Download no Google Drive aqui
Brutalistas
Emmanuel Mirdad
O precipício alucina, as pernas vagam, o raciocínio falha. A percepção de que o êxtase já se foi, ordena que a depressão se instale. Nenhum ser de luz consegue alumiar, porque tudo isso é mais fundo do que a luz da oração de alguém — a fim do abono “fiz a minha parte” da caridade programada. As mãos de Cristal, ávidas por garrafas, não conseguem alcançar o gatilho do salvador. E a mesa da sala está quebrada desde ontem; foi Thiago, amigo de pó e álcool, que também se jogou da ponte quando soube do filho que morreu de fome.
A cocaína serra a sua identidade, prestes a se partir em um bilhão de tendências: atores jornalistas, morangos inteiros, a história mesquinha que eterniza os imundos. No próximo corredor, Andrômeda inspira uma carreira do potente salitre. Sente-se hype e elétrica e sexy e adesiva, a selecionar, ao estímulo santo, o cru do extremo sem culpa, saudável engorda de egos — o que não é.
As cordas vocais de Tavinho perderam a batalha para o conhaque, e os ouvidos desconhecem algo que não seja satânico, como os milhares de mosquitos em concerto privado todas as noites no seu quarto quase Picasso. Do fundo do fígado, vermes penetram, e as súplicas deslizam no vômito. Saudável relapso... Será que ele vai chegar ao topo?
Moloko Veloz taca fogo na lata de leite desnatado e a mente soterra o indivíduo; são cordas aos pés, lá do alto. A voz balbucia, mas a baba catarra. Ele ainda está sólido, e, mesmo que um disfarce insista, constata: “Que viagem!” Moloko Veloz não dorme há muito. Ele fecha os olhos para piscar o barro; são quilos que uma trupe desperdiçaria, o grande cabeção solitário, fornalha descompassada, fôlego de duas corridas e mortuário. Forja fantasmas que sacolejam os nervos; basta um grito e o mundo percebe que a sua paz se desfaz em chilique. Às vezes, acha que é o Gorpo, e a Maria, montada em um velotrol da Barbie, com ciúme do Mjölnir de Thor, rebate: “O seu Gulliver é que encolheu!”
O problema das faces são os olhos. Maria lhe clama: acenda-me! Os dedos-múmias do Mestre Ganja flamejam, e os retratos derretem o quanto que se espera. Bala, doce, algodão. A mãe se matou com o fio do telefone. O pai lhe esmurrou no sábado, apagou o fumo na sua orelha e o chamou de cão. E, agora, o chão é a escotilha do inferno que não o engole.
O ego de Fuça-fuça infla, e ele espera a prova aprovar-se. Quer encarar o desafio: mais um obstáculo novo nascido. Pular a trave, ultrapassar a linha na posição que lhe ponha a respirar, arregalar a sua cabeça para fora da matéria. Vingar-se. O nome: indivíduo fadado ao esquecimento.
Peripinho assistiu a muitos filmes de Luis Buñuel. Acaba de rever “A idade do ouro” (L’âge d’or, 1930), sob o efeito de duas balas apelidadas de “O Elefante Azul de 14”. E ele vê o paquiderme lamber o palato de um sino. De tão trêmulo, boceja; haverá escorpiões, um dia. Fingir formigas, minutos após, que antes gritar. Encontrar o Himalaia assim: portões e mangas, bastões e ovelhas. E Patativa dança. Filisteu. Mudo à porta, não reconhece os atuns. A circunferência escorre das mãos. Sozinho com pulgas gigantes e barro, o despertador morre. E a mente, em evolução interna, alume. Alume. Alume. Alume o escuro, não seja, esfacela-se em asfalto e corda. Dorme os olhos e as cobras adormecem-no; em frangalhos, o azul — ferrenhas abelhas em círculo, ataquem! E o totó, na beira do algodão, alerta: “Queridos pais, o orelhão é cebola”.
Houve uma queda. Xica sente que caminha na vastidão. Talvez pudesse estancar os nós, la sangre jovem, medos adultos e muitas feridas, animais extremos, acidentes renovados, o massacre da vida nova ao nada. Considera do acreditar um fazer rir. Gargalh’ama e sente saudades — quer causar a melhor impressão possível. Perfeccionista, em cima do muro, Xica desinforma que é segura, limpa e eficiente a frágil cirurgia. Um ser lindo e o horror atrás. Xica se coça, e se coça, e se coça, e se coça, e se coça...
Sinuoso ser que se molda e foge. De quê? Por onde ir, se entorta a seta em cálculo medusa? Tentáculos e gracejos, apodera e abandona, ser de muitos truques, fruto e consequência. Como calcular se o incerto infunda o seu veneno confuso, repleto de saídas obscuras, nas possibilidades? Virussapiens quase não tem cor, olhos de prata; da noite, um sobretudo, trunfos e lábia, a vaidade que conforta. Sorrateiro e pé de valsa. No chão, desliza; no céu, encanta. Músculos finos, mente talhada — troféus de uma vida carrapato. Assim, Virussapiens perfuma e perfura, invade e destrona, ocupa o que pulsa.
E, fatal, degenera!
*
Relembro-me, mesmo sem buscar; sem ter chorado por piedade, o Fantasma Comparsa vem. Só precisa do silêncio, ou da culpa. Se respiro erros, suspiros de fuga e estou absorvido pelos retratos, ele pulsa. Os olhos mitificam a matéria em lixo, abuso. Sei que a minha expressão transmite o infinito. Tão longe estão as vozes, oxigênio. Transformo-me num vestígio; à vida, impossível. Estático, melancólico, o Fantasma Comparsa devora. E, presos aos meus inúmeros pelos, reconheço também os Carrapatos Suspensos, aquelas criações paranoicas de supostos predadores, que avaliam constantemente as condições da minha engrenagem — deixo que suguem. E os Mendigos Cheirosos estão na minha porta; sofrem de lepra virtual, despedaçando os pedaços podres dos nossos desamores nas redes sociais. Matéria morta, invadem a minha sala, de cabeça baixa, cravados no celular, monossilábicos. Calam o meu piano com fotos de tudo que veem. Sorrisos tecnicamente escravos, sem sexo, sem alimento, o jpeg infantilmente prostrado. Os Mendigos Cheirosos dissecam a minh’alma em poucos caracteres. Estou pobre, gordo e fedido. Indo para ontem, retorno o amanhã, e logo estacionarei no agora, suspenso em calamidades. Estou voltando também para o antes, no intuito de fantasiar o depois, e logo, no presente, inerte ficarei, absorvido de infantilidades. Ao adeus não hesitarei, pois nesta existência não correspondi, e, no conjunto, misantropo nem fui. Exausto, sádico me tornei.
I’m tired. E brutal.
Comentários