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Chá de boldo
Emmanuel Mirdad
O velho é bisavô e ajuda a preparar o café da manhã. A filha emite o bom dia num timbre grave, de quem ainda se acostuma ao raiar da rotina. As duas bisnetas estalam vários beijinhos no rosto enrugado, mas atento aos carinhos ainda intactos, antes que a pressa os esmague.
— Te amo, meu bisa...
— Eu te amo mais!
— Eu amo mais e mais!
Nessa competição, não há perdedoras.
— Eu amo todas vocês, minhas preciosidades!
No quarto dos seus cinquenta anos, a filha sorri, de boca fechada; o cafuné do velho é uma volta para o quintal da infância. Deixa escapulir, quase um sussurro:
— Também te amo, painho.
O velho tenta ligar a tevê da cozinha. A filha continua o pedido:
— É como endoscopia, não dá praí sozinha, e ele não pode ir.
O genro, do tipo que remexe as suas coisas porque você mora de favor na casa dele, arrumara uma obrigação de ontem para hoje, a contradizer o marasmo da sua aposentadoria. E saiu, sorrateiro, antes de o pão ficar pronto; da torradeira para o lixo — ninguém mais lida com o glúten. O velho responde que sim, antes que a filha termine o pedido, do tipo que ama com a disposição imediata, sem custo, critério, condição.
Pai e filha deixam as meninas na escola e se encaminham ao hospital que atende ao plano. Há umas dez pessoas na recepção da Emergência.
— Sente aqui, painho, que eu vou resolver as coisas.
O velho gosta do programa que passa na tevê. Um boneco faz uma piada, e ele acha graça. Relembra que ficara de ensinar à filha uns segredos da família. Como fazer um bom chá, por exemplo. Sente a satisfação de ser útil. Não percebe que a filha passa reto pelos guichês de atendimento e entra no hospital.
Há uma saída na outra extremidade da Emergência.
*
— Ô, meu jovem, com licença, você não viu a minha filha não? Ela veio fazer um exame, não lembro o nome agora, pediu que eu esperasse ali, mas já tem quase uma hora e ela não aparece.
— Qual é o nome da sua filha, senhor?
Duas horas se passam. O recepcionista troca de turno e não se preocupa em avisar ao colega que aquele senhor, de idade avançada, sentado ali no canto, perguntara por alguém que não deu entrada no hospital. O segurança é que acha estranho. O velho não interage. Parece nervoso, mas não reclama. Uma novidade na Emergência, o que serve de alerta. Um funcionário da administração orienta ao segurança qual procedimento tomar. Poucos minutos depois, a assistente social aborda o velho.
— Senhor, a sua filha não está neste hospital. O senhor sabe o número dela?
— Não sei, ela trocou faz uns dias, não deu tempo de anotar.
— E onde o senhor mora?
A assistente social aciona o asilo público. Dizem que não há vaga, mas irão receber assim mesmo. Na sala em que trabalha, agasalhada por conta da baixa temperatura do ar condicionado central, ela coloca o telefone no gancho e comenta:
— A filha abandonou o pai.
Solicita ao estagiário:
— Você pode informar pra ele?
*
O velho recusa a ajuda. Com fome, sai do hospital e se encaminha para a banquinha mais próxima. “Abandonado? Como assim? Ela não faria isso comigo!” Tenta se lembrar do nome da escola das bisnetas, dos detalhes do bairro da filha, para onde se mudara há pouco, e dos detalhes de onde mora a esposa do seu neto. Nada. A angústia embaralha o raciocínio e a memória, e o jeito é andar, com um copo de suco de laranja e uma banana real nas mãos. “Ela não me largaria nessa cidade... Aliás, não me largaria em lugar nenhum. De jeito maneira! Esse pessoal do hospital me confundiu com outro. Só pode ser! Preciso voltar, ela deve tá me procurando.” Recorda-se de que o neto está morando em Moçambique.
— Senhor, já te explicamos, é difícil, duro, a sua filha foi embora e deixou o senhor aqui. Tudo indica que o senhor foi abandonado, há outros casos assim, e a indicação que damos é...
O velho se recusa a continuar a ouvir. Fora do hospital, sem a dignidade que possuía horas atrás, numa manhã que começara normal, sente medo. E raiva. Desconta no genro; acredita que ele a obrigou a tirá-lo de casa. Não aceita. Quer discutir, brigar pelo seu direito à família e perdoar a filha.
Na carteira, documentos, poucas cédulas, cartão de débito. O velho não tem um celular. Com um pouco mais de oitenta anos, todos os seus irmãos e amigos mais próximos estão mortos — costuma contar vantagem que é o último, o sobrevivente. A sobrinhada e os descendentes se disseminaram pelo país, e nunca mais teve notícias ou uma mísera ligação. Por insistência do neto, a alertá-lo de que o crime aumentou na pequena cidade, com os usuários de crack a acabar com o sossego, convenceu-se de que era mais seguro vender os imóveis e deixar o interior, onde morava só, para se mudar para a capital, onde reside a sua família. O neto conduziu o processo e aplicou o dinheiro da venda dos imóveis num banco que o avô não conhecia, e não se ofereceu para acolhê-lo no seu apartamento. A filha, cujo normal é estar de mal com algo, surpreendeu e pareceu não se importar em abrigar o velho; não o maltratava, a aceitar os carinhos e a ouvir os conselhos. Até hoje.
Nos arredores do hospital, o velho encontra uma rua sem saída, de pouca movimentação, com uma pequena praça. Decide passar a noite ali mesmo, na superfície de um banco de concreto. “E se foi ela que quis assim?”
Sorte que faz calor e não vai chover.
*
Uma vez por mês, uma violonista, já senhora, toca para os velhos de um asilo privado. Não tem objeção em tocar para os mais ricos; avalia que é mais comum encontrar rancor, traumas e tendências suicidas na riqueza, pois o abandono de quem teve ou ainda tem muitas posses costuma ser empreendido na ausência quase completa de amor — julga que isso é consequência do que o velho rico praticou na sua vida estritamente dedicada ao trabalho, ao acúmulo de bens ou à futilidade, a distorcer os vínculos com os filhos e os netos a meras relações de consumo. A senhora também toca no asilo público e serve a todos com igual entusiasmo. É a sua terapia: fazer o bem para o outro.
O repertório é contemporâneo aos asilados. Dos anos 1950 para trás. Muitos sambas, marchinhas, valsas. Uma e outra bossa nova. E há sempre alguém que toca o pandeiro. As assistentes sociais aprontam os velhos para a festa. Uma vastidão de sorrisos, animação geral, quase todos reunidos no salão. O desenganado aparece. O cadeirante também. A mal-humorada deixa a ladainha para depois e canta mais alto que todos. Aquele que sofre como um terminal é o primeiro a sambar, acompanhado pela cega e a sua amiga obesa. A descolada levanta a saia e enrubesce as mais recatadas. Todos nas palmas. Os choros pipocam pelo recinto, e o respeito à satisfação continua mesmo assim. Depois de secar as lágrimas, a vez dos cantos e risadas compartilhadas. Som, ritmo, violão e percussão por, no máximo, duas horas. No fim, o sentimento dos velhos, seja no privado ou no público, se iguala: “É uma bênção, é uma bênção!”.
— Mais uma vez, o senhor não veio. Tá perdendo, é tão bonito, todo mundo dançando, gostando. O senhor podia ver um pouquinho na próxima, que tal?
O velho não responde. Avesso ao contato, volta de um passeio pelo jardim e se tranca no quarto. Não interage com os outros asilados. As assistentes sociais respeitam a sua vontade, amparadas pela avaliação da psicóloga, que garantira a ausência de tendências suicidas. “É um profundo pesar, vergonha excessiva pelo abandono, rancor da família. Contra si? Não.” Só que a administração o alertara pelo atraso no pagamento. Avança a suspeita de que as suas economias acabaram — as mensalidades normalmente são pagas pelos familiares, e ele é o único que vai ao banco sozinho e honra o compromisso. Se não quitar a dívida, será transferido para o asilo público ou despejado. Mais um abandono.
— Minha filha, me traga aqui, por favor, o velho mais feliz e o mais triste do asilo. Quero dar um passeio de presente para eles.
A senhora, ao final da visita, faz a proposta à coordenadora, que aprova de imediato e manda buscar os velhos. O considerado mais feliz não se modera com a novidade e beija o rosto da violonista. Já o considerado mais triste não abre a porta do seu quarto nem responde às súplicas. A senhora encara a indiferença como um desafio e insiste nos argumentos. O considerado mais feliz tem sorte. Dentro do quarto, o considerado mais triste reconhece a escola das bisnetas numa matéria na tevê.
“Um nome, finalmente!”
*
A senhora vai pagar uma bola no copinho para o considerado mais feliz. O outro asilado recusa o agrado e se mantém a observar a movimentação em frente à escola, vizinha à sorveteria. Os pais engarrafam em fila dupla, e as crianças saem do portão em silêncio, vidradas nas telas dos celulares, a antecipar o torcicolo.
O bisavô avista as duas bisnetas. Nenhuma mudança aparente. “Será que não estão incomodadas, não perguntam onde eu estou, o seu bisa amado? Que explicação inventaram para elas?” A avó das meninas consegue parar em uma vaga. Desce do carro, acomoda as pequenas e conversa com alguém que parece ser da coordenação da escola. O velho aproveita e chega por trás, sem se mostrar para as bisnetas, catando a filha pelo braço, quase como um assaltante.
— Não precisa falar nada. Estou no São Jerônimo e preciso que deposite o dinheiro que o seu filho me deve nessa conta. Amanhã.
A filha vai do susto à resignação.
— Farei.
O velho balança a cabeça, afirmativamente. Afastam-se.
— Posso pedir mais um sabor, abençoada?
O mais feliz gosta tanto de cajá quanto de graviola.
*
Cinco anos. A vida passa. Bem rápido.
— Só tenho você.
— Está exagerando.
— Só você.
— Não é possível.
— É verdade.
— Não é tão grave.
— Preciso me internar hoje. É gravíssimo.
— É mesmo? Se bem que você está horrível, pior que muitos aqui...
— Não precisa ofender!
— E onde ele está? Por que não te acompanha?
— Separamos.
— Teu filho?
— Não volta mais.
— Um safado!
— Seu neto.
— E onde estava a minha família nesses cinco anos?
O velho ainda tem firmeza nas pernas. A sobreviver mais uma vez, viu muitos partirem, inclusive o considerado mais feliz. Até a senhora violonista mudara de cidade. E de asilo. Ele continua no mesmo quarto. Nunca mais uma mensalidade atrasada. A filha deposita na sua conta, mas ele não sabe se é o seu próprio dinheiro, que fora desviado pelo neto — tem dúvidas do quanto que ele lhe deve. O que interessa é permanecer vivo e sob um teto. Safo. Medo, nunca mais.
— Eu vou.
*
Cinco anos. Não passam. Nada fácil.
— Tudo bem?
O segurança não reconhece o velho. A assistente social não trabalha mais naquele hospital. O atendente permanece com a mesma omissão de antes. A Emergência mudara de cor, do creme para um azul pastel. Trocaram as cadeiras. As revistas, as mesmas. A tevê, mais moderna, sintonizada num canal fechado, diferente do habitual. O velho não conhece o programa e o considera chato. Duas pessoas aguardam o atendimento. Ele fica mais um pouco, remói o martírio da má lembrança.
Decide pelo mesmo percurso. Levanta-se e desce a rampa, atravessa a rua e pede uma banana real na banquinha mais próxima. Não tem. E ele recusa o suco de laranja, pelo gosto azedo. Não quer pagar. Acha-se no direito. O barraqueiro tenta puxar um papo, a fim de aliviar o seu engodo, mas o velho dá as costas.
A filha está internada. E ele é o acompanhante. O único. Ela, sem marido, a nora ausente, as netinhas pequenas, o filho fugido. E os amigos, sem tempo. “E alguém ainda acredita em amizade? Fique mortalmente doente. O abandono vem junto”, o velho determina. A filha só pode contar com ele e agora dorme, confortavelmente assessorada num bom quarto, bom plano, sabendo que vai morrer, mas com o pai a zelar, ao seu lado. E ele, do lado de fora do hospital, pensa: “E se eu quiser assim? Ir embora?”
Não vai. Atravessa a rua, de volta. A sua filha, a sua família. Lembra-se de que, na entrada principal, avistara uma garrafa térmica de chá. Geralmente é de erva-cidreira.
Surpreende-se: é de boldo.
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