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Sol de abril
Emmanuel Mirdad
À volta de tudo, só beleza. Começo da manhã, primavera, friozinho de pleno céu azul, sem nuvens. No centro da cidade serrana de Canela, Rio Grande do Sul, Lourdes contempla a fachada da Catedral de Pedra, de arquitetura gótica, a considerá-la imponente e muito bonita; sempre do lado de fora, longe da liturgia, frui o sublime apenas a olhar, até perder de vista a sua única vista. De um olho fechado, reza. A aparição mariana que lhe originou o nome pode até escutar, mas não deve responder. A paz brota do silêncio. E a cidade em flor começa o percurso dos fluidos do seu organismo.
— Bom dia, caolha!
— Dia.
Quase sempre abre o fole da sanfona com o sol. Talvez seja uma mania, ou um gesto de breve escape, munido da delicadeza, a afrontar as asperezas da rua. Que seja. Para Lourdes, a junção das notas sol, si e ré no acorde de sol maior representa a luz do sertão a que pertence, lá no povoado de Caboclo, em Afrânio, extremo oeste de Pernambuco, divisa com o Piauí. Nordeste brasileiro, onde o pássaro assum preto, se estiver cego, canta de dor. Aquele pássaro preto, de outros nomes, como graúna, arranca-milho ou chupão, o gnorimopsar chopi. O tio Chico, certa feita, chegou da estrada com um monte preso, de vez. Chamou a menina para lhe mostrar. Nessa mesma época, numa brincadeira de quintal com os primos, campou-se no espinho da cerca de quiabento: perdeu a vista de um olho, sem volta. Sem ver a luz pelo direito, Lourdes ficou macambúzia, mas não chorou pelo esquerdo. Na flor dos seus dez anos, com uma boniteza que chegava a doer, surpreendeu a todos: “Só tein um agora; se chorá, pode istragá o ôto. Deus é mais!”
— Que música é essa, Caolha? Muito bonita!
Lourdes está sentada num dos bancos da Praça da Matriz, em Canela, Serra Gaúcha. A senhora reconhece o apelido como se fosse de batismo; parece que o tapa-olho, preto como o de um pirata de fábula, rende uma aura de valentia e o respeito necessário à sobrevivência em lugar tão distante da sua origem. Quase como um bluesman da Louisiana, a sanfoneira deixa o tom maior, infantil e inócuo, para emocionar melodias em tom menor, a cor e a textura do idioma do coração. Instrumentaliza um forró em ré menor, mas é um blues, um lamento, sertanejo, sincronicamente ligado aos cânticos do banzo, da melancolia dos escravizados, de qualquer tempo, raça e sofrimento.
— Aproveita e toca uma guarânia, baiana.
Seria em tom menor também, mas Lourdes não toca os sons do Sul por pirraça. Em recantos como aquele, mesmo os turísticos, com a presença das gentes mais variadas, os nativos insistem em reduzir todos os nordestinos a “baianos”. Talvez por ignorância, ou até mesmo maldade, a senhora do pedido não distingue japonês de coreano, e, de Pernambuco, talvez só tivesse ouvido falar de um homem de olhos claros, que um dia quis ser presidente e, num desastre aéreo, morreu — uns teorizam que ele foi assassinado, outros lamentam até hoje. Para a gaúcha, Luiz Gonzaga só pode ter sido baiano. Foi assim que furaram os olhos do assum preto, pió. Ignorância. Ou maldade.
Vez ou outra, a pernambucana toca sanfona na praça principal de Canela. Não porque anseia público, mas sim pela admiração ao templo de Nossa Senhora de Lourdes. Católica por origem, deixou de ser praticante desde que enfrentou o infortúnio definidor das suas chagas vitalícias. Por isso, não entra. E não rende conversa às cobranças eventuais da comunidade; a sua figura impõe respeito, até da guarda. Em dia de folga da lojinha, ajeita-se num dos bancos da praça e toca pela manhã inteira; nas pausas, espia a Catedral de Pedra e os pensamentos a conduzem para longe, a recordar mais da metade da vida passada no calor, e a outra restante pousada no frio, astronauta desse destino torto que é a sincronia — compreensível apenas na linguagem do inefável.
Lourdes não tem filhos e a sua família continua longe. É casada há anos com um gaúcho de Venâncio Aires, hoje inválido, na cama, para quem tem mais gratidão que amor, respeito e devoção a tudo que ele fez por ela, do que vontade de fazer um agrado no rosto, sem motivo. O marido, desde que a conheceu lá na ponta nordeste do Brasil, nunca ligou para o tapa-olho preto, contanto que os cabelos de quase indígena estivessem emoldurando a harmonia da bela cara redonda.
Da cabocla afraniense de Caboclo.
*
— Painho, pruquê o sinhô furô os zóio do passarim?
— Pá mó de assim cantá mió, fia.
— É muita mardade, pai...
Humberto, conhecido como Beto, é cearense, assim como o seu xará, de sobrenome Teixeira, filho de Iguatu, e parceiro mais célebre de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, filho de Exu, Pernambuco. Homem de lida com a terra, gosta mesmo é de colecionar passarinhos em gaiolas pequenas e grandes, misturados, tratados como fantoches da sua obsessão pelo canto dos bichos de asas, uma das três diversões que mantém. Chico, o irmão mais velho, porta a sina da aventura, e é quem traz as peças. Além das andanças de caixeiro-viajante e da caça, toca sanfona, a alegrar a criançada e até as mulheres e os cunhados. Família grande, mistura de pernambucano, cearense e piauiense, espalhada pelo povoado e pela sede, pelas bandas da vizinha Dormentes também. De todos os bichos que o irmão captura e traz na boleia abarrotada do seu pequeno caminhão, Beto tem predileção pelo pássaro preto, catingueiro, cujo canto só se ouve à noite, escura e repleta de sombras sem nome, segundo os mais velhos. Essa conversa fiada ele apresenta à beira do lampião, para assustar a cria, enquanto pinça a peixeira amada, sempre à cintura.
A menina tem fascinação pela faca do pai. Quer triscar e leva tapa. Chega perto da pedra de amolar e toma cascudo. Num meio de abril, Chico arruma um assum preto graúdo. A paixão de Lourdes se transfere do ferro frio para o pássaro. O tio quer vendê-lo na estrada. O pai bafa: “É meu!”. Numa noite, à varanda, Chico puxa o fole. A menina ouve o assum preto responder; parece que acompanha a seresta de forró e quase escapa quando ela mexe na gaiola. Lourdes fica de banda inchada por tanta palmada. Não chora. Nem quando a mãe informa que o pai havia furado os olhos do graúdo com um espeto de pau qualquer, desses que se pega no chão. O pássaro preto rumou para a escuridão. A menina sente uma pontada no olho que lhe resta, quando vê o bicho solto na varanda, vagando torto, sem poder voar.
— Agora num tem mais risco de tu perdê o bicho, fia. Comé qui avoa sem vê?
O graúdo vive criado solto, na sina de não poder voar, pois o céu nunca mais poderá enxergar. Ele fica jururu, definha e queda morto, faminto por ver o que perdera. Ao contrário do que Beto queria, não cantou melhor. Calou-se na cegueira assassina. Quem encontra o bicho morto é o filho caçula, a bulir na cabeça do graúdo com o dedo, tentando esmagar para observar os fluidos.
Noutra seresta de forró, a menina Lourdes espera o final de um baião de Luiz Gonzaga e pede a Chico:
— Me ensina sanfona, tio? Quero tocá mió que o sinhô...
*
“Toca bem demais a moça!” “Ô, sanfona arretada!” A fama da sanfoneira caolha corre o Nordeste profundo, no começo dos anos 1970. À parte dos grandes contratantes, que não quiseram investir numa estética considerada “troncha” — segundo eles, mulher com tapa-olho é vista como feiticeira, gente ruim, de mau agouro —, das rádios e das festas mais reconhecidas, Lourdes se apresenta em tudo que é bodega, pardieiro mequetrefe, cafundó após cafundó, vida circense, a rodar num pequeno caminhão pau de arara, com um empresário improvisado: o seu tio Chico, mais artista que caixeiro, orgulhoso que só da sobrinha aplicada, a sua única aluna. A sina de caçador destina-se para a caça de oportunidades, agora.
Beto bradou como a peste, mas a força da palavra do irmão mais velho preponderou: homens da lida respeitam a hierarquia. Ademais, Chico protegeria a sua filha dos males da estrada e da fome dos machos. A completar a equipe da turnê, um zabumbeiro esquálido e um triangueiro capenga. “Uma caolha, um faquir e um cotó?” A resistência inicial é implodida quando Lourdes abre o fole.
Em Lajes, no Rio Grande do Norte, o marceneiro Bené para de dançar ainda na primeira música e se mantém a cobiçar a cabocla de um olho só o show inteiro. Bom de conversa, ganha a confiança de Chico se apresentando como parente de coronel, cujo sonho é viver na estrada, a acompanhar um grande artista. Ele paga duas cervejas para o esquálido e consegue se achegar na sanfoneira; o capenga, que jamais tinha voz, não atrapalha o seu intento. Diverte o grupo, promove boas risadas e tira do chão a vergonha da moça em olhar diretamente para um moço, ainda mais um charmoso que não liga para a sua deficiência.
Antes do pequeno caminhão partir, a aproveitar um momento sem mais ninguém por perto, Bené segura a mão da sanfoneira, tira o tapa-olho com a outra e, delicadamente, beija o olho direito, cego e fechado, demorando-se no carinho, um pouco. Ela abre os dois olhos, um da cor de mel, outro da cor de nuvem, e abre as pernas dos seus lábios, a pedir. Ele atende. Lourdes gosta. É a primeira vez que um moço beija na sua boca.
O conversador Bené, sempre animado, implanta-se na turnê, a dirigir muitas vezes o pequeno caminhão, quando o tio se cansa. Passam por várias cidadezinhas, duas semanas de viagem. O esquálido desconfia que alguma coisa está acontecendo entre Bené e Lourdes, e cobra de Chico uma postura mais cautelosa, para que a moça de família não seja embuchada nem desonrada, a relembrá-lo da promessa feita a “seu” Humberto. O empresário concorda e se mantém mais vigilante; mesmo assim, gosta do astral do rapaz, cheio de causos e sorrisos — abençoaria o namoro caso existisse, predisposto a referendar o “parente do coronel” ao irmão, quando voltarem a Pernambuco.
Lourdes, que já fascinava o público pela precisão das notas, pela beleza dos improvisos que camuflavam a sua voz miúda e por um som meloso, timbre singular daquela sanfona abençoada do tio, agora, enamorada às escondidas, irradia sensualidade em cima do palco, uma flor ansiando por ser colhida, e o público a deseja. Aos seus pés. “Caolha! Caolha!” O capenga não contém os dentes, de tanta risada larga. O esquálido sente que o Gonzagão logo irá ouvir falar dela. Apadrinhará, é claro. A cabocla é um fenômeno. Ninguém toca como ela.
Um contratante de renome, maravilhado pelo desempenho primaveril da Lourdes em esplendor, acerta um show para uma casa de respeito em Natal.
Pela primeira vez, o trio vai tocar numa cidade grande.
*
A primalhada do marido vai até Canela e o carrega para a reunião anual da família, um percurso por algumas cidades do Vale do Rio Pardo. A esposa dispensa o convite, pois quer aproveitar essa oportunidade sem as obrigações matrimoniais “na saúde e na doença” — por gratidão, cuida devotamente do parceiro, encostado na cama por uma série de AVCs, com sequelas motoras e mentais.
De soslaio, Lourdes repara no case que guarda a sanfona. Acha-o mal feito, assim como todas as coisas que são produzidas atualmente, feitas para não durar. Não é o case original.
Nem a sanfona abençoada do tio Chico.
*
Giancarlo Setembrino toca desde criança. No começo dos anos 1970, o seu instrumento é um acordeom Scandalli, com letras brilhosas gravadas: A Voz do Forró. Ele ostenta para mais de cinquenta fotos com o Gonzagão, amigo pessoal, com quem já tocou algumas vezes, chegando até a gravar. Em Natal, todo mundo sabe que Setembrino se reta quando conhece um sanfoneiro talentoso: se é do interior, boicota; se é da Capital, é roubado ou preso como comunista; se é de fora, morre. De família rica e amiga dos militares, Giancarlo tem o tino da ambição e fez carreira na base do empurra, dinheiro a abrir portas e a comprar elogios. Contudo, até que toca bem; estuda, de maneira obsessiva, muitas horas por dia e quer realmente ser o melhor — e na região é, severo com o seu próprio desempenho, nunca satisfeito.
Lourdes observa uma gaiola com uma ruma de assum preto dentro. Na feira de Natal, desgarra-se do tio por insistência de Bené, que anda impaciente, até desrespeitando alguns limites, mãos demais, “avançadinho”. E, para não ser prensada num canto, livra-se da pressa do marceneiro e vai para uma venda específica, pois quer contemplar os parentes alados do saudoso graúdo — pretere o amasso pelo canto dos pássaros.
— Vamo logo, Lurdinha, o seu tio chega já!
Bené pega a sanfoneira pela cintura e dá um puxão. O alvoroço não é compartilhado, e ela rechaça o ímpeto. Com a virilidade tolhida, ele se zanga e vai tomar um trago no boteco perto do açougue. A caolha passeia com os dedos nas barras da gaiola. Dois pássaros cantam. Ela suspira um “bonito demais!” e se arremessa para longe, rumo àquela noite fatídica em Caboclo, quando o graúdo quedou-se.
— Lourdes, se aprochegue aqui, quero te apresentar o melhor sanfoneiro do Rio Grande do Norte...
Chico, cinquentão de muitos quilômetros rodados, que diz conhecer “metade do mundo e mais um pouco”, apresenta a sua querida sobrinha a Giancarlo Setembrino, numa manhã de sábado, poucas horas antes do show.
— Com todo respeito, meu caro Francisco, mas a tua sobrinha é de uma belezura distinta! E esse tampão aí não atrapalha em nada, combina até com o cabelo... A tua fama tá ecoando, moça bonita! Tô curioso pra te ouvir. E, desde já, encantado!
A sanfoneira sorri, gosta do galanteio e até se atreve a olhar para o homem. Setembrino é alto, galego e de voz grossa. Um espigão rio-grandense: criado no Norte, mas nascido no Sul. Família de imigrantes, que não cessam de desbravar — depois do oceano e dos pampas, foram enriquecer país acima.
— Venha com a gente, meu amigo! Será uma honra a sua presença no show da minha Lourdes.
— Sim, é claro que eu vou!
*
O tio leva na frente o esquálido e o capenga, e vai voltar para buscar a sanfoneira, atrasada por tanto se arrumar para a apresentação mais importante da sua carreira. Nesse meio tempo, Bené, sumido desde a manhã, vai agir. Finge-se calmo, entra no quarto 18 do pequeno hotel, dispõe-se a colocar o cordão dourado de Nossa Senhora no pescoço da sanfoneira e, inesperadamente, a estrangula.
Quase sem ar, ela desaba. O marceneiro arranca o seu figurino como se serrasse um pedaço de pau. Amordaça-a com um dos pedaços do vestido rasgado e pressiona com violência a cabeça de Lourdes contra o chão, num aperto com sede de matar. Bené empurra o seu peso para dentro dela, a violá-la, sem se importar com a virgindade. Sangue. Muita dor. Ele rouba a luz do olho que resta da cabocla, desgraçando a felicidade que ela sentia na sua vida. Bené ejacula no corpo sem voz e sem canto como o do assum preto graúdo, cego dos dois olhos. Retira o cordão dourado do pescoço de Lourdes, cospe no chão e foge.
O tio retorna ao pequeno hotel acompanhado pelo amigo Setembrino, que fizera questão de vir buscar a estrela da noite com o seu melhor carro.
Tarde demais.
*
Povoado de Caboclo, em Afrânio. No Mirante da Serra, lá no alto, Lourdes não espia o horizonte, de olho fechado. Não derrama uma lágrima, mas o instrumento chora por ela: uma sanfona qualquer, comprada à revelia, pois a abençoada foi devolvida ao dono, após o ataque, e nunca mais foi sequer triscada por ela. O trio, desfeito, a carreira, cancelada, a família, esbagaçada, o tio Chico, endoidecido de culpa. O pai Beto, em turnê de vingança por dois anos, morreu de enfarto por tanta raiva e desgosto de nunca ter encontrado o tal Bené — isto é, se o nome dele era esse mesmo. Em dez minutos, a cabocla toca dois lamentos instrumentais, de notas espaçadas, harmonias em tom menor. Pausa. O silêncio. Alguém, sem ela notar, a escuta. Um homem que acaba de chegar de viagem, querendo reencontrá-la.
A sanfoneira caolha introduz um arranjo em ré menor e canta: “Tudo em vorta é só beleza/ Sol de Abril e a mata em frô/ Mas Assum Preto, cego dos óio/ Num vendo a luz, ai, canta de dor/ Mas Assum Preto, cego dos óio/ Num vendo a luz, ai, canta de dor/ Tarvez por ignorança/ Ou mardade das pió/ Furaro os óio do Assum Preto/ Pra ele assim, ai, cantá mió/ Furaro os óio do Assum Preto/ Pra ele assim, ai, cantá mió/ Assum Preto veve sorto/ Mas num pode avuá/ Mil vez a sina de uma gaiola/ Desde que o céu, ai, pudesse oiá/ Mil vez a sina de uma gaiola/ Desde que o céu, ai, pudesse oiá/ Assum Preto, o meu cantar/ É tão triste como o teu/ Também roubaro o meu amor/ Que era a luz, ai, dos óios meus/ Também roubaro o meu amor/ Que era a luz, ai, dos óios meus”.
Ela canta “Assum Preto”, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, uma das mais importantes e referenciais canções do Nordeste. A música que faz o gaúcho Giancarlo Setembrino chorar, mais uma vez. Quinze anos atrás, foi a primeira canção que tocou para o sanfoneiro pernambucano, Rei do Baião, o avaliar. “Cabra bom, galego da peste!” Foi também a letra que ele fez questão que o poeta cearense Humberto Teixeira autografasse, no encarte de um LP de que Giancarlo participou como músico contratado, a gravar “Assum Preto” com uma interpretação bem elogiada. E, agora, do mirante que divisa a terra onde nasceu, Lourdes, devota de Nossa Senhora, reinterpreta a canção como ninguém jamais fez, nem fará. Com a voz miúda e um teclar espectral, ela produz no seu ouvinte secreto o afeto imediato a trabalhar no coração o pouso do amor em um homem.
Giancarlo Setembrino decide, ali no mirante, parar de tocar. Nenhum esforço desse mundo, nada que possa ser medido e feito por conta de dinheiro, coisa alguma pode levá-lo a superar o talento da sanfoneira Lourdes, cega de um olho por um espinho quiabento, e, do outro, pelo mal do homem — esse que resta só pode interpretar a luz, até o final dos seus dias, através da escuridão do trauma. E ele, no Mirante da Serra, sem qualquer explicação prévia, imediatamente a pede em casamento.
Antes que seja, mais uma vez, tarde demais.
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