Qualquer um
Emmanuel Mirdad
Qualquer um entra no apartamento, após um dia de trabalho estafante e repetitivo, sem acesso à rede por sugestão do analista. Mal fecha a porta, retira o celular do bolso. Acessa o Facebook e se excita ao ver o anúncio vermelho de oito notificações. A primeira projeção pouco dura. Os sinais são convites para festas a que nunca irá, nem que sejam da sua prima desafinada e insistente; para shows com atrações que nunca ouviu e despreza antes de um play sequer; para lançamentos de livros que não valem o investimento numa ruma de papel encadernada que desencadeará mofo e infestação de traças.
Qualquer um pensa nas dezenas de face-amigos que marcou num post de mensagem que considera inspiradora e espiritual, para seres de luz. Nenhuma curtida. Pensa nas cinco solicitações de face-amizade enviadas, promovidas por um suposto reencontro com um passado que fora divertido, mas passou e está longínquo. Nenhum aceite. Pensa nas quatro mensagens inbox para pessoas com quem havia saído tempos atrás, a forjar um clima de reaproximação. Lidas, não respondidas e posteriormente apagadas, mesmo que qualquer um ainda acredite que, em breve, serão retornadas. Uma pessoa, inclusive, excluiu qualquer um do seu círculo de face-amigos após a inbox que avaliou como impertinente. E a outra já havia feito isso meses atrás, no eficiente silêncio do desprezo.
Qualquer um fecha o aplicativo do Facebook e aplica-se no WhatsApp. Excita-se: várias mensagens não lidas. A segunda projeção dura um pouco mais que a primeira. Lê, uma por uma, de todos os grupos, as individuais também, e todas são direcionadas a outros membros, ou são piadas machistas, homofóbicas, racistas, vídeos de putaria, fofoca, memes, intriga política e dezenas e dezenas de flyers e convites para shows e lançamentos de discos e de livros, num âmbito em que todo mundo produz e ninguém é plateia, exceto por escambo. Qualquer um entra em um por um dos perfis para os quais mandara mensagens, hoje, ontem, anteontem, semana passada; vários estão online e nenhuma mensagem ganha a misericórdia dos dois traços azuis — as pessoas receberam as suas mensagens, mas, antes de ler, devem ter excluído de imediato.
Qualquer um perde a fome. Deixa o celular em cima da mesa. E, do sofá, reflete que nem lembra mais qual é o toque do aparelho — o único que toca, apenas durante o dia, é o da empresa, de assuntos relacionados ao trabalho. Ninguém liga para qualquer um. Ninguém pensa em qualquer um para chamar para sair, dar uma volta, comprar um sorvete, jogar conversa fora, ver a rua e as pessoas, sorrir, sentir a brisa, fumar um, tomar uma. Qualquer coisa serviria para qualquer um, desde que, à noite, ou no final de semana, pudesse existir além da estafante e repetitiva rotina da sua mísera existência banal.
O som constrangedor de um Nokia tune se propaga pela sala. Qualquer um lembra que havia colocado de propósito, tempos atrás, apenas por birra, num namoro com excesso de ciúme e competições inúteis. Corre para atender. Não o celular de oito horas de uso. O seu smartphone, o pessoal, com os aplicativos das redes sociais.
— Não, não tenho interesse em mais um cartão de crédito.
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