
Ela não aceita; prefere a relação secreta. Continuam se encontrando às escondidas, e PH cede aos pedidos de tempo, a postergar as suas vontades e aflições. Menos de um mês depois, pressionada pela família e por amigas, ela volta a se relacionar com o noivo traído. A contrariar o seu óbvio, PH torna a ficar neutro, utilizando-se da vantagem da experiência. A relação é um bagaço, ela não tem o menor interesse no noivo, e a força da pressão externa em prol da conservação das aparências está sendo minada, gradativamente, pela saudade da excitação que ela sente ao pular a cerca com PH.
O giramundo acontece. O advogado fica sabendo que o noivado terminou. Dizem que eles não voltam mais. E a experiência, dessa vez, não contém a empolgação de PH; de volta a estar propenso às tragédias. Ela não o procura. Estranho. Por que essa demora? Ela viaja. Dois meses na Austrália e nenhuma mensagem respondida. Quando retorna, é literalmente pressionada por PH na parede do restaurante onde se conheceram. Confessa:
— Terminei, mas não dá pra ficar com você. Eu já tô namorando com outro.
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Pedro Henrique retorna às redes um dia depois de completar quarenta e três anos. De bobeira, resolve fuçar os perfis de algumas mulheres que passaram pela sua vida. Três estão casadas: a “dona encrenca”, com o engenheiro; a “gata” mineira, com o seu ex-chefe; a “nariguda charmosa”, com um desconhecido também narigudo — agora, as fotos estão desbloqueadas. PH considera, até aí, previsível. O estranho para ele é saber que a “tatuada” ainda está solteira, mas isso não o motiva; nenhum tesão, nada de cobiça, indiferença total. PH nem procura informações sobre a “patricinha”, pois sabia, há tempos, que ela morrera num violento acidente de carro a envolver jovens ricos e bêbados a capotar de madrugada; comoção municipal por dois dias e esquecimento sumário em seguida. Assim como a “tatuada”, a “bela morena” está solteira, mas repleta de fotos em lugares paradisíacos, sempre acompanhada pela mesma amiga. PH lamenta não se lembrar do sobrenome da “rainha”, mas avalia que ela provavelmente estaria com alguém. Por fim, mesmo a resistir desde o início, cede ao principal motivo do bisbilhotar: saber da mulher que traíra o noivo com ele, a mágoa recente, que ainda não superou.
Rimena está solteira.
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Uma relação virtual engrena fácil e empolga. Ela, casada. Ele, com casamento marcado para o mês que vem. Arquitetam uma viagem juntos, cada qual com o seu enredo infalível, e compram a passagem de ônibus para o mesmo dia e horário, rumo a Paraty, saindo do Rio de Janeiro. Encontram-se num abraço quente, almoçam num lugar charmoso, trocam lembrancinhas, a sedução acontece, e o clima é propício. Ele aceita a condição de não transarem na primeira noite. No dia seguinte, a mensagem no celular detona todos os planos, logo cedo: “Não posso te ver mais, o meu marido chegou de repente”.
Pedro Henrique surpreende a sua esposa Rimena.
#tome
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