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O grito do mar na noite
Emmanuel Mirdad
O octogenário escritor e jornalista Hélio Pólvora participa da estreia da Flica em outubro de 2011, numa mesa com Pedro Mexia, poeta e crítico português. Em Cachoeira, somos apresentados, e o gentil senhor me dá o recém-lançado “Melhores contos”, com seleção do crítico André Seffrin. Acho bonita a capa em tons de rosa, afirmo que vou ler com gosto e agradeço o presente (na dedicatória, Hélio oferta “a Mirdad, grande coordenador da I FLICA de Cachoeira”), envergonhado por nunca ter lido uma linha sequer do convidado da festa — como coordenador geral e, algumas vezes, como curador da Flica, sofri com essas lacunas e contradições; a sorte: nunca fui constrangido pelos autores, que sempre souberam que não se deve perguntar “já leu?” a ninguém, ainda mais se referindo à própria obra.
Da vergonha à admiração: o conto “Além do mundo azul” me assombra. Concordo com o Jorge mais amado da Bahia, que assim define Hélio Pólvora: “escritor de velhas civilizações, na preocupação formal, na riqueza de linguagem”. Que riqueza! A técnica do mestre me impressiona. O cinematográfico “Além do mundo azul” me faz parir o projeto “Roteiros de Alta Literatura”, em 2012, na função de adaptar Hélio para a sétima arte. Arrumo um parceiro na empreitada: Igor, pernambucano solto & cineasta. Em duas ocasiões, nos reunimos com o mestre no seu apê da Vitória. Trocamos o conto para “Pai e filho”, esboçamos o pré-roteiro de “Distância” e apresentamos a Hélio, que se empolga bastante, feliz da vida em, finalmente, realizar o sonho de ser adaptado à grande tela (era cinéfilo). O presente do octogenário: “ficou melhor que o conto!”. Nunca vou esquecer os olhos marejados, o sorriso repleto de satisfação em ser reinventado por dois trintões empolgados.
“Melhores contos” me presenteia com mais: do também cinematográfico “Mar de Azov”, peneiro uma frase para ser o meu lema: “Ser homem é assumir a realidade”. Yeba! Que frase! Saio por aí, repetindo a rodo. “Ser homem é assumir a realidade” me impacta até hoje (uso a frase como epígrafe nos meus livros “O grito do mar na noite” e “O limbo dos clichês imperdoáveis”). E ela continuará ressoando pelo resto do que me resta de vida.
É o verbo mais corajoso que existe: assumir. “Assuma a sua porra, rapaz” é algo que sempre cobro. Eu assumo o que faço, assumo a realidade e faço. Sem historinha. Sem enrolação. Sem mentira. Assumir não como excepcional. Assumir como óbvio. Assumir é civilização. Civilizar o ser humano é assumir a realidade. Hélio sintetizou o que o meu pai me ensinou. E é o que tento ensinar por aí. Assuma a sua porra!
Crio um flyer com a genial “Ser homem é assumir a realidade” e ponho como capa do meu Facebook. Hélio saúda:
“Ter leitores da sua qualidade, sensíveis a possíveis descobertas, capazes de confessá-las, em demonstrações de grandeza de alma, e sobre elas sonhar projetos, é o que mais desejo na vida. Gostaria que você se multiplicasse por cem, por mil. E mais não digo, pelo menos agora, porque você me emocionou demais. Tenha tudo de bom e que desejar e puder alcançar”.
“Além do mundo azul” faz parte do tudo de bom que desejo (amo o trecho: “o azul estava em tudo, cercando a gente como água. Apenas a gente, por estar dentro, como num aquário, não percebia o azul”), publicado no livro “O grito da perdiz”, que é um dos mais importantes a me influenciar. Peneiro, do conto que dá título ao livro:
“Lutar pelo amor, impedir que o amor esmoreça, que a paixão inaugural vire fogo de palha, que as dificuldades normais da vida esvaziem ao invés de unir mais ainda macho e fêmea [...] o amor desafia quem ama de verdade a preservar-lhe a permanência [...] Nada de frescuras, de cabeças viradas. Se um homem e uma mulher se gostam hoje, então têm o dever de se gostarem também amanhã, ou, pelo menos, se esforçar para isso. Só acaba o amor que não há, ou que se disfarça na simples amizade ou na conveniência ou no hábito. Porra, é preciso merecer o amor.”
“O grito da perdiz” faz parte da “Coleção Hélio Pólvora”, publicada pela editora baiana Casarão do Verbo em outubro de 2013, originada da sede de um leitor: eu. Desejava conhecer os livros de onde o crítico André Seffrin extraíra o conteúdo da antologia “Melhores contos”. Problema: fora de catálogo. Como assim? Hélio, o melhor escritor baiano vivo, com livros indisponíveis? Que eu me virasse nos sebos ou pegando emprestados, ou me contentando com os mais recentes. Oxe! Nada disso! Quero edição nova! Então, idealizo o projeto da coleção, com cinco livros do mestre dos contos, imortal da Academia de Letras da Bahia, e acerto de publicá-los pela editora dos irmãos Rosel & Renata Soares, da interiorana Anagé. Hélio topa na hora a proposta e se dedica, em tempo recorde, a revisar todos os livros, em meados de 2012. A querida amiga e produtora Edmilia Barros aceita encabeçar o projeto e o elabora, e a Casarão do Verbo inscreve no edital. Ganhamos, com louvor. Ê, felicidade!
“Mar de Azov” é um dos livros contemplados. Perplexo fiquei após encontrar o grande trecho do mestre do estilo; de toda a sua obra que li, é o que mais me impactou (presente no conto homônimo do livro premiado, que também me influencia):
“O mar é um animal gigantesco que arqueia o dorso, rouqueja e bufa, rosna e geme ao seu lado, a seus pés. As ondas erguem-se a poucos metros em forma de vagas, cavalgadas por manchas de espuma que não tardam a quebrar — e ele tem a impressão de correr à beira de um túmulo líquido que poderá levantar-se de repente em forma de muralha e sepultá-lo.”
Bravo! Impressiona o domínio da linguagem... que estilo! Hélio Pólvora, genial... Lembro, agora, da entrevista da imortal Gerana Damulakis com o mestre, publicada pelo jornal Rascunho em 2012, em que ele afirma: “Uns ganham dinheiro, outros roubam, outros matam, há os que choram. Eu escrevo. Para quem, não sei ao certo. Para um leitor sem rosto. Para um interlocutor que procurei a vida toda — e estava dentro de mim, à espreita”. Posso esticar e dizer que ele escreve para mim, pois a violência, a crueza, o sexo animal, o tédio das relações, os equívocos do bicho ser humano que há em “Massacre no Km 13” encontram ressonância na minha cachola: não estou mais só, porque há a literatura. O mestre responde: “Prefiro a lucidez que me corrói e me dilacera e me engrandece”. E eu leio “Massacre no Km 13”, a peneirar esses trechos sobre Salvador:
“cidade apinhada onde corpos se tocam, se roçam, se esfregam, a cidade altamente grupal, ruas sempre entupidas, suores, mistura, aconchego e agonia, a cidade que só se esvazia quando cai uma chuva forte, de um dia inteiro [...] Então, com as ruas alagadas, transporte escasso, aquela gente toda, brancos, pretos e mulatos, parece desaparecer como por milagre, entrar nas casas e nos apartamentos, sumir como ratos molhados em tocas. [...] Entrei nos apodrecidos intestinos da cidade e me misturei com a merda nas ruas, nas calçadas, nos jardins públicos. Senti o odor forte da urina a céu aberto. Cagalhões nas esquinas, ressequidos ou frescos, regatos de urina lentos a rolar nas manhãs de carnaval.”
Completando a coleção, os livros “Noites vivas” e “Estranhos e assustados”; neste, Hélio fiat lux sagra o alerta:
“Distâncias significam chamados. E ai de quem não os atender: ficará sob forma de pendência, pelo resto da vida, o caminho que não foi trilhado, a chegada que não se consumou.”
Dessa chaga, não sofro; eu sempre atendo ao chamado das distâncias, que é a sincronia operando os percursos da verdade. Assim como me faz agora: devo publicar, como referência do livro “Noites vivas”, esse trecho polêmico (presente no conto “Filho”), que pode afastar leitores da obra de Hélio Pólvora. Devo, porque é o melhor deste livro, um nocaute bem dado, como todo contista que se preze é obrigado a fazer com o seu público. Ou seja, #receba:
“Que é, afinal, um filho?, pergunto à minha braguilha, à cinza do meu cigarro. Um filho, me responde o remoto suco que percorre minhas glândulas, é apenas uma manifestação de orgulho. Nele pretendes realizar o que quiseste ser, mas não foste e que nunca serás. Um filho é uma clamorosa inutilidade. Pões nele o egoísmo de uma permanência na face da Terra, mas dia virá em que ele te olhará de frente e perguntará: por que nasci? Ou, então, concluirá irritado: afinal, eu não pedi para nascer. E assim ele condenará a tua e a sua inutilidade.”
Devoro a “Coleção Hélio Pólvora” entre janeiro e fevereiro de 2014 e a divulgo no meu blog. Eu considero fundamental a leitura dos contos de Hélio para o meu processo como escritor, pois aprendo esse tipo de literatura com ele: a arte em que o estilo é mais importante do que o enredo. A maneira como você escreve é o que interessa. Devo ser um artesão da palavra, o texto do mestre me cobra, sem exigir. Na entrevista com a imortal Gerana, o eterno Hélio ensina: “É lendo que se aprende a escrever, se há vocação. Caso contrário, seria melhor ficar nas leituras ou vender melancia nas feiras. Um escritor de raça pode deflagrar outro”. Relembro o saudoso professor André Setaro, que publicou no seu Facebook em 2013: “Na minha ignara opinião, e sem querer ferir suscetibilidades, o maior escritor vivo da Bahia é Hélio Pólvora, jornalista, tradutor, romancista, com estilo admirável”. Concordo!
2015. A tarde quer se mostrar para a noite na janela do apê 703-B na Pituba, e eu ainda arrumo fôlego para continuar na função de escrever o meu 1º romance (que viria a ser publicado em 2020 como “oroboro baobá”). Depois de criar o orfanato Deus é Grande, bate a indisposição para elaborar os maus-tratos que o então protagonista sofreria por lá. Chega por hoje. Noite. Janto um prato de sopa de verduras batidas e mais duas rodelas de inhame com queijo mussarela e orégano. Logo depois, passo mal. Sinto uma dor no peito que desconheço. Dirijo, sozinho, até a emergência do hospital Cárdio Pulmonar, na Garibaldi. Faço os exames, sou atendido pelo plantonista. Nada consta. Oxe! Melhor assim. Quase onze, volto para o apê 703-B e durmo, sem dor. Que estranho...
Na manhã seguinte, 26 de março, acesso o Facebook via celular e leio uma postagem do poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos lamentando a morte de Hélio, aos 86 anos, de câncer. A dor que eu senti tá explicada: prenúncio da partida do amigo. Repercuto nas redes sociais e penso: é melhor escrever o romance; ele descansou das dores. Ainda pela manhã, o escritor Mayrant Gallo publica uma homenagem no seu blog “Não Leia!”. Peneiro:
“Hélio Pólvora se foi. Desapareceu o homem, calmo, gentil, generoso, sempre com um comentário inteligente e preciso acerca da literatura ou da vida. [...] Vivemos um tempo em que a grosseria e o mau gosto dão o tom das relações e, assim, sentimos mais profundamente quando se vai uma pessoa que era antípoda e adversa a tal tendência. Dois meses atrás, estivemos, Emmanuel Mirdad e eu, na casa de Hélio Pólvora. [...] Tínhamos combinado de promover com ele algumas sessões de cinema, em que assistiríamos a filmes que alternativamente indicaríamos. Hélio seria o primeiro a indicar algum clássico de sua preferência. Mas não foi possível. A vida não deixou. Ou deixou por um fio mais um projeto... Bem, daqui a algum tempo, quando eu também atender ao chamado das estrelas, e igualmente Mirdad, faremos este encontro cinematográfico noutra esfera. E então relembraremos que, neste plano, aqui na Terra, apenas estávamos ensaiando a verdadeira vida.”
Quatro da tarde, vou para a despedida do mestre no cemitério Jardim da Saudade. No caminho do velório ao crematório, sigo ao lado de Mayrant. Vários escritores também estão presentes, como o escritor Carlos Barbosa, autor do romance “Beira de rio, correnteza”, que estou lendo por esses dias. Entre as homenagens no púlpito do crematório, há uma emocionante, proferida pelo gentleman (assim como Hélio) e escritor Aramis Ribeiro Costa, então presidente da Academia de Letras da Bahia (cujo imortal mais importante entrara hoje na imortalidade). Sentado ao lado de Mayrant, estou triste. Desejo em silêncio: vá em paz, meu amigo, meu mestre... luz... Hélio eterno!
A jornalista e poeta Kátia Borges me encomenda um texto em homenagem a ele para a revista Muito, e eu, prontamente, o faço na manhã da sexta, 27 de março. Publicam na edição do Domingo de Páscoa, 05 de abril, com cortes devido ao espaço da folha (a 1ª e única vez em que um texto meu é publicado na Muito). Peneiro (da versão original, publicada depois no meu blog):
“Hélio Pólvora é a minha esfinge. A sua obra, robusta, tem a sacralidade de um ancestral, que exige de mim o respeito ao texto, ao papel que custou uma vida. Quando reviso o que escrevo, é o busto do mestre que aparece e diz: ‘Melhora isso aí, Mirdad, menos, seja mais preciso, encante, baile com as palavras, mas conduza o rumo pela técnica, ironize, cause reflexão, surpresa. Não seja óbvio’. Não é o homem que me diz isso, e sim a obra, tudo que pude aprender em leituras e releituras que fiz e sempre farei.”
Não adaptamos Hélio para o cinema; ainda em 2012, Igor prefere outros projetos. E o mestre morre sem ter essa alegria. Fico devendo ao amigo. O pior: devendo, porque dependi de outras pessoas. Ou seja, é preciso aplicar o do it yourself. Sempre.
“O grito do mar na noite” é um título em homenagem ao mestre do conto, um anagrama formado por “O grito da perdiz”, “Mar de Azov” e “Noites vivas”. Estou em 2014, numa quarta-feira, 28 de maio, e, após voltar de uma sessão de cinema (assistira ao blockbuster descartável “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido”), decido homenagear Hélio: vou dedicar o meu 2º livro de contos (a estreia é “Abrupta sede” em 2010) a ele. Para potencializar o ato, vou inserir epígrafes da sua obra abrindo cada um dos meus contos e modificar o título de “Paranoia umbigo” para “O grito do mar na noite” (anagrama criado no trânsito de volta para casa, pós-cine, a buscar a melhor sonoridade dentre as combinações possíveis dos livros da coleção — nesta mesma noite, o artista visual e músico sergipano Duardo Costa entrega a versão atualizada da marca da Flica, usada a partir da 4ª edição em 2014).
Eu amo “O grito do mar na noite”. Acho um título muito foda! E uma das origens do livro é a formação de uma banda literária. No mesmo março de 2012 em que começo a ler “Melhores contos”, de Hélio, monto o conluio dos escritores Aurélio Schommer (então sócio da Flica e padrinho do “Abrupta sede” — indicou a sua publicação), Victor Mascarenhas, Márcio Matos e Ricardo Cury para produzir o livro “As soteropolitanas”, uma coletânea de contos sobre personagens situadas em Salvador, uma provocação-resposta à coletânea “As baianas”, recém-lançada na época (dentre os escritores desta, Mayrant Gallo, Carlos Barbosa e o futuro curador da Flica, Tom Correia). Daí, em 10 e 14 de abril, escrevo a minha contribuição: “A assexuada de Piatã” (o original de “Assexuada”). E, na quarta 25/4, noite de lançamento do romance de estreia de Adelice Souza (“O homem que sabia a hora de morrer”, título e proposta que admiro, finalista do Prêmio Jabuti 2013), na Biblioteca Central (localizada no bucólico bairro dos Barris, onde moram escritores como Elieser César e Mayrant), os comparsas se reúnem e decidem: agora somos a banda de escritores Os Brás Cubazz (toda a divulgação da coletânea seria com a estética de banda de rock: fotos, vídeos, lançamento em um puteiro com show ao vivo, etc.)! Com isso, abandonamos o título “As soteropolitanas”, para desvincular de “As baianas” e criar algo diferente, que chame atenção. Descartamos os locais de Salvador dos títulos dos contos e o livro teria dois lados como um LP; por isso, os próximos contos seriam novas versões dos cinco primeiros, e os comparsas teriam a liberdade para criar a continuação ou o tempo paralelo ou o passado dos originais. Um sorteio define: Cury vai escrever a versão da minha “Assexuada” (já com o novo nome) e eu vou escrever uma versão lado B para o conto “Boneca”, de Mascarenhas.
As três travestis Laysla Schumacher, Lady Beyoncé e Natalie Dior reclamam da falta de movimento de clientes nas esquinas da Pituba. Mal sabem que é por causa da profissional Andrezza Lamborghini, a monopolizar os desejos da cidade. No conto de Mascarenhas, conhecemos a trágica história dela, que é “uma mulher que finge ser um homem que virou mulher”. Daí, em 12 e 13 de maio, escrevo a minha versão (o original de “Bonecas”), em que só insiro a protagonista dele como uma coadjuvante (trocada posteriormente, quando não deu certo o projeto) e a presença de travestis que trabalham no bairro da Pituba; o restante é criação inédita.
Cury estoura o prazo do seu lado B do meu “Assexuada” e só o envia em julho, alterando a principal característica da minha personagem (que nomeia o conto). Brigamos por e-mail e não houve consenso. Então, informo a minha saída da banda de escritores Os Brás Cubazz, que esfria e acaba sem estrear (para homenagear esse projeto que me engajou, posteriormente, insiro os comparsas e a banda no conto “Assexuada”).
2012 ainda não terminou, estou em novembro, manhã da sexta 23, e, após a 1ª reunião de curadoria para a Flica 2013 com Aurélio, analiso o edital de apoio à publicação de livros por editoras baianas, oferecido pela Fundação Pedro Calmon, e decido reconfigurar o projeto com os comparsas (sem Cury): em vez de uma coletânea de contos + banda de rock, um livro de cada escritor reunidos na coleção “Urbaianos” (também mencionada em “Assexuada”), viabilizada pela editora Via Litterarum (a mesma que publicou “Abrupta sede” em 2010), simples assim. Vou ter que escrever um novo livro de contos para participar do edital.
Batizo o livro de “Pinaúna” (que então nomeava o arquivo de poemas — de volta ao tradicional “Deserto poema”), o ouriço-do-mar que costumava fazer estragos em banhistas na praia da Barra. Os meus dois contos do projeto “Os Brás Cubazz” são os primeiros a formar o original. Daí, reciclo textos publicados no meu blog, das seções “Minimico” (de minicontos como o original de “Aqui se paga”, escrito em 05/07/2011 e publicado como “Minimico #22”), “Diálogo” e “À Face do Livro” (reflexões publicadas no Facebook), escritos entre 2010 e 2011, em novas criações (e apago do blog em seguida). O original de “Não escaparás” reutiliza quatro “minimicos”; já o original de “No palheiro”, recicla cinco “minimicos” e um “Diálogo”. Já a tour de force do conto “Quase onze dias” (cuja proposta do extraordinário que acontece junto ao ordinário a provar que tudo é provisório e descartável nasceu de um estalo que tive — e me encantei com a ideia cuja execução sintetiza o modo como enxergo a vida) reutiliza seis “Diálogos” e três textos reflexivos de “À Face do Livro”.
Escrever o original de “Quase onze dias”, o principal conto (o mais extenso que fiz até hoje) do então “Pinaúna”, suga-me os esforços em pesquisa e criação, um trabalho que me marca e orgulha, e redesperta o Mirdad contista para além do fracasso da 1ª edição de “Abrupta sede”. A feitura de “Quase onze dias” é decisiva para trazer de volta a importância da literatura no meu fazer artístico. Entre 30 de novembro e 09 de dezembro de 2012, levo direto e invisto um pouco mais de 48 horas de trabalho em 09 dias para concluí-lo (só parei no dia 04 para relampejar o financeiro da Flica 2012, favores na rua para mainha, treino de covers de Otto e André Abujamra ao violão e o melhor ensaio da volta da banda Pedradura — logo depois, acabou de novo, sem show algum; não tínhamos grana para pagar os caras do sopro).
O original do xodó “Receba” consome três dias de reciclagem e escrita (entre 10 e 15 de dezembro) e encerra a feitura de “Pinaúna”. A série “Crônicas do Toma Neguinho”, contendo dez posts publicados no meu perfil do Facebook (escritos em 2011 e 2012), em que eu revelava desventuras reais da minha vida de solteiro, sempre a me ferrar em situações de vexame, e que foi o maior “sucesso” de público que tive nas redes sociais (leia-se maior engajamento e comentários — sou uma negação nisso, “desinfluencer”), é reutilizada inteiramente em “Receba”, adaptando as desventuras ao personagem de ficção (que reúne o pior e o melhor de mim e de um monte de homem hétero que conheci na vida).
A meta para o original de “Pinaúna” são 20 contos e mais de 200 páginas. Entretanto, o cansaço de 2012 me acossa e eu só consigo produzir “Pinaúna” com 11 contos e cerca de 150 páginas (invisto quase 69 horas em 17 dias de trabalho, sempre ao som da banda Radiohead e dos músicos David Gilmour e Mark Knopfler). Foda-se! Vai ser inscrito no edital desse jeito. Envio “Pinaúna” para registro na Biblioteca Nacional e disputo o edital com os seguintes contos: “Quase onze dias”, “Sexta-feira, 13 de agosto” (original de “Hoje é sexta-feira 13”, publicado em “Olhos abertos no escuro”), “Receba”, “Aqui se paga”, “Não escaparás”, “Assexuada”, “No palheiro”, “Doamar-se” (transformado em poema e publicado em “Nostalgia da lama”), “Docinho” (original de “Como uma pedra”, publicado em “Olhos abertos no escuro”), “Estranho, hein?” (novo nome de “Boneca”) e “Que seja duro enquanto sempre” (publicado em “Olhos abertos no escuro”).
2013, final de março, é divulgado o resultado do edital e a coleção “Urbaianos”, contendo os livros “Pinaúna”, “Canalhas” (Aurélio Schommer), “Fim de linha” (Victor Mascarenhas) e “Ludovico” (Márcio Matos), que seria publicada pela Via Litterarum, não foi contemplada. Com isso, o projeto foi engavetado, até ser descartado com o tempo. Daí, no domingão de 04 de agosto, após uma tarde de prestação de contas de um projeto no apê dos Barris de Mayrant Gallo (havíamos ganhado o edital da Petrobras e lançado o romance “Os encantos do sol” dele), que propicia reflexões sobre a literatura com o amigo, decido sair da gaveta e botar os meus livros para circular: “Nostalgia da lama”, de poemas, e “Pinaúna”, de contos (à noite, após curtir o showzaço da banda The Cure no Lollapalooza, ao vivo via YouTube, um dos melhores que vi na vida, envio os originais para Mayrant intermediar contato com a editora baiana Kalango — que havia publicado o seu excelente “Cidade singular”).
Dias depois, reúno-me com Dhan Ribeiro e exponho o que considero as minhas vantagens como “produto autor”: por ser o cara da Flica e de futuras festas literárias, bem relacionado no mercado, com acesso à mídia, entre outros baratinos. Então, pré-acertamos a publicação de “Pinaúna” pela Kalango em dezembro, pois o editor ainda tem de avaliar o livro — e ele quer um texto do mestre Hélio para a abertura. Daí, no começo de novembro, ele confirma o interesse em publicar o meu 2º livro de contos. Porém, um mês depois, entrincheirado em um hotel em Porto Alegre (estava a tentar viabilizar a Flican em Canela e viver um amor que só fez me machucar), decido lançá-lo por conta própria e desfaço o acerto com a Kalango; eu vou cuidar dos meus livros, botá-los no mundo via selo da Mirdad Cultura (o mantra do it yourself rege a minha vida). E, no domingo 15/12, de volta à Bahia, modifico o título para “Paranoia umbigo” — este delicioso já nomeou uma das origens do “Abrupta sede” e o repertório do que seria o segundo álbum da Pedradura (que acabou e nem show fez para lançar “Universo Telecoteco”, o primeiro). Assim, “Pinaúna” vai para a lata do lixo, sem gaveta nem panela para virar moqueca. E eu vou cuidar primeiro de lançar “Nostalgia da lama”; a paranoia que espere.
2014, maio, você já sabe que “Paranoia umbigo” deu lugar para “O grito do mar na noite”, que será em homenagem ao mestre Hélio (a paranoia continua engavetada). O que vai saber agora é que retiro do original os contos “Doamar-se” (já virara um poema em “Nostalgia da lama”), “Docinho”, “Que seja duro enquanto sempre” e “Estranho, hein?” (fiquei com medo da presença de travestis afastar leitores) — mais à frente, também descarto “Sexta-feira, 13 de agosto”.
Após a trabalheira de botar a 1ª edição de “Nostalgia da lama” no mundo, a fila dos meus livros só recomeça a andar no meio de agosto. Em nove dias, reviso seis contos feitos em 2012 e escrevo o xodó “Chá de boldo” (feito em quatro horas em 15, 16 e 18 de setembro de 2014), sobre um bisavô que é abandonado pela filha e é obrigado a viver em um asilo, até que ele tem a chance de retribuir a covardia. Aproveito o embalo de orgulho literário que “Chá de boldo” me dá e seleciono as epígrafes de Hélio Pólvora para abrir os contos. Daí, o setembro crucial de logística e pré-produção da Flica força a minha literatura a parar. Aproveito para pedir autorização ao mestre para publicar os seus trechos como epígrafes, que responde: “Caro Mirdad, autorizo, sim, é claro, e com aquela alegria de quem se sente compensado (...) Abraço e parabéns pelo novo rebento”. Generoso, o meu amigo...
Relembro agora os trechos selecionados da obra do mestre Hélio, versão final da 1ª edição de “O grito do mar na noite” publicada em 2015. Para abrir “O banquete”, seleciono do livro “Mar de Azov”:
“Juntem o povo em praça pública e ele gritará qualquer coisa, contra ou a favor, não importa o quê, não importa contra quem. Basta que alguém disfarçado na multidão lance o primeiro brado.”
Do livro “O grito da perdiz” para o conto “Receba”:
“O azul estava em tudo, cercando a gente como água. Apenas a gente, por estar dentro, como num aquário, não percebia o azul. Esse azul somente se adensava e se condensava à distância. A nossa vista, imperfeita para o derredor, para o cerco íntimo do azul, torna-se perfeita, aguda, ferina, quando se trata de varar distâncias.”
Mergulho no “Mar de Azov” para introduzir “Aqui se paga”:
“Na rua, sozinho. ‘Largado por todos na rua’, pensou. No olho da rua, como se dizia. No cu do mundo. ‘Estou órfão’, disse uma voz medrosa, no fundo de sua consciência, que ele reconheceu como sua. ‘De agora em diante, conto comigo mesmo, eu no meio do mundo.’ Para onde ir?”
Não escapo de passear pelo livro “Noites vivas” e iluminar a abertura de “Não escaparás” com:
“Sentia próxima a morte — e, no arrependimento da morte, uma lágrima assomou à superfície do olho e despencou, em sulco tremido, pela cara enfezada.”
Busco a ironia do mestre no livro “O grito da perdiz” para apimentar “Assexuada”:
“‘A fidelidade é invenção do ciúme, que, por sua vez, transforma o outro, o parceiro, em objeto de posse.’ Ficaram em silêncio, até ele perguntar: ‘Quer dizer que você não sente fidelidade por mim?’ E Luzinete: ‘Enquanto gostar de você, serei fiel’.”
Ainda passeando por “Noites vivas”, abro “Bonecas” assim:
“Tenho o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia.”
E, para encerrar “O grito do mar na noite” com “Quase onze dias”, visito “O grito da perdiz” e peneiro:
“Um caminho será sempre um convite; mais que isso: chamado, instigação. Caminhos e rios se parecem: existem para desafiar estados de repouso e indiferença e significam, na sua contínua fluência, a certeza de que as rotas prosseguem para o desconhecido.”
Já mencionados nesta página de memórias, os trechos “Um filho é uma clamorosa inutilidade...” (“Chá de boldo”), “Só acaba o amor que não há...” (“Sol de abril”) e “O mar é um animal gigantesco...” (“No palheiro”) concluem a seleção campeã do mestre Hélio Pólvora. E, de volta a setembro de 2014, encomendo de Mayrant um posfácio para “O grito do mar na noite”, que responde: “Mirdad, já comecei a escrever o posfácio. A primeira parte, teórica, e totalizando uma página e meia de Word, já está pronta. Vou começar agora o exame dos contos. (...) Reveja a revisão, encontrei alguns probleminhas nos dois contos que já li”. Boa! Pego o bonde e acerto também com o professor a revisão da obra (ele me entrega o posfácio em 06 de novembro, e a minha resposta é: “Mayrant, meu amigo, que alegria!! Estou tão feliz que me faltam palavras e só me resta te agradecer profundamente. Que honra, que honra! Valeu demais, muito bom, como fã, amigo, discípulo, um presente incrível que você me deu. Gratíssimo!”).
É véspera do meu aniversário, manhã de uma segunda, 06 de outubro. No escritório de Mayrant, em frente à Praça da Piedade, centro de Salvador, começamos o processo de revisão editorial de “O grito do mar na noite” (um serviço que contrato do amigo, que cobra um preço camarada). Eu, ao tablet, leio em voz alta tudo que escrevi. Ele, ao computador, pausa a leitura para comentar problemas que identifica. É a cirurgia do texto: estirado na mesa, abro o conto a bisturi e o professor aponta onde ou como operar. Sigo, fascinado, compreendendo os caminhos da minha linguagem artística como escritor.
Trabalhamos por quase quatro horas sem parar e revisamos os contos “Chá de boldo”, “Aqui se paga” e “Não escaparás”. E uma revolução acontece em mim: o professor Mayrant me faz entender como enxergar o texto, captar as suas nuances, encontrar os seus defeitos. Na real, um aulão de como ser um editor. E esse método passa a ser meu; mais à frente, faço a revisão editorial de livros de muitos escritores, como Jovina Souza, Wesley Correia, Ricardo Cury, etc. “Vou aprender a ler, para ensinar os meus camaradas”, sintetiza o poeta Capinam no samba do santamarense Roberto Mendes, “Massemba”, eternizado pela diva Bethânia.
De volta à Pituba, apê 703-B, noite de véspera dos 34 anos. Deito na cama. Estou satisfeito. Que sensação de liberdade... Finalmente, valorizo a minha literatura e afirmo: eu sou escritor! Sim, eu sou um escritor. Estou em paz. E voraz para investir nessa carreira. Afinal, “meu mundo era o eco dos meus passos sobre caminhos novos” (Mayrant no livro “Três infâncias”).
Ao todo, são sete sessões com o professor e sete contos revisados. Um aprendizado para a vida, um dos melhores presentes que já comprei. Por isso, ao me conduzir para a autoafirmação de que sou escritor, ao validar a minha vontade de investir nessa carreira, Mayrant Gallo oferece um presente que possibilita a existência do meu romance “oroboro baobá” (e todos os demais livros que lancei e os que ainda virão). O meu destino muda, embora continue o mesmo.
Após coordenar a realização da 4ª edição da Flica (que, por causa das eleições, terminou em 02 de novembro, excepcionalmente), retomo os trabalhos com “O grito do mar na noite” (com a seguinte ordem e quantidade de contos: “Chá de boldo”, “Quase onze dias”, “Aqui se paga”, “Receba”, “Não escaparás”, “No palheiro” e “Assexuada”) até enviá-lo, ainda em novembro, para a mesma gráfica que imprimiu a 1ª edição de “Nostalgia da lama”. Assim como este, eu pretendia uma tiragem de capa dura, com design semelhante, saindo com a marca da Cousa — tudo financiado e coordenado por mim (a editora capixaba só emprestou o selo, na camaradagem, porque eu me recusei a lançar uma “edição do autor”; achava, na época, que desprestigiava o livro) — e uma pintura do cruzalmense Nelson Magalhães Filho. Pretendia. Porém, a empresa me envia uma boneca cheia de defeito e se recusa a atender ao pedido. Como não consigo outra gráfica com preço acessível, sou forçado a desistir da capa dura, adiando o lançamento. PQP!
O pós da Flica 2014 dá uma sossegada... bora retomar a escrita? Nada! “Sempre preferi as mulheres às expressões de virilidade em meio aos homens (...) Ainda hoje não troco um corpo de mulher por uma partida de futebol”, constata Mayrant, no seu pequenino livro de contos “Dizer adeus”. Mais prioritário que a literatura é o desejo de viver um romance com a morena que passou comigo o final de semana da Flica em Cachoeira. Pfff... Querer não é poder. A bela me dá um zig, some e me deixa no vácuo: fico numa fossa daquelas em pleno feriado da República. Resultado: acordo PUTO no domingo e, drástico, decido: “Desisto de ser romancista. Eu sou contista!”.
A raiva do zig me serve como um “sacode poeira”: abandono o projeto de escrever novas partes de “Muralha” (versão dessa época de “oroboro baobá”) e transformo o material já escrito em conto; situado num embalo bom como contista (afirmei-me “eu sou escritor” graças a “O grito do mar na noite”), crio um novo projeto de livro, a ser lançado na sequência do grito. E não é que um ghosting tem as suas vantagens?
Não quero “Muralha” no título do livro, apenas no conto, e modifico a obra para “Paisagem da insônia”, peneirado da frase “Brasília é paisagem da insônia”, presente na crônica “Nos primeiros começos de Brasília” (20/06/1970), da mestra Clarice Lispector, publicado no livraço “A descoberta do mundo” (na minha cabeceira de junho a setembro de 2014, releitura de muito prazer dessa obra-prima do meu pódio). Eu, que raríssimas vezes avistei essa paisagem, pois durmo como uma pedra.
“Paisagem da insônia” toma a dianteira da fila: reúno material para o seu original. No Dia da Consciência Negra, retomo o conto “Estranho, hein?”, descartado de “O grito do mar na noite”. Não há mais medo de preconceito alheio; tenho orgulho desse filho, reviso o texto e modifico o título para o definitivo “Bonecas”. Daí, breve pausa para o pós da Flica e outros trabalhos, enquanto recomeço na natação (20 anos depois, de volta ao clube Asbac, na Pituba) em vez de malhar (enchi o saco de academia) e curto um affair safadinho “a fila anda”. Dezembro chega, estou de volta à função, acabou o arquivo, é preciso escrever novos contos. Eis que se aproxima a data sertaneja de nascimento do Gonzagão e da morte do meu amado pai forrozeiro poeta-filósofo sergipano Ildegardo Rosa... Quero homenagear o meu Mestre Dedé, o forró, Gonzagão e o belíssimo & triste-blues xote “Assum Preto”. Assim, na véspera do 13 de dezembro, começo a escrever “Sol de abril”, com a tragédia da sanfoneira caolha — finalizo o conto-homenagem em três dias, 12, 14 e 15 de dezembro, e se torna um xodó, mesmo trágico.
Não me lembro qual é a inspiração, donde brota a ideia, mas logo me empolgo com a proposta do opressor que é oprimido e o oprimido que pratica a opressão. Antes de escrever, boto numa folha a lista de personagens e elaboro as conexões de quem oprime e por quem é oprimido para não me perder. Preparo os ingredientes e, entre os dias 15 e 18 de dezembro, para encerrar 2014 em grande estilo, cozinho “O banquete” (o último conto de “O grito do mar na noite” a ser feito), um xodó cinematográfico que ainda vou ver nas telas pelo mundo.
Após vivenciar a cerimônia de espalhar as cinzas do meu pai na Baía de Todos os Santos, com a Igreja do Bonfim ao longe (o poeta queria ser vento, e não pedra; ao assoprá-lo, realizei a sua vontade, junto com mãe e irmã Tita — por ter sido considerado vítima de acidente de trânsito, tivemos que esperar três anos para poder cremá-lo; como ele queria), começo a reler os livros do amigo Mayrant, que vai fazer a revisão editorial de “Paisagem da insônia”. Tô no céu com a literatura! Daí, no feriado de 25 de dezembro, modifico o título do livro para “O céu de sombras ao vento”, um anagrama em homenagem ao poeta Ruy Espinheira Filho (decido homenageá-lo no livro como fiz com o mestre Hélio) — o belo “Paisagem da insônia” vaza direto para o túmulo dos arquivos. A literatura pulsa tanto que até penso em escrever uma coleção de livros de contos — decido que um deles será dedicado a Mayrant (“Olhos abertos no escuro” confirma isso).
Não posso encerrar 2014 sem falar do feedback do homenageado de “O grito do mar na noite”. No mesmo dia em que começo a escrever “Sol de abril” (que ele não pôde ler), envio para o amigo a versão com sete contos, PDF editado que fora à gráfica. O generoso abençoa: “Amigo Mirdad, creio que agora você abraçou a literatura. Foi seduzido e oferece o segundo rebento. Ótimo, dá sentido à vida. Agradeço muito a dedicatória, as citações, e vou ler os contos nesta próxima semana”. E o mestre leu e retornou em 22/12:
“Caro Mirdad, desejo Paz, Amor e Resistência máxima em 2015. Em geral, os ficcionistas escrevem sobre o passado. Ou então sobre incidentes que, mal pinga o ponto final, acabam de passar. Pois bem: você tem o dom, em O grito do mar na noite, de seguir passo a passo com a Realidade. Isso me parece uma trilha nova. E aberta com linguagem concisa, direta, sem falsos pudores. Resumo aqui, no ‘gostei’, minha reação de velho leitor. Sem querer desmerecer de Márcio [Matos, que escreveu o prefácio que virou orelha, ao fim], que leva muito jeito, acho que o texto do Mayrant devia sair do posfácio e preceder os contos. Grande abraço, Hélio.”
2015. O monstro raivoso do terrorismo arranca da civilização o cartunista Wolinski, assassinado no massacre do jornal Charlie Hebdo, inverno parisiense, 07 de janeiro. Por dias, nas redes, compartilho obras do gênio francês, nascido na Tunísia, que foram publicadas pela piauí. Lá fora, o sol torra a superfície do Brasil. É verão de janeiro na Bahia, e eu e Mayrant, à sombra do Skype, revisamos os contos do novo livro (o professor elogia “Bonecas”, como eu consegui dar veracidade sem ter experiência real com os personagens e o enredo, algo que faz a carreira de escritor sedutora: a capacidade de criar mundos sem limites nem amarras). Daí, no entardecer da sexta, 09 de janeiro, eu e Mayrant nos encontramos com o mestre Hélio no playground do Portão do Mar, no Corredor da Vitória, em Salvador; “conversamos sobre literatura e cinema, ele nos indicou autores e livros, recomendou que não deixássemos de ler o Nobel de Literatura Orhan Pamuk, especialmente Meu nome é vermelho, e depois fizemos três fotos” (conforme Mayrant descreveu no seu blog). É a última vez que vejo Hélio vivo; ele me diz que gosta do esboço de um conto e sugere que o transforme num romance. Concordo, mestre! Será o meu último: “A família K”.
“Minha mãe me chama, é hora do almoço”, o cantador Belchior avisa, o rango está posto na mesa do apê 703-B, e a minha fome é outra: como é que vou homenagear um mestre da poesia numa obra de contos? Xô, incoerência: desisto do amigo Ruy Espinheira Filho e modifico o título do livro para “Muralha & outras histórias” (em 2018, reciclo “O céu de sombras ao vento” numa antologia de poemas para tradução, que acaba sendo reinterpretado como “Wuthering Sky” pela tradutora Sabrina Gledhill — publico no blog em 2022 e retiro do ar em 2024).
Estou próximo de Mayrant nesses tempos e me torno autor da Labirinto & Escritório, pequena editora lançada por ele e pela escritora Lidiane Nunes; combinamos a publicação de “O grito do mar na noite” por ela (prefiro arrumar um parceiro para dividir os trabalhos e dispenso o favor da marca da Cousa). Entretanto... sexta-feira 13 de Carnaval, todo o trabalho desenvolvido com a Labirinto & Escritório no processo do livro naufraga: via e-mail, brigo com Mayrant. Que tristeza... Na semana seguinte, ele e a sócia Lidiane desistem da publicação. Adiós, parceria... E “O grito do mar na noite” tá sem rumo de novo, até que, no último dia de fevereiro, acerto com a Via Litterarum, que publicara “Abrupta sede” em 2010 — o incansável Agenor Gasparetto resolve bancar a edição sozinho. E o fim da parceria com Mayrant implode o outro livro programado: adiós, “Muralha & outras histórias”. Então, após a confirmação do patrocínio da Oi para a Flica 2015 (aprovamos a festa mais uma vez no edital nacional do Oi Futuro), transfiro os contos “Sol de abril”, “O banquete” e “Bonecas” para “O grito do mar na noite” e passo a considerar “Muralha...” um livro à parte. Vira-vira no giramundo...
Estou em março de 2015. Com casa nova, troco a capa: adiós à bela pintura do cruzalmense Nelson Magalhães Filho. Como sugestão para a editora, envio a foto do comparsa Theu Cerqueira (que a cede gratuitamente, na camaradagem total), de imediato aprovada — convenhamos, é uma fotaça, linda e poética (nessa época, eu era fã dos registros dessa figuraça do cenário cultural baiano, publicados nas suas redes). Tratamos rapidamente de todos os trâmites e a Via Litterarum manda a gráfica rodar a tiragem de 100 livros. A merda: os exemplares chegam com defeito e somos obrigados a adiar o lançamento, um vexame que não afetou a divulgação (adiamento com antecedência, ufa!). Ao menos, encontro erros que são corrigidos.
Escrevo a 1ª edição do livro “O grito do mar na noite” (com 10 contos nesta ordem: “Chá de boldo”, “Sol de abril”, “O banquete”, “Receba”, “Aqui se paga”, “No palheiro”, “Não escaparás”, “Assexuada”, “Bonecas” e “Quase onze dias”) ao som da banda islandesa Sigur Rós e também Radiohead, Pink Floyd, Placebo, David Gilmour, Mark Knopfler, Culture e Israel Vibration. Lanço-a pela Via Litterarum no bar & restaurante Confraria do França, no Rio Vermelho, Salvador-Bahia, no último dia de junho de 2015, dedicada ao mestre do conto Hélio Pólvora, com trechos da sua obra abrindo cada um dos contos. Trabalho como assessor de imprensa do lançamento, e o resultado é excelente (muito pelo mérito de ser então sócio & coordenador geral da Flica): uma página inteira do jornal Correio, matéria no A Tarde, G1, programas TVE Revista e Soterópolis, Educadora FM... Massa! O lança vai bombar! Quiii.... Apenas uma pessoa vai ao evento por conta da divulgação; só ela é desconhecida (uma gaúcha), todos os demais são escritores, amigos (emociono-me com a presença de Maria Pólvora, viúva do mestre Hélio, representando o saudoso amigo), mainha, família, namorica, sogrica... Onde estão os leitores?
Relembro o posfácio de Mayrant, que ensina:
“Eu posso abominar o estilo de um determinado autor, mas devo reconhecer a sua maestria, se ele a possui, bem como a sua importância para a literatura de seu país e, talvez, do mundo. Além do mais, nem toda história é atraente e imprescindível para qualquer pessoa. É natural, de minha parte, que eu despreze alguns temas e estime outros. Por mais plural que eu me queira, sou um. Faço minhas escolhas, tenho minhas predileções. Portanto, é fundamental observar num conto não somente a trama, mas o como o entrecho se desenvolve, de modo que, mesmo que não apreciemos a história, possamos destacar o seu valor enquanto forma, habilidade do autor em construir o meio pelo qual a história chega até nós, retém nossos sentidos e espicaça ou rechaça a nossa imaginação.”
E ele espicaça mais:
“A tarefa do contista é árdua: requer talento, vontade, imaginação, leituras, habilidade com as palavras e constante deslocamento de ponto de vista; ser muitos em um só. (...) Não se repetir não é defeito, é mérito, pois, por mais que o mundo sugira o contrário, com seus vazios apelos culturais, a literatura é uma arte (...) o autor é sempre o mesmo, mas o narrador, não (...) o leitor que espera a repetição é o infantil (confinado à infância), que pretende reproduzir a experiência anterior, que lhe foi avassaladora (o reconhecimento de Cinderela, por exemplo), ou o leitor consumista, que prefere, por economia de esforço e imaginação, ‘ler mais do mesmo’. É este, aliás, quem alimenta os livros escritos pelo gosto de época ou pela moda, que dificilmente duram mais que dois ou três verões. Os apressados coelhos sempre recorrentes. Com efeito, os melhores escritores são os do ‘tipo tartaruga’.”
Bravo, professor! E o nosso amigo escritor Carlos Barbosa comenta o livro no seu blog “Minicontos” em 21 de junho, a divulgar o lançamento (preciso marcar que o evento e os exemplares foram todos bancados pela Via Litterarum). Um trecho:
“São dez contos reunidos no livro, dez viagens tormentosas, dez estalidos morais, a se multiplicarem pela sensibilidade do leitor. Narrativas hodiernas, prenhes de agitação e desvãos. Personagens que brotam das baladas, da malhação e do estupor da madeira antiga emoldurada pelo cristal líquido. O que rasga o ventre da noite é mais que um grito. Nada mais violento que o abandono familiar, nada mais cruel que o tédio no batidão, nada mais triste que o sexo como solução final, nada mais excitante que uma existência dupla. A dor no final do percurso, a morte no outro lado da linha, o poste a ser beijado na madrugada. (...) aqui nesta Soterópolis, reinam todos os circos e palhaços e assassinos, de todos os muitos sexos. Mirdad os reúne em seu livro e revela em detalhes seus fragorosos destinos, nem sempre tristes, nem sempre melancólicos, nem sempre gozosos. Mas sempre como um grito que o vento frio nos traz do mar no meio da noite.”
Em 23 de julho, o jornalista Daniel Mendes publica “A pólvora no mar de Mirdad” na revista Trupe (hoje, fora do ar). Peneiro um trecho sobre o conto “O banquete”:
“Mirdad se aproxima de uma narrativa cinematográfica, criando uma série de contrastes de enquadramentos e pontos de vista que aguça o instinto de justiça do leitor e, ao mesmo tempo, provoca-o com as constantes quebras de expectativas e questionamentos realizados nas histórias sobre diversos tipos urbanos. O autor expõe várias verdades que a sociedade hipócrita varre para baixo do tapete. Ele coloca o ‘dedo na ferida’ sem eufemismos para criar no leitor uma espécie de autorreflexão sobre acontecimentos grotescos e comuns no dia a dia, como: a homofobia, o ódio sulista contra nordestinos, o racismo, dentre outras barbaridades cotidianas. Ao evidenciar como podemos ser herói e vilão em uma mesma história, a depender do ponto de vista de quem julga, o autor provoca mais uma ‘explosão’ em nossas vistas: a da complexidade de se viver em sociedade.”
Em 15 de dezembro, o poeta e crítico Silvério Duque publica a crítica “A tragédia nossa de cada dia” no seu blog, um belo textão-presente de fim de ano. Um resumo (do meu agrado):
“Emmanuel Mirdad, a meu ver, consegue, de fato, livrar-se do trivial e se aprofundar, verdadeiramente, em três de suas narrativas: ‘Chá de boldo’, ‘Sol de abril’ e ‘Aqui se paga’. Um homem que aceita a mulher caolha após ter sido violentada e, em seu ato, bem como na dor de sua companheira, ver revelar-se toda a beleza para além das meras aparências, ou um velho, outrora abandonado pela filha, dedica-se com todas as suas mirradas forças a cuidar de sua antiga algoz, não representam uma mera luta contra sentimentos pessoais, das quais estão cheíssimas as narrativas de nossa atual literatura, o que, no mínimo, seria sinônimo de um moralismo oco; ao contrário, vemos nesses exemplos a escolha por um bem maior e pelo real dever que lhe cabem como verdadeiro amante, como pai, como seres humanos. Isso seria, nada mais nada menos, a real diferença entre a verdadeira moral e uma caricatura ordinária de moralidade; entre a real profundeza que esperamos de um escritor e a mesmice banal de quem apenas observa o cotidiano sem nada dele tirar e, muitas vezes, sem lhe arranhar direito a própria casca.
(...)
Um elemento muito importante e inegável por qualquer um que leia os contos de Emmanuel Mirdad, mantido ao longo de todo o livro, é seu efeito surpresa; a radical mudança que situações extremas possuem em suas histórias, e o conto ‘O banquete’ é, certamente, o que mais se utilizará desse recurso. É mesmo ‘de oito a oitenta’, como se diz no jargão popular daqui da Bahia, que mudanças radicais e inesperadas se dão em suas narrativas, proporcionando não só um efeito estético proveitoso, fazendo valer, entre tantas coisas, aquela situação em que o leitor sente-se abobado e se desfruta de tal sensação. (...) A melhor parte desse efeito é quando um amor que um dia se mostrou puro, se conclui através de um estupro, quando a dor e a raiva de um abandono são devolvidas com o cuidado extremoso de um velho pai, ou uma palavra cruel tem, na morte, pagamento certeiro e sem troco, obrigando-nos a refletir, a repensar tudo a nossa volta; o que temos, o que nos falta e, principalmente, o que perdemos. (...) há, em ‘O grito do mar na noite’, histórias bem construídas, verossímeis e, ironicamente, seu maior trunfo e defeitos se encontram em sua linguagem e na maneira de como ela é construída.”
Giramundo, fevereiro de 2016, o editor Rogério Pereira, do jornal literário Rascunho, um dos mais importantes do país, solicita-me o contato da Via Litterarum. Resultado: na edição de abril, nº 192, o Rascunho publica “O grito íntimo na vastidão”, a resenha de Clayton de Souza. Yeba! Mãe, tô no Rascunho! Com página inteira e fotona de Sarah Fernandes (do ensaio que fiz com ela para a divulgação de “Olhos abertos no escuro”). Pense numa alegria... Bom demais deixar de ser invisível! Mais um silêncio rompido, ufa! Um recorte da análise de Clayton:
“(...) percebe-se um traço característico desse universo ficcional concebido pelo autor: os gestos nobres, a boa índole de um personagem nada mais são que simples elementos sem qualquer distinção dos demais que compõem a realidade: a depravação, a perversidade, a falsídia. (...) Em alguns casos, um gesto humano e fraternal torna-se mero capricho ou uma excentricidade, em uma natureza viciosa e corrompida. (...) há uma inversão de perspectivas realmente interessante em seus desfechos, recurso muito recorrente na prosa de Mirdad (...) temos na obra um autor mais preocupado em contar suas histórias, e estas, em sua dramaticidade, exercem bem o papel de envolver o leitor. Não se fica indiferente a seus dramas, e a forma com a qual são conduzidos é eficiente e segura.”
Fico tão grato que me torno assinante do jornal (a gratidão dura até meados de 2019). E o escritor e filósofo Saulo Dourado comenta livros baianos de contos no seu blog “Lerá o Benedito”, postagem de 05 de junho; “O grito do mar na noite” tá no bolo:
“Mirdad descreve bem aquele burguês típico e contemporâneo, menos saloon e mais baladas. Tanto que a história que mais me prendeu foi ‘Bonecas’, conto sobre um playboy típico com dúvidas de sexualidade. (...) Há tipos bem trabalhados: aqueles tantos de ‘O banquete’ que se cruzam e se intervêm. A ‘Assexuada’ também me pega, e o violentador de ‘Sol de abril’ não — o tempo de sua mudança não entra no arco dramático. (...) Aí está, e me faz querer ler, enfim, Hélio Pólvora.”
Está certo que o posfácio de Mayrant é um texto primoroso e elogiado pelo mestre Hélio. Porém, não posso deixar de citar “Sobre pugilatos e capitulações”, a orelha do escritor Márcio Matos (ex-Os Brás Cubazz) para o livro (originalmente prefácio), outro presente que ganhei na vida literária. Aos 45 do 2º tempo, peneiro:
“Na opção pelo caos da não-linearidade, (...) [seus] contos não têm acúmulos, as frases são coloquiais, diretas, o ritmo é frenético. O leitor que preencha os vazios da narrativa com seus próprios vieses cognitivos. O essencial está exposto no texto, o mais são nuvens, inferências (...) Mirdad move-se pelo ringue na certeira intenção de deixar o leitor tonto e, quando este baixa a guarda, aplica-lhe o golpe fatal (...) No equilíbrio entre o que se mostra e o que fica subentendido, Mirdad vai tecendo um agudo painel das relações humanas, sobretudo afetivas, nas quais homens e mulheres expõem suas fraquezas ante a banalidade da vida e do tempo. (...) Mirdad cita ícones do momento e brinca com a antítese passado-presente, demonstrando que os grandes feitos inserem-se na trivialidade do dia a dia (mesmo a hedionda trivialidade dos crimes passionais). O homem comum e ‘real’, escritor-narrador, citado inúmeras vezes pela metalinguagem dos seus contos, é o grande artífice da história e, de resto, da própria literatura.”
Por fim, em 2018, o músico Pedro Paula, ex-colega da Facom-UFBA, comenta sobre o conto “Sol de abril”, da cabocla Lourdes, a sanfoneira caolha:
“Esta semana li o conto da Caolha. Achei que acertou no tom: a parte previsível, que remete aos clichês dos injustiçados, consegue prender o leitor ao remeter àquilo que já lemos, é um pouco carregada; enquanto a parte surpreendente da trama foi apresentada de forma mais seca, deixando que as conclusões sobre estes fatos inusitados fiquem por conta do leitor. Admiro escritores que conseguem utilizar na trama aquilo que não está escrito, que é completado pelo leitor. Desta forma, conseguiu transitar entre o tênue limiar da comoção e pieguice com desenvoltura, a leitura é fluida. Parabéns pelo seu empenho, nosso professor de estética da arte ficaria orgulhoso de você!”
Ô livrim que me deu alegrias! Viva “O grito do mar na noite”, meu xodó! E o ostracismo impõe a sua sina: continuo um autor desconhecido, sem repercussão, apunhalado pelos mortais 17 autógrafos dados no lançamento seguinte com “Olhos abertos no escuro”. Giramundo, 2017, procurando o que fazer após concluir mais uma versão de “oroboro baobá” (chamado de “Miwa” na época), decido resgatar os contos da 1ª edição de “Abrupta sede” que não foram selecionados e reformulados na leva da 1ª edição de “Olhos abertos no escuro”. Estou numa segunda, 21 de agosto, tão empolgado com a minha literatura de volta aos contos que penso além: vou reuni-los numa “obra completa”, toda revista e reescrita. Porém, vou arrumar primeiro os poemas. E, em setembro, o estalo da refazenda acontece: eu quero ser lido também depois de morto, não quero ficar “fora de catálogo”, que se dane o livro (ninguém valoriza, é caro para ser produzido e não vende, e você ainda recebe míseros 10% pelo trabalho todo que teve de fazer, sustentando a editora e a livraria), o meu compromisso é com a obra; por isso, os meus livros serão editados por mim, com os PDFs disponibilizados para download gratuito no meu blog, para que a obra permaneça acessível enquanto o Google existir, para além da minha morte, das decisões de herdeiros ou do desinteresse de editoras.
Após aprontar a poesia completa em “Quem se habilita a colorir o vazio?” e lançar o livro virtual no meu niver de 37 anos, leio todos os trechos selecionados de “O grito do mar na noite” e “Olhos abertos no escuro” para encontrar o título da “obra completa”. Saca só o balaio, dividido em três categorias:
1) Irônicos: “Não há o que não seja óbvio”, “Todo mundo produz e ninguém é plateia”, “A invisibilidade do ser comum”, “A curiosidade faminta por tragédias”, “Como se fosse possível fugir do que sufoca”, “O movimento das conversas inúteis” e “O limbo dos clichês imperdoáveis”.
2) Poéticos: “Alagado pela madrugada”, “O irremediável encontro com o gume do fim”, “O astronauta da sincronia”, “A microscópica paciência”, “Contrariando a gravidade que nos reduz”, “Indivíduo fadado ao esquecimento” e “O infortúnio definidor das chagas vitalícias”.
3) Acadêmicos: “O padrão avassalador da invisibilidade”, “A estafante e repetitiva rotina da mísera existência banal” e “Os contornos superficiais das relações humanas”.
Flerto com várias opções até decidir por “O limbo dos clichês imperdoáveis”, extraído do conto “No palheiro”, página 74 da 1ª edição de “O grito do mar na noite”. Sigo a minha sina em 2018, na fase de escritor não remunerado, a editar os meus livros. O trampo: revisar e concluir o texto, editorar o PDF, gerar as imagens de cada página e fazer o upload nas redes sociais (no meu blog e Facebook), além de disponibilizar para download via Google Drive. Do sábado 24 de fevereiro até o final de maio, dedico 79 dias à obra “O limbo dos clichês imperdoáveis” em 2018, todos no apê 703-B. Os contos lançados em “Abrupta sede”, “O grito do mar na noite” e “Olhos abertos no escuro” são reescritos, revistos, revisados e finalizados. Estabeleço a meta de 28 de maio para o lançamento e me dedico de maneira extrema, virando domingo a domingo, para preparar todo o material a tempo (solteiro, entre março e maio só transei uma vez, fui quase um eremita; não saí para nenhum forró no último mês, não fiz festa, perdi a paquera para outro e quase quebrei no penúltimo domingo, com uma dor de cabeça brutal e muito cansaço).
A literatura não me mata. E me dá o que eu peço: na segunda, 21 de maio, considero o original pronto, com 60 contos que produzi durante 18 anos (2000 a 2018) e o investimento de 365 dias de trabalho. Faço um post no Facebook para comemorar e lanço “já posso brincar de dizer que, dos 37 que tenho, dediquei 1 ano a você”. Pfff... Mas como é forçada essa efeméride! 1 ano de dedicação fracionada em vários anos? Presepada, binho. Penso: será que nalguma vez conseguirei investir 365 dias sequenciais numa produção literária? Sem importar feriado, viagem, doença, festa, trabalho remunerado, aniversário, consumo de outras artes, relacionamento, praia, compromisso com família, desemprego, falta de luz, despejo, etc. Aí sim, seria um real “dos XX anos que eu tenho, dediquei 1 ano a você”. Hum... Vou tentar.
Lanço, virtualmente, “O limbo dos clichês imperdoáveis” às 18h de 28 de maio de 2018, uma segunda. Como nos outros livros do it yourself, a capa é da fotógrafa e designer Sarah Fernandes (e os flyers de divulgação também), baseada numa foto sua, tirada no quintal da casa da avó em Lagarto, Sergipe. Estimo que “O limbo dos clichês imperdoáveis” tenha me custado o investimento de pouco mais de 90 mil reais (em horas de serviço), um valor que nunca recuperarei — o prazer é a obra pronta. Resumo: se só puder ler um conto meu, indico “Chá de boldo”; sacanear macho, “Bonecas” e “Receba”; adaptar, “O banquete”; e se quiser putaria, “A proposta”. Daí... como nos outros livros do it yourself, apago os posts e retiro o conteúdo das minhas redes por conta de nova refazenda (deixo apenas um PDF genérico contendo os 60 contos, sem editoração, enquanto não sou publicado).
Giramundo, 2024, sinto falta de ter novas edições impressas dos meus livros em mãos para vender ou dar de presente a pessoas que se surpreendem com um “você é escritor?”. Que o livro impresso não se dane mais! Vou preparar as novas edições de cada obra que lancei. Então, depois de produzir a 2ª edição de “Quem se habilita a colorir o vazio?”, desmembro “O limbo dos clichês imperdoáveis” em novas edições dos meus três mosquiteiros de contos. O trabalho no novo “O grito do mar na noite” dura 28 horas e 30 minutos em 10 dias, investidas entre maio + julho e agosto de 2024, em que reviso editorialmente todos os contos, Acácia Melo Magalhães faz a última revisão (paga por mim) e eu reviso a revisão, finalizando os percursos dos contos.
2026, janeiro de verão baiano, decido retomar o projeto das novas edições. Os originais estão prontos desde 2024, engavetados por conta do 2025 exclusivo para os eventos da Mirdad Cultura. Após concluir o original e o PDF editorado das novas edições dos livros “Nostalgia da lama” e “Abrupta sede”, invisto o março de mais uma guerra dos EUA contra o mundo (com todo ódio possível contra os sionistas do Israel genocida) para editorar a 2ª edição de “O grito do mar na noite” (e organizar & escrever esta página interminável de dados & memórias), em que decido não publicar o posfácio incrível de Mayrant Gallo nem a orelha de Márcio Matos, uma opção editorial que padroniza as novas edições (sem a presença de outros além do autor).
Comparando as duas edições de “O grito do mar na noite”, mantenho os mesmos 10 contos da 1ª edição e os seus títulos. Porém, a 2ª edição traz uma nova ordem, a refletir a minha preferência dos contos ― apenas a abertura com “Chá de boldo”, o encerramento com “Quase onze dias” e o meeiro com “No palheiro” são mantidos (e a combinação “O banquete” seguido de “Receba”, vinda uma posição mais cedo).
Dos livros lidos em 2010 e 2011, quando escrevi as postagens no Facebook e das séries do blog “Minimico”, “Diálogo”, “Toma Neguinho” e “À Face do Livro” (alguns textos foram reutilizados em “Quase onze dias”, “No palheiro”, “Não escaparás” e “Receba”, além da produção do original de “Aqui se paga”), são estes os que eu considero como os mais importantes para a minha formação como leitor e escritor: o livro de minicontos “Nem mesmo os passarinhos tristes”, de Mayrant Gallo; os romances “Pornopopeia” e “Tanto faz & Abacaxi”, de Reinaldo Moraes, e “Perto do coração selvagem”, de Clarice Lispector; os livros de contos “Três infâncias”, de Mayrant Gallo, “Umidade”, de Reinaldo Moraes, e “Retratos imorais”, de Ronaldo Correia de Brito; as biografias “Clarice, uma biografia”, de Benjamin Moser, e “Led Zeppelin — Quando os gigantes caminhavam sobre a Terra”, de Mick Wall; o livro de poemas “Em alguma parte alguma”, de Ferreira Gullar; a HQ “Camelot 3000”, de Mike W. Barr e Brian Bolland; e os ensaios de André Setaro em “Escritos sobre cinema: Trilogia de um tempo crítico”.
Dos livros lidos durante o processo de feitura do original “Pinaúna” (sete dos 11 contos são os originais desta edição), em novembro e dezembro de 2012 (e mais abril e maio de feitura de dois contos), são estes os que eu considero como os mais importantes para a minha formação como leitor e escritor: os livros de contos “Melhores contos”, de Hélio Pólvora, e “Brancos reflexos ao longe”, de Mayrant Gallo; o livro “Poemas”, de Wisława Szymborska; o livro “Crônicas de Armando Oliveira”, organizado por Olívia Soares e Franciel Cruz; e a HQ “Toda Rê Bordosa”, de Angeli. Porém, dos lidos em 2012 fora dos dias desse trabalho, preciso destacar estes como os mais importantes para a minha formação: a antologia “50 contos de Machado de Assis”, organizada por John Gledson; e a HQ “Ordinário”, de Rafael Sica.
Dos livros lidos durante o processo de feitura da 1ª edição de “O grito do mar na noite”, em maio, agosto a dezembro de 2014, e de janeiro a abril de 2015, são estes os que eu considero como os mais importantes para a minha formação como leitor e escritor: o livro de crônicas “A cabra vadia — Novas confissões”, de Nelson Rodrigues; o livro de ensaios “O demônio do meio-dia”, de Andrew Solomon; e o romance “Aprender a rezar na era da técnica”, de Gonçalo M. Tavares — preciso destacar também as releituras especiais do livro de crônicas “A descoberta do mundo”, de Clarice Lispector, um dos mais importantes da minha vida, e da obra de Mayrant Gallo, com destaque para “Nem mesmo os passarinhos tristes” (minicontos), “Pés quentes nas noites frias”, “O inédito de Kafka”, “Três infâncias”, “Brancos reflexos ao longe”, “Cidade singular”, “As aventuras de Nicolau & Ricardo: detetives” e “O gol esquecido” (contos). Porém, dos lidos em 2014 e 2015 fora dos dias desse trabalho, preciso destacar estes como os mais importantes para a minha formação: os livros de crônicas “Memórias — A menina sem estrela” e “O reacionário”, de Nelson Rodrigues; os livros de contos “O beijo e outras histórias”, “A dama do cachorrinho” e “Um homem extraordinário”, de Anton Tchekhov; a coleção de livros de contos de Hélio Pólvora (“O grito da perdiz”, “Mar de Azov”, “Massacre no Km 13”, “Noites vivas” e “Estranhos e assustados”); o livro de ensaios “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”, de David Foster Wallace; a antologia “Os cem melhores contos brasileiros do século”, organizada por Ítalo Moriconi; os romances “O deserto dos tártaros”, de Dino Buzzati, e “A geração da utopia”, de Pepetela; os livros de contos “O voo da madrugada”, de Sérgio Sant'Anna, “As noites difíceis”, de Dino Buzzati, “As grandes paixões”, de Guy de Maupassant, e dois “Melhores contos” — a antologia de J. J. Veiga e a de Orígenes Lessa —; e o livro de poesia “Correntezas e outros estudos marinhos”, de Lívia Natália.
Dos livros lidos durante o processo de feitura de “O limbo dos clichês imperdoáveis”, especificamente sobre o trabalho nos contos vindos de “O grito do mar na noite”, entre dezembro de 2017 + março a maio de 2018, são estes os que eu considero como os mais importantes para a minha formação como leitor e escritor: o poema-livro “Umbigo”, de Nicolas Behr; os romances “O conto da aia”, de Margaret Atwood, e “Crônica do Pássaro de Corda”, de Haruki Murakami; e a biografia “Belchior: Apenas um rapaz latino-americano”, de Jotabê Medeiros. Porém, dos lidos em 2017 e 2018 fora dos dias desse trabalho, preciso destacar estes como os mais importantes para a minha formação: os livros de contos de Anton Tchekhov (“O assassinato e outras histórias”, “O malfeitor e outros contos da velha Rússia”, “Um negócio fracassado e outros contos de humor” e “O violino de Rothschild & outros contos”); o essencial “Toda poesia de Augusto dos Anjos”; os romances “O sonho do celta”, de Mario Vargas Llosa; “Homem invisível”, de Ralph Ellison; e “A flecha de Deus”, de Chinua Achebe; o livro de crônicas “Ingresia”, de Franciel Cruz; a biografia “Os Románov”, de Simon Sebag Montefiore; o livro de ensaios “Romancista como vocação”, de Haruki Murakami; o livro-reportagem “A ilha de Sacalina”, de Anton Tchekhov; o livro de poesia “O martelo”, de Adelaide Ivánova; e o infantojuvenil “Os nove pentes d’África”, de Cidinha da Silva.
Como o período de produção desta reedição em 2024 é curto, destaco apenas um livro como o mais importante lido durante o processo de feitura: o romance “Sobrevidas”, do escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2021. Porém, dos lidos no 1º semestre de 2024, ou seja, fora dos dias de trabalho nesta reedição, preciso destacar estes livros como os mais importantes para a minha formação como leitor e escritor: “O ano do pensamento mágico” e “Noites azuis”, de Joan Didion, “Niketche: Uma história de poligamia”, de Paulina Chiziane, e “Garotas brancas”, de Hilton Als.
Por fim, nos cinco dias em que concluo a 2ª edição de “O grito do mar na noite”, em 2026, destaco também apenas dois livros como os mais importantes lidos durante o processo de feitura: os ensaios de Christopher Hitchens em “deus não é grande — como a religião envenena tudo” (um dos prediletos da vida, que livro!) e os contos de Mayrant Gallo em “Onde morrem os heróis”. Na trilha sonora, volto a ouvir a seleta que fiz (e publiquei no blog em 21 de março) das músicas presentes no canal @yami_club (o perfil aborda pessoas aleatórias nas ruas de Londres e Nova Iorque e pergunta qual é a sua música favorita no momento; depois aborda outra pessoa e pede para que ela escute, avalie e dê uma nota de 1 a 10 — interessante ver as reações e as escolhas, além das figuras com estilo diferente e cool), com artistas que nunca escutei antes como beabadoobee, Doechii, Baby Geoff, Paul Cauthen, Zach Bryan e Lola Young, consagrados como Billie Eilish, Kendrick Lamar e Jay-Z, e prediletos como Radiohead, Chris Isaak, The Cure e Queen.
Relembro: a 2ª edição deste livro começa numa quinta, 02 de maio de 2024. Porém, para ter uma noção melhor do trabalho investido em “O grito do mar na noite”, prefiro contabilizar desde a nascente, lá no ano 2010, a partir da criação de minicontos publicados na série “Minimico” do meu blog, reutilizados nos contos “Quase onze dias”, “No palheiro” e “Não escaparás”. Então, após 370 horas transcorridas em 160 dias, numa jornada de 16 anos, finalizo a nova edição (que quero acreditar ser definitiva) de “O grito do mar na noite” no aniversário de 477 anos da minha cidade natal, a complexa, contraditória, charmosa e louca Salvador, capital do molho da Bahia, síntese do insano & belo Brasil, no home office do apartamento 1101, da amada rainha caramelo Nara Noronha, localizado no bairro litorâneo de Piatã, só que mais para dentro do miolo cortado pela Orlando Gomes em gratidão, muro a muro com o Bairro da Paz, tudo terreno sagrado soteropolitano da nossa outonal mandingueira.
29 de março de 2026
Emmanuel Mirdad
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