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Olhos abertos no escuro
Emmanuel Mirdad
“Pés quentes nas noites frias” é o primeiro livro de contos do escritor e professor baiano Mayrant Gallo, publicado em 1999 pela Funceb (Fundação Cultural do Estado da Bahia), participante da coleção Selo Editorial Letras da Bahia, impresso pela EGBA (Empresa Gráfica da Bahia), contendo 13 contos e três epígrafes (a melhor: “Quando todo mundo está indo num rumo, é tempo de ir no outro”, do contista estadunidense Breece D’J Pancake, que se suicidou aos 26 anos). A obra foi selecionada pela comissão da coleção, defendida pelo mestre do conto Hélio Pólvora (o amigo homenageado no meu “O grito do mar na noite”), que escreve a orelha de “Pés quentes nas noites frias”. Relembro a abertura:
“Neste volume de contos, saudamos o advento — ou a confirmação, quem sabe? — de um escritor de verdade, desses que revelam o seu grau de consciência e madureza literária numa única frase. Observador impiedoso, contundente, da realidade urbana dos nossos dias, o autor lembra João Antônio, a quem, aliás, cita em epígrafe: os contos brotam sem artifícios de criação, como se ele apenas os captasse em estado rudimentar e, depois, os polisse pelo manejo da língua e linguagem. O autor casa bem o instantâneo da reportagem jornalística com a investigação em nível literário de estados existenciais agudos. Os contos desenvolvem-se à beira do precipício, com os personagens sempre em situações-limite.”
Peneiro mais de um mestre reconhecendo outro mestre:
“O autor está sempre atento e não limita suas reflexões aos sentimentos humanos; abraça igualmente a pedra, quando escreve, a propósito de um monumento: ‘O arquiteto que a projetou não imaginou que, um dia, até mesmo o concreto sem consciência se revolta contra a imobilidade e a desilusão, e naturalmente se fende’. E com esta frase ele nos faz uma advertência séria.”
2002. Ao ler “Pés quentes nas noites frias”, durante o 1º semestre na Facom-UFBA, indicado pelo colega faconiano e poeta José Inácio Vieira de Melo, penso: “quero escrever assim”. O impacto dessa leitura me assombra. Quero ser um contista assim! Quero impressionar o mestre, imitá-lo, superá-lo. Ao longo dos anos, graças às leituras e releituras da obra de Mayrant Gallo e dos muitos livros indicados por ele, como os mestres Anton Tchekhov e Dino Buzzati, que pude escrever a 1ª edição de “Olhos abertos no escuro” (e todos os demais livros que escrevi e escreverei), dedicado a Mayrant, com 30 epígrafes dele abrindo cada um dos meus contos. “A nudez esclarece as pessoas”, a melhor delas. O título “Olhos abertos no escuro” é extraído do conto “Gravidade”, do mais celebrado livro de Mayrant: “O inédito de Kafka” (lançado por uma grande e prestigiada editora nacional, é uma refazenda de “Pés quentes nas noites frias” — sou partidário do rever & reescrever). Peneiro: “sempre tem alguém que faz antes de nós o que pensamos fazer”. Bravo, professor, mas você, fã de futebol, criador de personagens e tramas com o esporte, autor de “O gol esquecido”, não criou o goleiro que não toma gol (personagem do meu romance “oroboro baobá”). Eu fiz antes, hehe.
Lembro da primeira pancada que recebi, nocaute imediato. O conto que abre “Pés quentes nas noites frias” é citado por Hélio na orelha:
“O autor vai mais além das aparências. Quando trata de pessoas que assaltam, matam, roubam, praticam incesto e outros atos criminosos ou amorais, ele transcende a transcrição, parte em busca do porquê, que deixa implícito, a critério do leitor. No conto A vida num domingo, alguém rouba um apartamento por necessidade de realização, para sentir que está vivo, que faz parte ainda da engrenagem social. Não há outro motivo. O personagem deliberadamente cruel parece mais participante do que os moradores entediados que, indo à praia, na repetição mecânica de um lazer sem grandeza, afundam no sentimento de inutilidade e tédio.”
Quero machucar assim e criar personagens cruéis, expor a maldade do ser humano, os ridículos, contradições, medos, escrotidões, rotas sem saída, a mediocridade da existência como rotina, a causar repulsa, indignação, reflexão, cansaço, numa busca eterna pela lapidação do texto, menos já diz tudo, os cortes secos, ação e surpresa. “Pés quentes nas noites frias” e a obra contística do seu autor me oferecem um modelo a servir de exemplo. E o mestre Hélio atesta a importância de Mayrant:
“Quem escreve um trecho desta ordem merece uma possível carteirinha de escritor: ‘A morte reina absoluta, livre de rivais; o tempo é paciente e pouco se importa se é hoje ou amanhã; e a velhice, velha e exigente costureira, não tem pressa nenhuma de acabar sua rede de rugas’. A presença do escritor, a mão do escritor que sabe o que dizer e como dizer, que põe nos textos o seu ponto de vista, está autenticada e atestada.”
Ahhh, a vida... Sempre a ironia, sempre a ironia... Hélio peneira um trecho que justifica a carteirada que deu para “Pés quentes nas noites frias” existir. Atesta a mão do escritor, autentica a sua validade para a literatura. E o que faz o escritor? Na refazenda de “O inédito de Kafka”, ao reciclar contos de “Pés quentes nas noites frias” numa edição nacional, apaga justamente o trecho sobre a morte reinar absoluta. Putz! Sem se lembrar dessa referência de Hélio, o escritor rasga a carteirinha e atesta a epígrafe de Pancake: partiu em outro rumo.
Peneiro três trechos de Mayrant em “Pés quentes nas noites frias”:
“Presenciar a miséria humana, definitivamente, já não sensibiliza mais o homem. Se é que algum dia sensibilizou, de alguma forma. Pelas marcas úmidas da história, é mais racional dizer que presenciar a miséria humana inspirou o homem. Fabricou outras guerras, promoveu outros massacres”.
“Quando, afinal, concordou em dormir com ele, não foi, na verdade, porque o desejasse ou o desejasse apenas aquela noite, mas sim porque dentro de si um incômodo a roía, espécie de fome, de sede, de calor. Estava triste, desanimada, pessimista. Olhava pela janela a cadeia de edifícios e pressentia nas vidraças apagadas o fim melancólico de uma vida de privações e fracassos”.
“Não, ele não lembrava. Não lembrava seu rosto, nem seus gestos, nem seus hábitos, a não ser aqueles ligados a alguma cena específica que lhe ficara marcada. Longe, ausente, o pai do menino estava dormindo dentro dele e só às vezes acordava, olhos abertos no escuro, em meio ao sono, ainda tomado pelo fio do sonho. Mas logo voltava a fechá-los, ofuscado pelo sol apático de uma vida que não era a sua”.
Bom, este último trecho é peneirado mesmo da página 23 da edição da Cosac Naify de 2003 de “O inédito de Kafka”, quase igual ao da pág. 57 do livro original, exceto pela sutil e providencial mudança de “sua face” para “seu rosto”. Gosto. De refazenda, eu pratico e recomendo. “Olhos abertos no escuro” tem muitas reciclagens. É a sobra do que não foi em “O grito do mar na noite”, é o que não se apagou do meu blog, e as últimas criações que fiz nesse mundo encantado de desgostos e espancamentos que é o conto. Vou contar.
2010. O meu eu sertanejo está em festa! É dia de São João, quinta, 24 de junho, e eu estou em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, curtindo a cidade na companhia do então sócio Marcus Ferreira, a degustar uma deliciosa maniçoba; temos planos de realizar na histórica & bela Cachoeira uma festa literária, aos moldes da Flip, que irei conhecer no mês que vem (primórdios do que viria a se tornar uma das mais importantes do Brasil, e que fomos sócios e realizamos nove edições, antes de vender: a preciosa Flica). À tardinha, voltamos para a cidade de Cruz das Almas, onde estamos hospedados desde terça na casa de Carlão, tio de Marcus, por conta do trabalho na festa Forró do Bosque. Antes de curtir os shows de Elba Ramalho, Seu Maxixe e o trio Desmantelado na praça de Cruz, dançando muito xote e baião com Jambo, Jozi, Chaveirinho, Holandesa e Marília (as promoters de uma marca que também estavam a trabalho no Forró do Bosque) até às quatro da madruga, peço licença ao PC da casa para começar a escrever o conto “Docinho” (o original de “Como uma pedra”, presente nesta edição). Não dá mais para incluí-lo no meu livro “Abrupta sede”, que está em tramitação na editora Via Litterarum para lançamento em agosto, mas o interesse é outro: vai ser publicado no blog “Meu Divã é na Cozinha”, da jornalista catarinense Vanessa Souza, especialista na literatura de Caio Fernando Abreu e leitora de Clarice Lispector, uma amiga virtual que fiz nessa época de celebração da blogosfera (e que viria a conhecer brevemente na Flip 2010).
Sextô, 25 de junho, fomos para Cachoeira de novo, banzeira, relax, CBF na TV, chuvarada e, com o PC emprestado da casa de Alana, então namorada de Marcus (onde ficávamos hospedados na cidade nessa época pré-Flica — sou muito grato a ela e a sua família por esse suporte fundamental na criação da primeira e maior festa literária da Bahia), finalizo o conto “Docinho” (o original de “Como uma pedra”, reescrito em 2012 e 2014), que traz no seu DNA o melhor festejo junino que curti, aproveitei e trabalhei nos anos 2010 (presente no pódio “São João” da minha vida, com shows do mestre Flávio José no Bosque e na praça de Cruz, xamego, muita dança, encontro de tesão brutal “os animais se reconhecem” com uma foda pelados no quintal à noite com panelas a voar e a acordar os moradores, entre outras aventuras para eternizar o final dos vinte anos). É o único conto de “Olhos abertos no escuro” que escrevi fora de Salvador. E a Vanessa Souza publicou-o no “Meu Divã é na Cozinha” no São Pedro, 29 de junho (tempos depois, ela apagou todo o conteúdo desse blog).
2012, novembro, analiso o edital de apoio à publicação de livros por editoras baianas, oferecido pela Fundação Pedro Calmon, e crio o projeto da coleção “Urbaianos” para disputá-lo, viabilizada pela editora Via Litterarum (a mesma que publicou o meu livro de estreia “Abrupta sede”, de contos, em 2010), com quatro livros e a escalação de escritores malditos: Aurélio Schommer, Victor Mascarenhas, Márcio Matos e eu. Vou ter que escrever um novo livro de contos para participar. Batizo-o de “Pinaúna” (que então nomeava o arquivo de poemas — de volta ao tradicional “Deserto poema”), o ouriço-do-mar que costumava fazer estragos em banhistas na praia da Barra.
Além de contos que viriam a ser lançados em 2015 em “O grito do mar na noite” (como “Quase onze dias”, “Receba” e “Assexuada”, entre outros), estão presentes em “Pinaúna” os originais de “Como uma pedra” (olha “Docinho” sobrevivendo ao apagamento do “Meu Divã é na Cozinha” aí, gente), “Hoje é sexta-feira 13” e “Que seja duro enquanto sempre” (ambos escritos e publicados na seção “Minimico” do meu blog em 2010), do repertório “Olhos abertos no escuro”. Giramundo, 2013, final de março, é divulgado o resultado do edital e a coleção “Urbaianos”, contendo os livros “Pinaúna”, “Canalhas” (Aurélio Schommer), “Fim de linha” (Victor Mascarenhas) e “Ludovico” (Márcio Matos), que seria publicada pela Via Litterarum, não foi contemplada. Com isso, o projeto da coleção foi engavetado, até ser descartado com o tempo. E “Pinaúna” se transforma em “Paranoia umbigo” (uma das origens do “Abrupta sede” e o segundo álbum da minha banda Pedradura, que acabou e nem show fez para lançar “Universo Telecoteco”, o primeiro).
Outro giramundo, 2014, “Paranoia umbigo” vai para a gaveta; no lugar, a bela homenagem ao amigo Hélio Pólvora com “O grito do mar na noite” (um anagrama com títulos de livros de contos do mestre). Mexe-mexe nesse original, descarto o trio de contos do escuro (ainda bem que não apaguei, só arquivei), que só vai voltar à luz no final do ano, como parte do original de um novo livro de contos: “Paisagem da insônia”. Uma aba: entre julho e setembro de 2014, tenho o prazer de reler o livro de crônicas “A descoberta do mundo”, da mestra Clarice Lispector, o meu predileto entre os livros da minha autora predileta, donde peneiro (p. 295) a frase “Brasília é paisagem da insônia”, da crônica “Nos primeiros começos de Brasília” (20 de junho de 1970), para ser usada como título de alguma obra minha. Entretanto, “Paisagem da insônia” não consegue ver nascer 2015 e é engavetado; ainda em dezembro, decido homenagear o poeta Ruy Espinheira Filho (assim como fiz com Hélio em “O grito do mar na noite”) e modifico o título para “O céu de sombras ao vento”, um anagrama com os livros de Ruy “Sob o céu de Samarcanda”, “As sombras luminosas” e “Julgado do vento”.
2015. Em menos de duas horas, distribuídas em quatro dias (entre 08 e 14 de janeiro), o amigo Mayrant Gallo faz a revisão editorial dos originais de “Como uma pedra”, “Hoje é sexta-feira 13” e “Que seja duro enquanto sempre”. Via Skype, eu, no apê 703-B da Pituba, leio em voz alta o que escrevi, e ele, no seu apê nos Barris, pausa a leitura para comentar problemas que identifica; é a cirurgia do texto: estirado na mesa, abro o conto a bisturi e o professor aponta onde ou como operar. É o mesmo método que mudou a minha vida em outubro passado, que me fez compreender os caminhos da minha linguagem artística como escritor e me afirmou como artista da palavra — o professor Mayrant me fez entender como enxergar o texto, captar as suas nuances, encontrar os seus defeitos; na real, um aulão de como ser um editor.
“Minha mãe me chama, é hora do almoço”, o cantador Belchior avisa, o rango está posto na mesa do apê 703-B, e a minha fome é outra: como é que vou homenagear um mestre da poesia numa obra de contos? Xô, incoerência: desisto do amigo Ruy e modifico o título para “Muralha & outras histórias” (em 2018, reciclo “O céu de sombras ao vento” numa antologia de poemas para tradução, que acaba sendo reinterpretado como “Wuthering Sky” pela tradutora Sabrina Gledhill — publico no blog em 2022 e retiro do ar em 2024).
Muita gente no Brasil queria aproveitar o verão de janeiro na Bahia, dias lindos para curtir praia nesse comecinho de 2015, e eu mergulho a cabeça na literatura: termino de reler os livros do professor e publico muitos trechos no meu blog (procure no Google: “Pílulas dos livros de Mayrant Gallo (1999 a 2014)” — vale a pena a leitura e encomendar as obras na Estante Virtual); trabalho no meu novo livro de contos & reencontro o mestre Hélio pela última vez na companhia de Mayrant; publico no blog um dos melhores posts sobre o professor: “Possíveis títulos retirados da obra de Mayrant Gallo”, com 28 sugestões que eu usaria nos meus livros (“Olhos abertos no escuro” e “Ontem nada, amanhã silêncio” pesquei daí, bem como a epígrafe “A nudez esclarece as pessoas”), e que podem inspirar os escritores (eu adoro batizar um livro com uma frase de outro autor) — afinal, para evitar “O emblema turvo do fim” e embalar “O apagamento irremediável das cicatrizes”, n’“Uma sensação de inútil suficiência” de “Gestos passivos diante da dor e do infortúnio”, é preciso soar “O eco dos passos sobre caminhos novos” —; e começo uma coluna semanal no blog chamada “Crônitos”, com textos curtos, proposta de fusão crônicas + contos.
Quinta, 22 de janeiro, começo da noite no cinema SaladeArte do Shopping Paseo Itaigara (na época, Cine Vivo; hoje, Cine Daten), assisto ao melhor filme que vi em 2015: o brutal esmagamento do indivíduo pelo Estado na obra-prima “Leviatã”, do diretor e roteirista russo Andrey Zvyagintsev. De volta ao apê 703-B, com a cabeça fervilhando de ideias, tenho uma pequena batalha com uma barata cascuda que se recusa a morrer. Já sei: eternizo o cruel esmagamento do bicho pelo humano no conto “Selvagem”. Na manhã seguinte, boto no mundo a coluna “Crônitos” (uma postagem semanal, sempre às sextas, de um conto com características de crônica), publicando o continho que me agrada como o “Crônito #01” (crio uma página no Facebook para facilitar a divulgação). É a volta do contista/cronista habitual, como lá nos primórdios da minha coluna “Andarilho”, no jornaleco Folha da Pituba, em 2000 (que rendeu os originais de contos publicados em “Abrupta sede” e o conto “Gabriel e Jéssica”, que foi reescrito & reciclado em “Fábula”, que encerra esta 2ª edição de “Olhos abertos no escuro”).
Não é bem assim. Desde o dia 17 que o meu trampo principal de criação é o roteiro de “Muralha”, sobre o goleiro que nunca tomou gol. Sem disposição criativa para atender às obrigações da “Crônitos”, assalto o original de “Muralha & outras histórias” e roubo o trio de contos no escuro para publicar no blog (sem condições de criar, recicla-se!). Assim, ganho fôlego de três semanas para escrever algo novo.
“Dia dois de fevereiro, dia de festa no mar”, Caymmi encanta. E eu não vou saudar Iemanjá (respeito a divindade e a crença dos outros; eu não sigo religiões), nem curtir a festa. Fico encruado, meio nauseado, energia baixa, até que, no final da tarde, resolvo o engongo com trabalho: dou início ao 2º tratamento do roteiro “Muralha”. Intercalado com os outros trampos, como o pré da Flica 2015 e o desacerto da parceria com Mayrant para publicação de “O grito do mar na noite” pela sua editora (brigamos por e-mail numa sexta-feira 13, um infortúnio que me deixou muito triste; mesmo assim, não hesitei de homenageá-lo em “Olhos abertos no escuro” ainda em 2015), o trabalho de roteirista continua fevereiro inteiro, inclusive durante o Carnaval, que só curto uma noite no Pelô com Lazzo & BaianaSystem; na outra, também no Pelô, tomo um bolo bizarro de uma ex-affair de férias no Brasil e não consigo superar a tristeza, mesmo com um monte de mulher querendo xamegar na folia. Contudo... como a montanha-russa faz circular as doideiras da vida do ruim ao positivo, ao menos, o feriado desastroso me rende o conto-xodó “Cinzas” (os seis dias de Carnaval de uma mãe solteira, duas filhas pequenas, entre a arrochada de camisola no corredor do hotel para um strip-tease via Skype a uma fossa regada pelo esmagamento do indivíduo pelo Estado no filme “Leviatã”), escrito na tarde da Quarta de Cinzas, 18 de fevereiro, pós-arrastão que só vi pela TV, e publicado como “Crônitos #05” dois dias depois.
Qualquer um volta para casa, depois do trabalho, e percebe que é só mais um medíocre solitário na multidão de medíocres, que vai morrer só e o seu legado é tão pífio que rapidamente será esquecido por qualquer um. Resumo os meus sentimentos sobre a existência na escrita do conto-xodó “Qualquer um” na quarta, 25 de fevereiro, deadline da “Crônitos #06”. A ironia: por esses dias, estou a trabalhar intensamente na montagem do meu portfólio artístico no site mirdad.com.br (publicado em março e apagado no final de 2016) — eis um medíocre que ainda insiste em permanecer.
Não estou conseguindo lidar com os prazos da coluna, envolvido com vários trabalhos, como o roteiro de “Muralha”, o pré da Flica 2015 com viagem de captação em Cachoeira, o lançamento do site e as tramitações finais para impressão de “O grito do mar na noite”. É tanto aperto, que só escrevo o “Crônitos #07” às vésperas de publicá-lo, em 05 de março, às vésperas de conhecer o show tributo a Bob Marley da cantora Renata Bastos, que me faz pirar na sua cozinha, a combinação incrível do baterista Iuri Carvalho e o baixista Fabrício Mota, e criar o projeto Orange Roots (culminaria no disco “Fluid”, com as minhas composições rock & folk transformadas em reggae em coprodução com o guitarrista Átila Santana). Pois o “Crônitos #07”, “Ingênio” (um ingênuo genial), é um xodó também: um astro da MPB rememora a sua importância para o público e a imprensa, a assumir o fracasso de ser apenas uma caricatura “genial” do que a sua carreira forjou no imaginário popular. Deve ser um porre peidar e alguém classificar como “gênio”. É uma prisão se qualquer coisa que você faça seja cultuada como incrível — ainda bem que a sorte me livrou de ser um ícone como Gilberto Gil.
É, não vou conseguir criar algo novo para a coluna. O jeito é reciclar, pesquisar no arquivo. Em mais uma véspera, quinta, 12 de março (em que crio a nova capa para “O grito do mar na noite”, baseada na belíssima foto de Theu Cerqueira), invisto o meio do dia para editar o arquivo “Deserto poema”: avalio todos os poemas e separo alguns para descartar. Como não consigo jogar fora, dou o baratino: transformo os poemas “Sem prorrogação”, “Sad vive” e “Em bom baianês: ‘Duas puta’” no crônito “Impermanência” (o original do homônimo desta edição, com os dois amigos que conversam sobre a transitoriedade da vida — todos, sem exceção, passam). Yeba! Se dá para salvar, para quê jogar fora? Habemus o “Crônitos #08” no deadline, ufa! E olha que dois desses poemas já foram reciclados de textos publicados na seção “Diálogo” e no post “À Face do Livro #01” do meu blog em 2011. Refazenda ingênia, hehe.
E o original de “Muralha & outras histórias”? No final de fevereiro, transfiro três contos para “O grito do mar na noite” e finalizo a 1ª edição com 10 contos. Então, passo a considerar a história do goleiro que não toma gol um romance, de novo, no vira-vira do giramundo (que só vai ser publicado em 2020 como “oroboro baobá”). E sigo na enxurrada de março, empolgado e com fome de escrever, dedicado a fundir o roteiro com o conto/novela no meu primeiro romance. É uma época inspirada, a valorizar ainda mais o verão: invisto 21 dias de trabalho na produção da história do goleiro Muralha, enquanto me viro nas reciclagens para manter viva a seção “Crônitos” — produzo o original de “Sem dó”, sobre uma mulher disposta ao matriarcado que não consegue arrumar um companheiro, feito a partir dos poemas “Encalhar-se” e “Sempre alerta” (reciclados de um “Minimico” e um “Diálogo” de 2010), e o crônito “Fraseando”, baseado em poema homônimo (reciclado de um texto do post “À Face do Livro #03”, publicado em 2011), sobre uma patrulheira de redes sociais que destila a sua inveja em posts corretinhos (o original de “Catiripapo”, presente nesta edição), feito um dia antes da morte do mestre Hélio Pólvora, aos 86 anos.
26 de março, quatro da tarde, vou para a despedida do amigo no cemitério Jardim da Saudade. No caminho do velório ao crematório, sigo ao lado de Mayrant. Vários escritores também estão presentes, como o escritor Carlos Barbosa, autor do romance “Beira de rio, correnteza”, que estou lendo por esses dias. Entre as homenagens no púlpito do crematório, há uma emocionante, proferida pelo gentleman (assim como Hélio) e escritor Aramis Ribeiro Costa, então presidente da Academia de Letras da Bahia (cujo imortal mais importante entrara hoje na imortalidade). Sentado ao lado de Mayrant, estou triste. Desejo em silêncio: vá em paz, meu amigo, meu mestre... luz... Hélio eterno! E aquele que fora autenticado e atestado como escritor homenageia o nosso imortal:
“Desapareceu o homem, calmo, gentil, generoso, sempre com um comentário inteligente e preciso acerca da literatura ou da vida. [...] Vivemos um tempo em que a grosseria e o mau gosto dão o tom das relações e, assim, sentimos mais profundamente quando se vai uma pessoa que era antípoda e adversa a tal tendência.”
1º de abril, uma quarta, abro uma exceção e antecipo a publicação do “Crônitos #11”, por conta do feriado de Semana Santa na sexta e o fator notícia de hoje; monto o conto “A farsa”, apropriado; sinta a sinopse: Ele é um grande canalha que finge estar só. Ela é uma atriz que pergunta o que nunca poderá compreender. Não existe “nós” no “eu te amo”. Barril! E é o mais reciclado de todos, feito a partir dos poemas “Solteiro”, “No pé da fonte”, “Chelpo”, “Objetividade masculina”, “Alegria?”, “É sempre oportuno...” e “A relatividade da posse” (e cinco destes já haviam sido reciclados de cinco “diálogos” publicados em 2010 e 2011).
Domingo de Páscoa, 05 de abril, um texto meu é publicado na revista Muito pela 1ª e única vez: “Lições de mestre”, uma homenagem ao amigo Hélio (fora encomendado pela jornalista e poeta Kátia Borges). Como houve edição com cortes, devido ao espaço da folha, decido publicar o original como “Crônito #12” no meu blog (mais uma semana de fôlego; o deadline está me lenhando!). Peneiro:
“Hélio Pólvora é a minha esfinge. A sua obra, robusta, tem a sacralidade de um ancestral, que exige de mim o respeito ao texto, ao papel que custou uma vida. Quando reviso o que escrevo, é o busto do mestre que aparece e diz: ‘Melhora isso aí, Mirdad, menos, seja mais preciso, encante, baile com as palavras, mas conduza o rumo pela técnica, ironize, cause reflexão, surpresa. Não seja óbvio’. Não é o homem que me diz isso, e sim a obra, tudo que pude aprender em leituras e releituras que fiz e sempre farei.”
É difícil colocar em prática essas lições, mas eu tento. Numa terça, concluo a versão “Muralha: O goleiro imbatível” do meu romance de estreia. Na quarta seguinte, finalizo o meu primeiro roteiro, baseado neste livro. Só vibro e corro atrás de projetar a filmagem de “Muralha” com a minha Aláfia Filmes (só tentativa; não abri a produtora nem realizei obra alguma). Daí, na quinta, 16 de abril, mato a coluna “Crônitos”. Sem tempo, irmão. Ou... cansei; atuar como cronista habitual exige uma dedicação que os meus múltiplos não podem se dar ao luxo. Apago todas as postagens da série no meu blog e transformo a página “Crônitos” do Facebook na minha página de autor, onde disponibilizaria também os meus livros, gratuitamente, a partir de 2017. Junto os crônitos publicados (exceto a homenagem a Hélio Pólvora) num novo original de livro de contos: “Selvagem”, “Como uma pedra”, “Que seja duro enquanto sempre”, “Hoje é sexta-feira 13”, “Cinzas”, “Qualquer um”, “Ingênio”, “Impermanência”, “Sem dó”, “Fraseando” (original de “Catiripapo”) e “A farsa”. Aproveito para resgatar da gaveta o clariceano & lindo “Paisagem da insônia” para o título. Yeba! Dessa vez, não há sombras ao vento para derrubá-lo do céu. O problema é que não gosto de livro fino; vou precisar de mais contos (o contrário de Mayrant, que já lançou vários, como “Dizer adeus”, “O enigma dos livros”, “Brancos reflexos ao longe” e, mais atual, “Onde morrem os heróis” — o clichê recomenda sabedoria: “Quantidade não é qualidade”).
Sextô, 17 de abril, após uma reunião com o prefeito de Madre de Deus (a Cali, a nossa produtora de então, e a Icontent, original da Bahia Eventos, da Rede Bahia, pretendiam realizar uma festa literária na cidade, mas o projeto não prosperou), decido zerar os poemas do arquivo “Deserto poema” (o livro “Nostalgia da lama” me basta; não quero mais poesia, só ficção). Então, começo a escrever um conto, que batizo justamente de “Deserto poema” (para não perder esse título que me acompanhou por tantos anos). Em dois dias, com quase oito horas de trabalho, mexo, remexo e fundo 18 poemas (a maior reciclagem, com “Coerente”, “Céu de Paraty”, “Sinfonia”, “Emissário”, “Agulhas no combate”, “Asno eu”, “Tolinho”, “Xerox da Xerox da Xerox da Xerox da Xerox da Xerox da”, “O alerta de si”, “Têmporas ao chão”, “Cães pensamentos”, “Cacos e adesivos”, “Honrado covarde”, “Do meu vazio cuido eu”, “Careful with that axe, Eugene”, “Inútil metáfora”, “Uma casa de asa” e “Um por tudo, todos por nada” — três destes já haviam sido reciclados de dois “diálogos” e um “minimico” publicados em 2010 e 2011) a novos enredos criados (sobre as decepções do professor Belizário com a literatura + a sagacidade da empresária Aisha, cuja especialidade é faturar em cima de mitos burgueses + o encontro surreal de um zumbi telepático, que oferece lições filosóficas a anjos e transeuntes carnais) na criação do conto-xodó que eterniza “Deserto poema”.
Entre 18 e 20 de abril, zero o meu arquivo de poemas não publicados ao reciclá-los (mais de trinta poemas) em quatro contos novos para o original de “Paisagem da insônia”, como “Play it again, Sam” (o original de “Dois talhos”, presente nesta edição), a retratar a diferença no tratamento da opinião pública quando se trata de uma assassina negra + o desencanto de um matador de aluguel, feito a partir dos poemas “Lavanderia”, “Tamagotchi” e “Cansaço de balaços”, e a coleção de malucos drogadaços (Cristal, Andrômeda, Peripinho, Xica...) girando no balão frágil de “Brutalistas”, montada a partir da reciclagem de 14 poemas: “Fundo do fígado”, “Atores jornalistas”, “Moloko Veloz”, “Mestre Ganja”, “Fuça-fuça”, “O intruso”, “Obstáculo ovo nascido”, “O elefante azul de catorze”, “Animais extremos”, “VíruSapiens”, “O fantasma”, “Suspensos”, “Matéria morta” e “I’m Tired”.
O que restou do meu arquivo? Esqueletos para futuros romances, donde assalto apenas a ideia de reunir várias experiências sexuais de um Ricardão, com muito entretenimento, sexo e traição. Assim, nasce o xodó “Amante”, com uma sutil mudança de sexo no ser que fode e as surpresas & reviravoltas que gosto de aplicar quando escrevo contos. E as peripécias desse ser que atende às necessidades sexuais de diversas mulheres, cada uma com um motivo distinto que justifica a traição, vêm ao mundo na bizarra quinta, 23 de abril, em que recebo da gráfica os exemplares de “O grito do mar na noite” todos com defeito (e o lançamento tem que ser adiado). PQP!!! É a vingança dos galhudos (acusam-me, por aí, que essas experiências foram reais...).
Exagero. É uma quintaça produtiva, a despedida da criação de contos na minha vida, para concluir, com satisfação, essa safra de textos 100% inéditos em 2015, sem reciclagens, de “Selvagem”, “Cinzas”, “Qualquer um”, “Ingênio” e “Amante”. À tarde, em dois momentos (pausa para receber o 3º filho, o que grita na noite), escrevo a minha “Lolita”, o conto-xodó “Ela não quis”, baseado num esqueleto criado em 29 de janeiro (inspirado por uma bela musa jovem, brevíssima colega de natação no Asbac — preciso citar que a natação foi muito importante para a construção do romance “oroboro baobá”; porém, por conta de grana apertada em 2019, sou obrigado a sair do Asbac em 26 de julho, a quatro meses de completar cinco anos ininterruptos no clube).
“Pássaros de Libra”, o original de “Despedaço” (presente no livro “Abrupta sede”), é o primeiro conto que escrevo. “Ela não quis”, presente nesta edição, o último (já havia decido não escrever mais poemas nem contos, e focar a minha carreira literária nos romances, para serem adaptados às telas, porque, na Bahia, tem mais poeta que habitante e ninguém está lidando com romances por aqui — é um filão!). E eu decido homenagear o professor Mayrant em “Paisagem da insônia”, assim como fiz com o mestre Hélio em “O grito do mar na noite”; invisto a noite do feriado de 21 de abril para selecionar as epígrafes do amigo para abrir os meus contos. Na quintaça 23, mando para ele por e-mail, pedindo autorização, que responde:
“Mirdad, todos os textos estão publicados. Que eu saiba, epígrafes não precisam ser autorizadas, mesmo assim, em profusão. São divulgação (gratuita) da obra do autor. Só posso me sentir lisonjeado com sua homenagem e desejar a você sorte na criação do livro, bem como sucesso com sua publicação. (...) Entenda-se aqui que, mesmo não sendo necessário, estou autorizando. De resto, pela quantidade de contos, 18, suponho que serão mais breves, menos extensos, fugindo à sua característica de contos mais longos, quase noveletas.”
Superamos a briga de fevereiro e estamos próximos, de novo. Absorvo várias indicações do professor e renovo a minha estante, passando adiante os livros ruins e comprando uma seleção de autores que nunca li e são fundamentais na literatura: o russo Anton Tchekhov, o italiano Dino Buzzati e o francês Guy de Maupassant, entre outros. O amigo se recusa a revisar “Paisagem da insônia” porque é o homenageado da obra. Estou em maio, busco opções e acerto com a revisora Acácia Melo Magalhães, indicada por Agenor Gasparetto, o dono da editora Via Litterarum (que se prontificou a publicar o livro, como fizera com “Abrupta sede” e “O grito do mar na noite”), para fazer o serviço (pago por mim). É o início de uma parceria que me satisfaz; Acácia revisa todos os meus livros (e outros em que estou envolvido) a partir daí. O inusitado: nunca nos encontramos pessoalmente e raríssimas vezes nos falamos ao telefone; quase tudo tratado sempre por e-mail. Ela envia o texto revisado, eu reviso a revisão dela, tiro as dúvidas e acertamos os pontos até concluir a ortográfica (eu que faço a revisão editorial — método aprendido com Mayrant em 2014).
Abril de 2015 é um mês importante para este livro, e eu volto a ele, porque no sextô 24, convido o escritor e roteirista Victor Mascarenhas (um dos malditos da “Urbaianos”, a coleção que não vingou) para escrever a orelha de “Paisagem da insônia”, desse jeito: “Comparsa! Depois de Aurélio [Schommer na orelha de “Abrupta sede”] e Márcio [Matos na de “O grito do mar na noite”], encerrar minha trilogia com você é uma grande satisfação”. E Mascarenhas aceita e entrega a gentileza em 13 de maio (com a mudança para “Olhos abertos nos escuro” e acréscimo de mais contos, teve que rever o texto). Segue uma amostra do presente revisado, publicado na 1ª edição em 2016:
“Um milenar ditado chinês diz: ‘Procure acender uma vela em vez de amaldiçoar a escuridão’. Não sei se li isso num velho livro ou num biscoito da sorte, mas o conselho pode ajudar você na leitura de ‘Olhos abertos no escuro’ (...). Na escuridão dos contos de Mirdad, todos são insones. Insones introduzidos pelas bem selecionadas epígrafes de Mayrant Gallo. Insones porque a prosa do autor é ruidosa e não tem quem durma com um barulho desses e acabamos todos acordados naquela solidão típica do leitor, no seu pacto silencioso com o livro. (...) Os olhos abertos podem se acostumar às trevas e nos conduzir pelos caminhos tortuosos da obra, prevenir contra armadilhas furtivas e até mesmo nos apontar picadas que sirvam de rota de fuga por entre os excessos de um autor sem filtros. E, enquanto o sol não nascer para dissipar o breu da noite escura de Mirdad, melhor seguir desperto, de olhos arregalados, para tentar sobreviver aos pequenos pesadelos deste livro. Boa leitura e boa sorte para todos.”
Segundo Mascarenhas, o provérbio chinês é “Procure acender uma vela em vez de amaldiçoar a escuridão”. E a frase peneirada como epígrafe para versões preliminares do meu romance “oroboro baobá” (no final, perdeu o lugar para um trecho do mestre Pepetela), do alemão Eckhart Tolle, presente no best-seller “Um novo mundo” (que nunca lerei; a frase foi dada pela minha mãe, num cartãozinho feito por ela), é “Em vez de culpar a escuridão, acenda a luz”. Hum. Boto Led Zeppelin para tocar por aqui. “Dazed and Confused”, faixa 4.
Bom, orelha resolvida, vamos ao posfácio. Quero alguém do quilate de Mayrant, que possa fazer um belo texto como o que foi sagrado em “O grito do mar na noite”. Sábado, 16 de maio, após leitura dos contos do mestre Tchekhov em “Um homem extraordinário e outras histórias”, telefono para o jornalista e escritor Carlos Barbosa, já citado por aqui (o autor do romance “Beira de rio, correnteza”, que li em março, donde peneiro: “O amor familial, às vezes, veste trajes funéreos, escava fossos tremendos e dispara galope em direções opostas, quando tudo que ambiciona é estender braços e olhares sobre uma mesa de jantar e deixar escapar a verdade que o encorpa, pois todo o resto desimporta à sua existência incondicional”), que aceita escrever sobre o meu terceiro e último livro de contos. O posfácio de “Paisagem da insônia” chega por e-mail no Dia do Rock, 13 de julho, e Carlos esclarece:
“Antes, quero lhe dizer que fiz o que consigo fazer: comentei seus livros. E comentei todos os três por um motivo simples: neles está sua obra em contos. E essa foi a ideia que moveu o meu texto. E foi por isso que lhe entrevistei. Considerei que uma atitude rara, como a sua, de encerrar o seu ciclo de contista, merecia um registro especial. E minha veia de jornalista e escritor falou mais alto. Mesmo porque não sou douto em literatura e o grande posfácio sobre sua literatura já foi escrito por Mayrant. (...) Dessa forma, ao ler meu texto, sinta-o como oriundo de um colega de ofício. E se você não o considerar adequado ao seu livro, tem toda a minha compreensão para não incorporá-lo. De minha parte, não partiria nenhuma crítica negativa ou muxoxo. Saberei compreender, já disse. (...) Na verdade, espero que o texto agrade seu paladar literário.”
Agradou, meu amigo! Que presente! E, assim como a orelha de Mascarenhas, com a mudança para “Olhos abertos no escuro”, você teve de revisá-lo. Perdão pelo retrabalho, hehe. Peneiro agora uns trechos do presente revisado, publicado na 1ª edição em 2016. Para começar, o grande destaque para o conto “Selvagem” (acredito que tenha sido o que você mais gostou):
“Guerra, sadismo, referências da crônica policial e dos seriados de tevê, descrições precisas, o homem preenchendo sua solidão noturna com a mais inútil das violências, matando a quem não morre. (...) Esmagar um inseto nem sempre resulta em prazer ou morte. Ou mesmo vitória, se é isso que se procura. Moreno é surpreendido pela cascuda, fica satisfeito com ‘o fim justo do inimigo’, depois, se impressiona com os restos que ainda se agitam e, por fim, horrorizado com o que lhe vem à mente, protege-se com algo higiênico. A sequência é precisa: matar, esquartejar, pensar em comer e despejar no lixo. (...) A morte da barata retrata, na verdade, a ‘morte’ do cidadão Moreno, você e eu. O indivíduo contemporâneo procura se locomover nas grandes cidades: notado pelo mais poderoso, é chutado pelo desemprego, espremido nos coletivos urbanos, assaltado com violência, atropelado por uma viatura, ferido gravemente, levado a um pronto-socorro, onde passa por sessões que lembram muito as descritas no conto. (...) Você é forte, resiste a tudo isso, ‘contorcendo-se violentamente, tentando escapar da ardência infernal’, e sai mutilado da experiência, brandindo uma muleta ou um toco de braço, para descobrir que agora é que o bicho vai pegar: desassistido pela Previdência, e pela Providência, deteriora-se sem remédios e nas filas do SUS, vai parar na sinaleira com uma cuia na mão, o vidro elétrico do carrão esmagando os dedos que sobram, sem saída, gangrenado, prestes a ser devorado pela cidade. (...) O poderoso não deixa quieto o mais fraco. Precisa se sentir forte na carne alheia, precisa testar sua potência de impingir dor, precisa de você, Moreno Barata, para se confirmar poderoso, ‘como um moleque que se entedia das traquinagens’. É nesse estágio que, antes de atacar o próximo cascudo que lhe cruzar o caminho, você é afastado com um peteleco até o lixão mais distante. Moreno é Deus, a barata, todos nós. Deus, em nosso tempo, veste uniforme de porteiro, recepcionista, fiscal de qualquer coisa, policial, político ou, ouço uma vozinha aqui dentro me lembrar, pai e mãe.”
Bravo, amigo! E você comenta a minha despedida dos contos:
“Mirdad sacudiu suas pulgas nas páginas deste livro. O contista se despede nos entregando, a par dos contos mais extensos, minicontos, prosa poética e alguns gritos sedentos, que ninguém é de ferro-gusa nessa casa de Noca, o grande circo da alma serumanizada. (...) De olhos abertos no escuro nem sempre resulta em contagem de carneirinhos. Isso logo me pareceu não ser a praia de Mirdad. Então, pressenti que as narrativas mais curtas deste livro, como nuns versos que escrevi para uma canção, teriam ‘a força de um pulso / batendo / no olho da escuridão’. E não me enganei.”
Uma aba: ao longo dos anos, as lições de Mayrant e a rotina profissional na produção literária, o cuidado com a palavra, coerência e precisão que, aliados ao hábito de leitura dos mestres e dos contemporâneos, me fazem evoluir na literatura ao ponto de renegar a carniça que é a 1ª edição do “Abrupta sede”. É uma porcaria! Mal escrito, cheio de erros, clichês e machismo gratuito, tenho vergonha que me dilacera. Se eu pudesse, comprava de volta todos os exemplares e tocava fogo (se bem que deixaria alguns guardados, porque eu amo as ilustrações do amigo Marceleza de Castilho e me sinto honrado pela orelha do amigo Aurélio Schommer). Relembro o mandamento fundamental para todo escritor iniciante: nunca publique o livro que acabou de escrever — enfie na gaveta, esqueça dele por, pelo menos, cinco anos, continue escrevendo e guardando, leia mais que escreva para voltar ao original e refazer tudo. Então, numa quarta, 08 de julho de 2015, começo a refazer o “Abrupta sede”. Quero lançar uma 2ª edição; seleciono os 12 melhores contos (engaveto os demais) e os reescrevo, com novos títulos e finais, e a revisão gramatical feita por Acácia Melo Magalhães (paga por mim) e a minha revisão editorial. Porém, a 2ª edição só dura 10 dias. Volúvel: não quero mais “Abrupta sede”. Pego os 12 refeitos e encorpo o original de “Paisagem da insônia”. Fecha aba. De volta ao posfácio, Carlos comenta dois clássicos, agora refeitos, do “Abrupta sede”:
“Em Botox, o autor fez o mergulho no mundo das aparências e ilusões de poder e glória terrenos, tão valorizados em nosso tempo, revelando truques e tramas traiçoeiros que promovem ascensão e ruína social. Em Sereno aceitar, revelou um reflexo patético de ilusão e aparência no extremo oposto da pirâmide social, com o mesmo objetivo e consequência: ascensão e ruína. Se, em Botox, a etiqueta valoriza o produto comum, em Sereno aceitar, o par de sapatos vermelhos representa a esperança de incorporação de valor — a busca de qualificação pessoal por meio de algo externo, o equívoco que tem padronizado as recentes gerações.”
O precioso leitor, resenhista de livros, cinéfilo, letrista de músicas, jornalista ético, profissional da Caixa responsável pela implementação da Caixa Cultural em Salvador, o prezado amigo Carlos, tem o dom da rara escrita, como nesses três trechos de sabedoria:
“O bem primordial do ser humano é a liberdade. Ódio é a não aceitação da liberdade do outro, é a confissão mais clara de que suas ideias não possuem nenhum valor que as sustentem”.
“Não deve ser suficiente ao escritor abrir o peito e despejar o que dele escorrer ou escapar, mas, sim, descer a nossas zonas mais sombrias, aos nossos infernos íntimos (...) para consagração de sua própria entrega à aventura da escrita”.
“Como saber, se não experimentarmos? Eu sou um que se considera imperfeito, incompleto e ansioso por conhecimento — o que sou, o que tenho, o que conheço, o que sei, ou o que penso ser, ter, conhecer e saber, parece-me muito pouco”.
Que nada... é muito! Carlos Barbosa, citando o Nobel francês du Gard, encerra o posfácio de “Olhos abertos no escuro” aconselhando o Mirdad romancêro:
“Ao ler seus contos, fico com a impressão de que Mirdad está no caminho certo, aquele apontado por Roger Martin du Gard, em seu monumental Os Thibault, na voz do professor Jalicourt, aconselhando Jacques, que queria ser romancista: ‘Apresse-se! Vá viver! Não importa como, não importa onde! (...) O mergulho na fossa comum! Nada melhor para limpar a gente. Movimente-se da manhã à noite, não perca um acidente, um suicídio, um processo, um drama mundano, um crime de lupanar! Abra os olhos, olhe tudo o que uma civilização arrasta atrás de si, de bom, de mau, o insuspeitado, o ininventável! E talvez que, depois disso, o senhor possa dizer qualquer coisa sobre os homens, sobre a sociedade... sobre o senhor mesmo!’. Então, tá. Seguimos todos de olhos abertos na escuridão.”
Axé! Estou na data especialíssima de 18 de julho (tem um capítulo inteiro dedicado a ela na 2ª edição do livro de memórias “O enigma de Mutujikaka...”), um sábado, e defino com o editor Agenor a publicação do meu 3º livro de contos, fundindo os 18 do “Paisagem da insônia” com os 12 selecionados & reformulados do “Abrupta sede”. Como Mayrant é o homenageado, não faz mais sentido manter a paisagem no título. Assim como Hélio no grito, precisa ser relacionado ao professor. Então, envio, por e-mail, 15 sugestões para Agenor decidir, sendo quatro formadas por anagramas de títulos de livros de Mayrant (“O inédito da infância”, “O adeus aos pés da tristeza”, “O reflexo de Kafka em pássaros da cidade esquecida” e “O inédito nem mesmo ao longe”), e onze retiradas de frases de contos dele (“O abismo cor de chumbo”, “O emblema turvo do fim”, “Uma escada rumo ao cinismo”, “O arredondamento vazio do grito”, “O súbito roçar da morte”, “Olhos abertos no escuro”, “Os dias existem para uma irremediável perda”, “Morre-se, e é tudo”, “Os corredores do insondável”, “O eco dos passos sobre caminhos novos” e “Um azul ainda mais sólido”). Agenor responde na hora e prefere “Olhos abertos no escuro” (seguido de “O abismo cor de chumbo” e “O súbito roçar da morte”). Concordo com ele. Eis que o belo “Paisagem da insônia” vaza direto para o túmulo dos arquivos (atualmente, nomeia uma sugestão de romance que ainda não escrevi).
O original da 1ª edição de “Olhos abertos no escuro” fica pronto em 31 de agosto. A Via Litterarum quer lançar no final de 2015. E me vem à cabeça um livro de contos: “Naquele exato momento”, do mestre italiano Dino Buzzati, lido em junho, quando estava a trabalhar em uma das versões preliminares de “oroboro baobá”. Assim como “As noites difíceis”, influencia a minha literatura, traduzido também pela professora Fulvia M. L. Moretto. E este trecho me emociona (sou filho de pais velhos e sempre tive respeito, admiração, cuidado e carinho pelos idosos):
“Nenhuma sociedade, de fato, é tão baixa e desonrosa como a que repele os velhos para as margens da estrada, humilha-os e esquece-os, dizendo-lhes com pobres palavras: — Viveram suficientemente, agora fora! (...) Nenhuma sociedade é tão ignóbil como a nossa (...) onde aos velhos se deixa mais ou menos o lixo e se acha graça (...) E então os vemos pela rua, olhando ao redor, tímidos, pedindo desculpas por ainda estarem aqui (...) As crianças têm a infinita vantagem de terem sido postas no mundo por vocês, vocês têm o crédito, enquanto os velhos carregam o erro imperdoável de terem consumido a vida por vocês, para vocês tudo, trabalho, sacrifícios, amor, na melancólica ilusão de que um dia vocês lhes restituiriam um pouco daquele bem. Pior ainda: carregam o erro de não lembrar mais a infinita conta que lhes poderiam apresentar: e aqueles olhares humildes, cansados e submissos os cortam mais do que um remorso.”
A celebrar o 2015 literário (livros & leituras, Flica ampliada com a entrada do Governo da Bahia como patrocinador “apresenta”, cabeça & alma vibrando pela literatura), aproveito para citar as dez melhores (dentre as 30 selecionadas) epígrafes do homenageado Mayrant que abrem os contos da 1ª edição de “Olhos abertos no escuro”. Segue o top ten (a campeã vem do livro de poemas “Recordações de andar exausto” para abrir o xodó “Cinzas”):
“O lado vazio da cama
É a presença humana
Que mais atemoriza...”
Está certo que já citei esse dogma antes por aqui, mas é um resumo tão preciso do que a vida faz com as nossas boas ideias que merecemos relembrar; da refazenda de “O inédito de Kafka” para o junino “Como uma pedra” (título que homenageia “Like a Stone”, da banda Audioslave, a melhor música para dirigir, ao final da tarde, lançada nos anos 2000; uma das canções prediletas da minha vida):
“Sempre tem alguém que faz antes de nós o que pensamos fazer.”
O livro de minicontos super-xodó “Nem mesmo os passarinhos tristes” (o meu predileto do professor) rende páginas & páginas de epígrafes, mas escolho esta pancada para introduzir “Derrame” (conto cortado nesta edição):
“Sonhou que transava com três mulheres. Mais: que as satisfazia. Acordou, e nem a esposa estava ao seu lado.”
Não escapo de passear pelo boleiro “O gol esquecido” e iluminar a abertura de “Deserto poema” com essa máxima oroboro-baobana (serviria muito para abrir o meu primeiro romance):
“Assombrava-me a afirmação de que o que acontece já aconteceu. De que o presente foi, o futuro é, e o passado será. De que o que se diz já foi dito. Em suma: o que se afirma que vai ocorrer já ocorreu; apenas estamos nos lembrando do fato, que não passa de um porvir reincidente.”
Busco a ironia do mestre no livro “Nem mesmo os passarinhos tristes” para apimentar o tedioso “Hoje é sexta-feira 13”:
“Disse que ia sair para comprar cigarros... E o fez mesmo. Voltou para casa e está dormindo.”
Abro a “Impermanência” com o fatalismo de “O inédito de Kafka”:
“O homem não pode sobreviver além do limite imposto pelo tempo, pela dor. Não pode suplantar a morte, se manter jovem e viril. Tudo o que o homem faz é porque já o traz embutido; tudo, toda ação é, portanto, uma peça a mais montando o emblema turvo do fim.”
“Selvagem”, o predileto de Carlos Barbosa, recebe uma pancada do célebre “Três infâncias”:
“A mão que arrebata você é tão grande, e forte e cerrada, e você se sente tão oprimido e abandonado, que cedo lhe vem a compreensão, irrevogável, de que todas as pessoas têm direito natural à vida, não importa o que façam com ela. Você revê — ou relê — a vida e a compreende a partir do seu destino infame.”
O xodó “Ingênio” extrai do romance “Os encantos do sol” a única opção:
“É preciso compreender que o culto ao passado, muitas vezes, não constitui um sintoma de fraqueza, nem de loucura, nem de tédio, mas a única opção que nos resta.”
Da coletânea “82: uma copa | quinze histórias”, peneiro o conto do professor e escolho o trecho que, ironicamente, abre “Vingança”, do repertório “Abrupta sede”:
“Nenhuma dor coletiva é maior que uma dor individual. Nenhuma onda, tendo varrido toda uma enseada com seus barcos e seus banhistas, supera a dor de uma ausência pessoal, a dor de um braço cortado, a dor de um coração partido.”
E, para encerrar o top ten das epígrafes de Mayrant Gallo em “Olhos abertos no escuro”, visito o policial “As aventuras de Nicolau & Ricardo” e peneiro a poética que abre “Fraseando” (o original de “Catiripapo”):
“Um domingo vazio, sem movimento. O sol, por entre os edifícios, projeta sombras contra ruas e becos. Não há sentido no espaço, nem no tempo, pois não há pessoas à vista; só artérias de sombras e luz, reflexos que, partindo das janelas, cortam o vazio, cruzam o ar e repousam no vácuo daquela tarde sem propósito.”
Viva Mayrant Gallo! Bravo, mestre! Por isso, tome mais uma, do excelente livro de contos “Cidade singular”, a abrir o xodó “Qualquer um”:
“Isaac compreendeu que era realmente depois da morte que o sujeito se transformava em ninguém, nada, algo nulo, um objeto de uso, o veículo do desejo alheio ou, talvez, o repositório de seus sonhos frustrados, de seus desejos adiados e suas escolhas malfeitas. Seu tio jamais fora religioso, e agora o era; jamais pensara em se salvar, e agora, morto, segundo o padre, entrava no Paraíso; jamais pensara em Deus senão com sarcasmo e desprezo, e agora era o próprio pensamento corporificado de Deus.”
Brutal! Socorro... Giramundo, a (então) namorada fotógrafa Sarah Fernandes (filha da poeta Mônica Menezes e enteada do amigo Carlos Barbosa) vai me prestigiar na Flica 2015, e a sua presença em Cachoeira rende várias registros artísticos muito bonitos; a sua foto da janela do quarto 105, da Pousada Convento do Carmo (o meu quarto na maioria das edições da festa), tirada no sábado, 17 de outubro, é autorizada para ser a capa da 1ª edição de “Olhos abertos no escuro” (no final de semana anterior, seleciono os melhores trechos de cada conto e divulgo no blog e redes para esquentar o lançamento). E o livro segue para a gráfica em novembro (tiragem de 100 exemplares custeada apenas pela Via Litterarum); eu e a editora agendamos o evento para dezembro, num bar na Pituba.
Escrevo a 1ª edição do livro “Olhos abertos no escuro” ao som do duo estadunidense Hammock, com 30 contos (18 do “Paisagem da insônia” e 12 da refazenda “Abrupta sede”) nesta ordem: “Absoluto”, “Impermanência”, “Qualquer um”, “Ela não quis”, “Formigas”, “Que seja duro enquanto sempre”, “Ingênio”, “Sereno aceitar”, “Alucinação”, “Botox”, “Despedaço”, “Selvagem”, “Derrame”, “Maestro”, “Deserto poema”, “Como uma pedra”, “Vingança”, “Brutalistas”, “O barão do cagaço”, “Cinzas”, “A farsa”, “Pássaros deliram”, “Play it again, Sam”, “Sem dó”, “Farfalla Solar”, “Adonias Chumbo”, “Fraseando”, “Hoje é sexta-feira 13”, “Amante” e “O Reino”.
Tarde de sábado, 07 de novembro, Sarah me dá o presente de fazer as fotos minhas para divulgação do lançamento, no cinema SaladeArte da UFBA e no Palacete das Artes, nos bairros do Canela e da Graça, em Salvador (uma delas ilustra a resenha de “O grito do mar na noite” que saiu no Rascunho #192 em 2016, e a outra usei como perfil por anos — e ainda é do meu YouTube —, ambas na SaladeArte). Além disso, ela começa a gravar vídeos comigo lendo os melhores trechos dos contos, tanto de “O grito do mar na noite” quanto de “Olhos abertos no escuro” (posteriormente, apago esse conteúdo do YouTube e do blog, triste com o resultado pífio de views, assim como o dos vídeos com os poemas de “Nostalgia da Lama” — desinfluencer, é claro). Dedico semanas na função de divulgar os meus livros e o lançamento, trabalhando como assessor de imprensa também. Mas...
O editor me alerta que a gráfica estava tendo uns atrasos. Mesmo assim, ele me tranquiliza que os exemplares de “Olhos abertos no escuro” estariam garantidos no lançamento. Será? Sinto um mau presságio. À tarde de uma sexta de dezembro, na sala de embarque no aeroporto (eu e Sarah fomos curtir o show do mestre supremo da guitarra, David Gilmour, em São Paulo), recebo a notícia de Agenor: problemas na capa de “Olhos abertos no escuro”, o lançamento pode ser adiado. Decidimos arriscar; a divulgação já estava na rua. Pfff... Absurdamente um dia antes do evento, a gráfica informa que não consegue enviar os 100 exemplares (só chegaram uma semana depois). PQP! Cancelado na véspera. PQP! Fracassa toda a assessoria que fiz, os contatos, a divulgação (quando lançamos no mês seguinte, não saiu nada na imprensa). Que ódio! Mais um lança adiado na minha carreira; só que, desta vez, passo vergonha. Que mico! Me lasquei...
Fico tão PUTO com isso, que eu não quero saber de trabalhar no meu romance. Escrever para quê? Ser humilhado? “La littérature, pour quoi faire?”, Antoine Compagnon me perturba. Largo de banda, vou fazer outras coisas. Visito Andréia Gallo no hospital, mostro a homenagem que fiz ao seu companheiro em “Olhos abertos no escuro”, ela folheia as páginas, parece estar satisfeita com essa singela parte do reconhecimento que Mayrant merece; agradece, frágil. Dias depois, ela perde a batalha contra o câncer e morre. Tristeza no velório e no funeral em 30 de dezembro; o amigo está arrasado. Mais à frente, em 2017, publica, no seu blog Não Leia!, uma bela homenagem a ela no dia em que faria 50 anos, caso viva. Peneiro:
“Talvez a pessoa mais inteligente que conheci, ela era, no entanto, e sem nenhum paradoxo, generosa e muito discreta. Uma alma boa, delicada, que, por 24 anos ininterruptos, dividiu-se comigo e, sem nem mesmo uma única palavra ríspida ao longo de todo esse período, me ensinou que a grandeza está em ser pouco ou mesmo nada, em ser contido e moderado, se não anônimo. Ela viveu assim, e assim partiu. Jovem, e creio que irrealizada, mas ainda assim completa. Sábia. (...) Ela amava as estrelas, os planetas, as galáxias. À noite, com frequência, buscava no céu estes seres perdidos para os quais nós, indivíduos comuns, viramos as costas com desdém. Não raro, ao acordar, me dizia que sonhara que estava voando. (...) E não foram poucas as vezes em que Andréia me contou sonhos de profundos mergulhos no céu. Mergulhos que ela lamentava não ser de verdade, impulsionada que se sentia pelas asas vorazes de seus sonhos. (...) Onde estará ela agora? No céu? Talvez. Ou, melhor dizendo, seguramente no céu. Mas não neste céu banal e enganoso em que os religiosos depositam todas as suas fichas. No céu propriamente. Físico. O céu com o qual ela tanto sonhara. O céu de mistérios, luzes, cores, abismos e, por certo, seres melhores do que nós.”
2016. Estou em 26 de janeiro, uma noite de terça. No bar & restaurante San Pietro Tapas, na Rua Amazonas, 1252, Pituba (daria lugar a uma cantina em 2017), a Via Litterarum promove a noite de autógrafos da 1ª edição de “Olhos abertos no escuro”, após o lançamento cancelado na véspera. Amigos queridos estão presentes, escritores e a minha mãe também (Sarah faz as fotos), mas muito, muito menos gente do que nos lançamentos de 2015 e 2014. Os mortais 17 autógrafos almoçam o meu orgulho. Sinto-me um fracassado. E não quero mais saber desse tipo de evento.
O melhor da noite: mesmo em luto pela perda recente da sua amada Andréia, o amigo Mayrant vai ao evento, e eu fico muito emocionado com a sua presença — os pés estão quentes na noite fria. Registro no meu blog, com mais reverência: “Para quem não o conhece, esse é Mayrant Gallo, o melhor escritor baiano em atividade (embora o poeta eu considere Ruy Espinheira Filho), uma biblioteca viva de leituras, uma enciclopédia de cultura pop e erudita”.
“Olhos abertos no escuro” cai, imediatamente, no ostracismo. Ninguém comenta, nenhuma resenha, não circula, não vende. Escuridão quase total. O único lampejo surge em fevereiro de 2017: a booktuber paulista Rita Araújo destaca o livro entre as leituras que fez em janeiro, ao lado de obras como o romance “Hibisco roxo”, de Chimamanda Ngozi Adichie, o infantojuvenil “Uma escuridão bonita”, de Ondjaki, e o fundamental “Toda poesia”, de Ferreira Gullar (sou fã!). Bom, a refletir sobre a montanha-russa de altos e baixos, impressiona a diferença entre os dois livros de contos: enquanto o derrotado é ignorado pela imprensa e só conquista um comentário de booktuber, “O grito do mar na noite” rende (que eu saiba) matérias em jornais e sites, entrevistas na TV, rádio e internet, críticas no Rascunho, revista Trupe e em blogs de escritores. Os olhos estão fechados; o grito ecoa.
2017. Procurando o que fazer após concluir mais uma versão de “oroboro baobá” (chamado de “Miwa” na época), decido resgatar os contos da 1ª edição de “Abrupta sede” que não foram selecionados e reformulados na leva da 1ª edição de “Olhos abertos no escuro”. Estou numa segunda, 21 de agosto, tão empolgado com a minha literatura de volta aos contos que penso além: vou reuni-los numa “obra completa”, toda revista e reescrita. Porém, vou arrumar primeiro os poemas. E, em setembro, o estalo da refazenda acontece: eu quero ser lido também depois de morto, não quero ficar “fora de catálogo”, que se dane o livro (ninguém valoriza, é caro para ser produzido e não vende, e você ainda recebe míseros 10% pelo trabalho todo que teve de fazer, sustentando a editora e a livraria), o meu compromisso é com a obra; por isso, os meus livros serão editados por mim, com os PDFs disponibilizados para download gratuito no meu blog, para que a obra permaneça acessível enquanto o Google existir, para além da minha morte, das decisões de herdeiros ou do desinteresse de editoras.
Após aprontar a poesia completa em “Quem se habilita a colorir o vazio?” (e lançar o livro virtual no meu niver de 37 anos), antes de 2017 acabar, retomo o trabalho em “O limbo dos clichês imperdoáveis”, que reunirá todos os contos. Uma pausa pela prestação da Flica 2017 aqui, outra parada por conta de nova versão do romance ali, e o trabalho só embala mesmo a partir de março de 2018, num hard work doido de refazenda dos contos e editoração do livro virtual até o lançamento no meu blog (no processo de feitura dele, virando domingo a domingo na função, fui quase um eremita sem festa nem sexo e quase empacotei com uma dor de cabeça brutal e muito cansaço; o que me ajudou foi ouvir muitas bandas do gênero post-rock, como Sigur Rós, This Will Destroy You, Esmerine, VAR, This Patch of Sky e Tortoise).
O livro “O limbo dos clichês imperdoáveis”, contendo os 60 contos que produzi em 18 anos, é lançado virtualmente em 28 de maio de 2018. Os meus livros “Abrupta sede”, “O grito do mar na noite” e “Olhos abertos no escuro” estão superados (os contos são reescritos, revistos, revisados e finalizados) pela obra completa, até então. Pronto. Como só quero ser romancista (ops, melhor dizendo, romancêro), sepulto o contista em “O limbo dos clichês imperdoáveis”. O título resume bem. Brancas nuvens...
Bom, nesse processo de refazenda em 2018, volto ao sextô, na tarde de 20 de abril, em que resgato o conto “Ancestro” do túmulo dos arquivos; escrito entre 2005 e 2007, reciclado do poema “Segredos ancestrais” e da sinopse “Israel Deodato”, fez parte do “Livro Domês”, um original híbrido com “telas” de colagens (poemas concretos), poemas, poetrix, contos e sinopses para adaptações cinematográficas, uma das origens do “Abrupta sede” (o conto não foi selecionado para a 1ª edição deste). A ideia é boa, mas mal executada. Sem problema; dou meu jeito, reescrevo a triste sina do homem-bomba de direita, ao som do duo estadunidense de música ambiente Stars of the Lid, e mudo o título para “Israel Deodato” (presente nesta edição). Vamos filmá-lo?
Feriado de 21 de abril num sábado ninguém merece. Porém, no hard work brabo do limbo, fase SOS Malibu, não me importa. Entre a manhã e após o almoço em família com mãe e irmã Tita, resgato “Intrusoer” da tumba (mesmo processo “Livro Domês” do conto acima; agora, reciclado do poema “Por baixo da pele” e da sinopse “Miwa” — origem do nome que batiza uma personagem importante de “oroboro baobá”). Reescrevo as reflexões da moça em férias na praia no novo “Entre o nebuloso e o desanuviado” (presente nesta edição), meio intrincado, sem muito apreço.
Quando da refazenda abrupta em olhos, em 2015, escrevi uma nova abertura para o xodó “Despedaço” em 23 de julho. Agora, na refazenda para o limbo, encasqueto com o floreado dela e, influenciado pelos cortes secos do mestre Anton Tchekhov, salvo “Despedaço” desse esparro e invento um miniconto para não jogar fora em 15 de abril (rememorando a beleza de pôr do sol em Morro de São Paulo que presenciei num quarto panorâmico da Pousada Natureza em 2013). Dias depois, domingando na função do limbo, mexo umas coisinhas e eternizo “A interferência arruinadora das inutilidades” (presente nesta edição) sem interferências no achamento de 22 de abril — talvez fosse melhor a cesta do lixo.
Cito “Despedaço”, relembro que é o ponto final do primeiro conto que fiz, “Pássaros de Libra”, lá na conclusão de abril do ano 2000, a estreia da minha coluna “Andarilho” no Folha da Pituba. Pois bem, dos sete contos que publiquei no jornaleco, o único que não havia sido reaproveitado é “Gabriel e Jéssica”. A vibrar na sincronia, ainda na domingueira de acima, invisto três horas para tentar salvar a porcaria. Luto como a peste, e o resultado, meio pífio, é reescrito & reciclado como “Fábula” (que encerra esta 2ª edição de “Olhos abertos no escuro”), concluído na segunda 23, antes de ir ao cardiologista e me reunir com o dono do Hiperideal e o então prefeito de Cachoeira para tentar renovar o patrocínio para a Flica (não conseguimos).
Giramundo, 2024, sinto falta de ter novas edições impressas dos meus livros em mãos para vender ou dar de presente a pessoas que se surpreendem com um “você é escritor?”. Que o livro impresso não se dane mais! Vou preparar as novas edições de cada obra que lancei. Então, depois de produzir a 2ª edição de “Quem se habilita a colorir o vazio?”, desmembro “O limbo dos clichês imperdoáveis” em novas edições dos meus três mosquiteiros de contos. O trabalho no novo “Olhos abertos no escuro” dura quase 23 horas em 11 dias, investidas em maio e agosto de 2024, em que reviso editorialmente todos os contos, Acácia Melo Magalhães faz a última revisão (paga por mim) e eu reviso a revisão, finalizando os percursos dos contos.
2026, janeiro de verão baiano, decido retomar o projeto das novas edições. Os originais estão prontos desde 2024, engavetados por conta do 2025 exclusivo para os eventos da Mirdad Cultura. Após concluir o original e o PDF editorado das novas edições dos livros “Nostalgia da lama”, “Abrupta sede” e “O grito do mar na noite", invisto abril de mais uma guerra dos EUA contra o mundo (com todo ódio possível contra os sionistas do Israel genocida) para editorar a 2ª edição de “Olhos abertos no escuro” (e organizar & escrever esta página interminável de dados & memórias), em que decido não publicar o posfácio de Carlos Barbosa nem a orelha de Victor Mascarenhas, uma opção editorial que padroniza as novas edições (sem a presença de outros além do autor).
Comparando as duas edições de “Olhos abertos no escuro”, 14 contos da 1ª edição foram cortados: “Absoluto”, “Formigas”, “Sereno aceitar”, “Alucinação”, “Botox”, “Despedaço”, “Maestro”, “Vingança”, “O barão do cagaço”, “Pássaros deliram”, “Adonias Chumbo” e “O Reino” (os 12 do “Abrupta sede”) + “Derrame” e “Farfalla Solar” (arquivados). Acho importante informar as alterações de títulos em dois contos da 1ª edição: “Play it again, Sam” para “Dois talhos” e “Fraseando” para “Catiripapo”. Dos contos reunidos em “O limbo dos clichês imperdoáveis”, adiciono quatro nesta edição: “Israel Deodato”, “A interferência arruinadora das inutilidades”, “Entre o nebuloso e o desanuviado” e “Fábula”. E a 2ª edição de “Olhos abertos no escuro” traz uma nova ordem, a refletir a minha preferência dos contos — apenas “Ela não quis” está na mesma posição (“Ingênio” subiu uma posição e “Brutalistas” desceu uma); e a combinação “Catiripapo” seguido de “Hoje é sexta-feira 13” é mantida também.
Dos livros lidos em 2010 e 2011 (não tenho os registros do que li entre 2000 e 2008, nos primórdios de “Olhos abertos no escuro”), quando escrevi as postagens no Facebook e das séries do blog “Minimico”, “Diálogo” e “À Face do Livro” (alguns textos foram reutilizados em “A farsa”, “Sem dó”, “Deserto poema”, “Impermanência” e “Catiripapo”, além da produção dos originais de “Que seja duro enquanto sempre” e “Hoje é sexta-feira 13”), são estes os que eu considero como os mais importantes para a minha formação como leitor e escritor: o livro de minicontos “Nem mesmo os passarinhos tristes”, de Mayrant Gallo; os romances “Pornopopeia” e “Tanto faz & Abacaxi”, de Reinaldo Moraes, e “Perto do coração selvagem”, de Clarice Lispector; os livros de contos “Umidade”, de Reinaldo Moraes, e “Retratos imorais”, de Ronaldo Correia de Brito; a biografia “Clarice, uma biografia”, de Benjamin Moser; o livro de poemas “Em alguma parte alguma”, de Ferreira Gullar; e os ensaios de André Setaro em “Escritos sobre cinema: Trilogia de um tempo crítico”.
Dos livros lidos durante o processo de feitura do original “Pinaúna” (as versões finais de três dos 11 contos estão nesta edição), em novembro e dezembro de 2012, apenas a HQ “Toda Rê Bordosa”, de Angeli, considero como importante para a minha formação como leitor e escritor. Porém, dos lidos em 2012 fora dos dias desse trabalho, preciso destacar estes como os mais importantes para a minha formação: os livros de contos “Melhores contos”, de Hélio Pólvora, e “Brancos reflexos ao longe”, de Mayrant Gallo; a antologia “50 contos de Machado de Assis”, organizada por John Gledson; o livro “Crônicas de Armando Oliveira”, organizado por Olívia Soares e Franciel Cruz; o livro “Poemas”, de Wisława Szymborska; e a HQ “Ordinário”, de Rafael Sica.
Dos livros lidos durante o processo de entra e sai de originais e revisão do trio de contos do escuro (as versões preliminares de “Que seja duro enquanto sempre”, “Hoje é sexta-feira 13” e “Como uma pedra”), em agosto e novembro de 2014 e janeiro de 2015, apenas o livro de ensaios “O demônio do meio-dia”, de Andrew Solomon, considero como importante para a minha formação como leitor e escritor — preciso destacar também as releituras especiais do livro de crônicas “A descoberta do mundo”, de Clarice Lispector, um dos mais importantes da minha vida, e da obra de Mayrant Gallo, com destaque para os livros de contos “Três infâncias”, “Cidade singular”, “As aventuras de Nicolau & Ricardo: detetives” e “O gol esquecido”.
Dos livros lidos durante o processo de feitura da 1ª edição de “Olhos abertos no escuro”, de janeiro a junho + agosto e novembro de 2015, são estes os que eu considero como os mais importantes para a minha formação como leitor e escritor: os romances “O deserto dos tártaros”, de Dino Buzzati, e “Aprender a rezar na era da técnica”, de Gonçalo M. Tavares; a antologia “Os cem melhores contos brasileiros do século”, organizada por Ítalo Moriconi; os livros de contos “A dama do cachorrinho e outros contos”, “Um homem extraordinário [e outras histórias]” e “A dama do cachorrinho [e outras histórias]”, de Anton Tchekhov, “O voo da madrugada”, de Sérgio Sant'Anna, “As noites difíceis” e “Naquele exato momento”, de Dino Buzzati, “As grandes paixões”, de Guy de Maupassant, e “Melhores contos”, de Orígenes Lessa. Porém, dos lidos em 2015 fora dos dias desse trabalho, preciso destacar estes como os mais importantes para a minha formação: os livros de contos “O beijo e outras histórias”, de Anton Tchekhov (a sua melhor antologia publicada no Brasil, traduzida por Boris Schnaiderman, um dos cinco melhores livros lidos nos anos 10, dos mais importantes a me influenciar e que me apresenta o conto do russo de que eu mais gosto, “Enfermaria nº 6” — tematicamente próximo à [também] obra-prima “O alienista”, do bruxo Machado de Assis), e “Melhores contos”, de J. J. Veiga; e o livro de poesia “Correntezas e outros estudos marinhos”, de Lívia Natália.
Dos livros lidos durante o processo de feitura de “O limbo dos clichês imperdoáveis”, especificamente sobre o trabalho nos contos vindos de “Olhos abertos no escuro”, de março a maio de 2018, apenas o romance “Crônica do Pássaro de Corda”, de Haruki Murakami, e a biografia “Belchior: Apenas um rapaz latino-americano”, de Jotabê Medeiros, considero como importantes para a minha formação como leitor e escritor. Porém, dos lidos em 2018 fora dos dias desse trabalho, preciso destacar estes como os mais importantes para a minha formação: o essencial “Toda poesia de Augusto dos Anjos”; o livro de crônicas “Ingresia”, de Franciel Cruz; e o livro-reportagem “A ilha de Sacalina”, de Anton Tchekhov.
Como o período de produção desta reedição é curto, não destaco nenhum livro como o mais importante lido durante o processo de feitura. Porém, dos lidos em 2024, ou seja, fora dos dias de trabalho nesta reedição, preciso destacar estes como os mais importantes para a minha formação como leitor e escritor: os romances “O alegre canto da perdiz”, “Niketche: Uma história de poligamia” e “Ventos do Apocalipse”, de Paulina Chiziane, “O mapeador de ausências”, de Mia Couto, “4 3 2 1”, de Paul Auster, e “Sobrevidas” e “Paraíso”, de Abdulrazak Gurnah; os livros de memórias “O ano do pensamento mágico”, “Noites azuis” e “Sul & Oeste”, de Joan Didion, e “Na pior em Berlim, Londres e Salvador: Uma aventura bipolar no inferno”, de Joana Rizério; os livros de ensaios “Garotas brancas”, de Hilton Als, e “Vou te dizer o que penso”, de Joan Didion; e os livros de poemas “O meu corpo humano”, de Maria do Rosário Pedreira, e “P/ o homem da rua K”, de Jovina Souza.
Por fim, nos dez dias em que concluo a 2ª edição de “Olhos abertos no escuro” em 2026, destaco apenas um livro como o mais importante lido durante o processo de feitura: a ironia de Ambrose Bierce em “Dicionário do Diabo”. Na trilha sonora, álbuns da cantora e compositora estadunidense Jewel (estou a elaborar uma seleta com a sua obra — sou fã do começo da sua carreira, voltado ao folk, e recomendo os álbuns “Pieces of You” (1995) e “Spirit” (1998). Relembro que, diferente dos outros livros de contos, todos feitos no apê 703-B da Pituba, “Olhos abertos no escuro” tem produção em dois lugares fora de Salvador, no interior da Bahia: no dia de São João, à noite de 24 de junho, em Cruz das Almas, 2010, começo a escrever o conto “Docinho”, para ser publicado no blog “Meu Divã é na Cozinha”, da amiga Vanessa Souza; só termino o conto (original de “Como uma pedra”) em Cachoeira, à tarde de 25 de junho (por e-mail, escrevo: “Comecei ao som do Audioslave, com as músicas Like a Stone, I am the Highway e Getaway Car, e terminei hoje, há pouco, ao som do ventilador de teto presente”).
A produção da 2ª edição deste livro começa numa terça, 07 de maio de 2024. Porém, para ter uma noção melhor do trabalho investido em “Olhos abertos no escuro”, prefiro contabilizar desde a nascente, lá numa outra terça, também em maio, só que no dia 16, ano 2000, a partir da criação do conto “Gabriel e Jéssica”, a versão original do conto “Fábula”. Então, após 200 horas transcorridas em 130 dias, passando pela coluna “Andarilho”, originais de “Livro Domês” e “Paranoia umbigo”, séries do blog “Minimico”, “Diálogo”, “À Face do Livro” e “Crônitos”, originais de “Pinaúna”, “Paranoia umbigo”, “O grito do mar na noite”, “Paisagem da insônia”, “O céu de sombras ao vento” e “Muralha & outras histórias”, impresso “Olhos abertos no escuro” e virtual “O limbo dos clichês imperdoáveis”, numa jornada de mais de 25 anos, finalizo a nova edição (que quero acreditar ser definitiva) de “Olhos abertos no escuro” com 20 contos no dia em que, 11 anos atrás, matei a coluna “Crônitos” (e dei o impulso principal para tornar essa coleção de retalhos e raspa de tacho no meu último livro de contos), no home office do apartamento 1101, da amada rainha caramelo Nara Noronha, localizado no bairro de Piatã, em Salvador, capital da Bahia, Brasil.
16 de abril de 2026
Emmanuel Mirdad
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