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Sem dó
Emmanuel Mirdad
Todas as suas amigas mais próximas casaram; algumas estão grávidas, a maioria já é mãe. E as primas estão noivas ou em relacionamentos sérios que são propagandeados nas redes sociais como exemplos de felicidade. “Êa!” O flanelinha não gosta dos dez reais, mas faz a saudação assim mesmo. E ela se lembra do tempo em que pagava com moedinhas — quando tinha.
É filha única, e os pais a cobram, constantemente, para que ela se case, forme a sua família e tenha filhos, influenciados pelo que assistem nas novelas, nos filmes românticos ou nos detalhes da vida privada que são compartilhados nas redes. De decepção em frustração, as possibilidades desperdiçadas se acumulam: cinema, sorvete, sexo casual, baladinha, e, tal como vinha, a companhia partia. E ela continua solteira, ela e o seu quadril largo, biologicamente predisposto ao matriarcado. Na doceria, pede um bolinho gourmet, olho da cara, que ela faria em casa por um valor dez vezes menor. Mas a amiga quer fofocar. E larga o doce:
— Já pensou em produção independente?
— Vou comprar um poodle — responde, na lata.
A amiga pede uma nova fatia de outro bolo gourmet. Quer compensar a ausência de três semanas do marido, a negócios; como se o seu trabalho obsessivo já não fosse suficientemente comprometedor à saúde. Enerva o tom:
— Fica assim não, amiga. Homem é tudo filho da puta!
— Cuidado que você ainda vai ser mãe um dia — alerta.
Sem dó.
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