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Dois talhos (Olhos abertos no escuro, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Dois talhos
Emmanuel Mirdad

          Ruth nunca foi maníaca. Odeia parques. Um dia, o seu marido comeu mais do que deveria, na sua avaliação — para o povo, porém, nunca é demais a quantidade de traições que um marido pode acumular. Restou o facão. Ela retalhou, na sua cama de casal, o marido que traçava a cunhada, a sua irmã, que tem um namorado. Art. 121 do Código Penal, cadeia para Ruth. O problema é: criam-se ícones do pop, consumo de idiotias. Embolada de microfones e trancos, ela respondeu: “Lavei a minha honra”.

          Houve uma bradação histérica coletiva, o povo a xingar e odiar, com ênfase e gula, a artificial vida que se escura, efeitos da implacável agenda setting. E se a esposa que lavara a honra com sangue fosse branca? Seria habitualmente considerada doente, quem sabe até distorcida ao nível de uma impoluta senhora traída, oh, coitadinha, perdoem-na, o uso dos atenuantes do §1º do Art. 121 conclamado pela opinião pública. Entretanto, angolana que era, funcionária de uma lavanderia, a negra Ruth foi, para além de ter praticado homicídio “sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida à injusta provocação da vítima”, midiaticamente distorcida à condição de maníaca, psicopata e maldita.

          Na delegacia, Ruth perdoa a irmã.

*

          “Não importa mais o que esse animal está pensando”, o matador Claudinho Tamagotchi reflete. Desabado de costas, com os miolos para fora, um homem tenta conter a hemorragia de um corte à base de uma lâmina japonesa, a experiência da vida que se esvai — a sua coragem o faz duvidar do fim e não questionar se irá sobreviver; porém, está mortalmente ferido. O seu algoz gosta de ser chamado de samurai no mercado dos assassinos profissionais e tem quatro espadas Katana penduradas na sala de casa. Minutos atrás, cansado de balaços, Claudinho Tamagotchi preferiu desembainhar uma das suas espadas para cumprir o serviço, ao invés da rotineira pistola com silenciador, e fatiou a vítima para tentar obter algum estímulo de seguir na labuta.

          Alguém encomenda, ele mata. O que importa é transpor — “Compreenda”, ele diria. E o solo berra sangue, serviço bem feito, menos um dia. Para Claudinho Tamagotchi, há de findar a lista de encomendas apenas por profissionalismo, pois a graça foi perdida, desnudada a ousadia; a violência de hoje em dia banaliza o ato de matar, mais do mesmo, pois, assim como Renato Russo cantou, “Todos os doentes estão cantando sucessos populares”.

          A caminhar pela rua, o matador decide telefonar para a paquera angolana.
          
          Ela não atende.

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